Então chega novembro de 2007 e estréia nos cinemas brasileiros “Os Donos da Noite”. Dirigido por James Gray, mesmo diretor de Caminho Sem Volta, também selecionado no Festival de Cannes, e também com Mark Whalberg e Joaquin Phoenix (mas sem Charlize Theron, infelizmente). Um filme altamente cultuado por uma pequena parcela de críticos, e quase totalmente ignorado pela grande maioria deles. E lá vou eu para o cinema, um tanto desconfiado, ver o filme.
E eis que, após um seqüência de fotos da polícia nova-iorquina dos anos 80, o filme começa com uma cena de Eva Mendes se masturbando ao som de “Heart of Glass”, do Blondie. Uma beleza, Gray no primeiro plano do filme já havia me conquistado. Ainda na mesma cena nos é introduzido Bobby Green, interpretado por Joaquin Phoenix na atuação de sua carreira, que diz à sua namorada que poderia morrer hoje e seria ainda assim o homem mais feliz do mundo. Depois a vida do personagem nos é apresentada melhor: sua família, formada por pai e irmão policiais; e seus negócios, uma boate noturna onde o tráfico de drogas rola solto e onde ninguém sabe que ele tem parentes policiais.
Logo mais, em uma igreja, Bobby fica sabendo que a polícia, o que inclui seu pai e irmão, está atrás de um traficante que frequenta sua boate, e pedem que ele aja como informante policial. A princípio Bobby rejeita, mas quando um dos traficantes atira em seu irmão e ameaça matar seu pai, ele tem que tomar uma posição. Está estabelecido o conflito principal do filme. Uma situação chega de repente e toma a vida de Green, e a mudará para sempre. Ele precisa se decidir e escolhe sua família, não se importando com as consequências ou com as divergências passadas entre eles.
Em um clímax do filme há uma cena de perseguição de carro na auto-estrada em meio a uma chuva torrencial. Nessa entrevista James Gray conta que a chuva foi totalmente criada na pós-produção, por efeitos especiais. Gray queria a chuva presente como se fosse uma ação dos deuses perante a situação do personagem principal. É interessante que, assim como o conflito principal do filme chega subitamente ao personagem principal, a chuva também parece entrar como uma ação divina nas imagens capturadas pela câmera de Gray. Isso aliado com a decupagem, e a magnífica montagem e o uso do som, faz da cena uma experiência única, diria até, quase metafísica. É a melhor cena de perseguição de carro não filmada por William Friedkin da história do cinema. E uma prova de que efeitos especiais podem ser usados no cinema também como um artifício autoral, e não apenas chamando atenção para si mesmo..
Poderia escrever mais várias linhas sobre Os Donos da Noite. Poderia escrever sobre a direção de fotografia, sobre o brilhante uso das locações, sobre o modo clássico de filmar de James Gray. Sobre como James Gray provavelmente discordaria de Fernando Meirelles, quando esse diz que decupagem pode ser inútil. Mas acabo esse texto sobre o melhor filme que vi nos cinemas esse ano por aqui mesmo. E sei que na próxima vez que eu tiver a chance de ver Caminho Sem Volta, verei até o final, e provavelmente gostarei.


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