Cyrus tem como um dos temas a questão da ocupação do espaço – o obeso personagem homônimo teme perder a vaga tanto no coração quanto na casa da mãe, pessoa com quem tem relação estranhíssima, que se pode considerar incabível. A obra produzida pelos irmãos Scott, é, também, bastante pequena. Não apenas em termos de orçamento e do que disso resulta - poucas locações, poucos atores, uso controlado de músicas famosas, recusa total à maquinaria (gruas, travellings), entre outros – mas, em matéria de construção do... espaço.
Que é quase ausente – se é que isso é possível, já que, como se sabe, o cinema narrativo é a arte do espaço. Esta curiosa “inexistência” acontece principalmente por três motivos. O primeiro é o fato de Jay e Mark Duplas filmarem os personagens (docemente esquisitões, como manda o guia Sundance de ser) quase sempre muito de perto, evitando sistematicamente o plano geral, “corrigindo” repetidamente a distância por meio daqueles bruscos zoom ins e zoom outs, muito comuns em séries de tv - The office vem à mente. O segundo é a delimitação pouco precisa do local onde se passa a ação. Como o longa-metragem quase não sai de casa – uma das poucas externas, passada em um parque, limita-se a uma pequenina porção de grama e a uma ou outra árvore – e os diálogos não tocam no assunto, não conseguimos decifrar nem mesmo a cidade em que a narrativa se desenrola. O terceiro por a dramaturgia não estabelecer, ao menos visualmente, áreas potencialmente interessantes, como o quarto de Cyrus.
Os três motivos estão absolutamente interligados. E, por mais que pareçam equívocos – um filme que trata do espaço sem, aparentemente, dimensioná-lo, é como uma banda que quer fazer música à Tennage fanclub sem se preocupar com melodia –, são, na verdade, acertos. Curiosos acertos. Talvez inconscientes.
Tal afirmação pode até causar a impressão de condescendência a um tipo de filme nada além de mediano, produto típico de um festival que se propõe uma alternativa ao “padrão”, mas que gera obras de códigos tão ferrenhamente respeitados e repetidos, que quase formam um gênero cinematográfico (um padrão, portanto). Não há problema.
De fato, a tensão entre a mise en scène e o tema de Cyrus é bastante interessante. A palavra tensão não é usada por acaso: uma vez que estes personagens, principalmente o antagonista, parecem habitar um espaço indefinido, somos constantemente surpreendidos – assim como John, interpretado por John C. Reilly – pelas pequenas aparições de Cyrus. O ápice desta situação, agora em propósito cômico, se dá quando John e Molly (Marisa Tomei), prestes a iniciar uma transa no sofá, são pegos de surpresa pelo jovem que, sentado à mesa, acende a luz e dispara: “oi, pessoal”.
O vazio, causado pela compreensão de que Cyrus não cabe em um lugar que mal sabemos qual é, consegue, ao fim, causar certa empatia. Disfuncional como os personagens, o filme atinge seus objetivos não por meio das músicas fofinhas, das piadas tristemente engraçadas ou dos olhos cheios de ternura de Marisa Tomei. E sim, pelo caminho do erro, das escolhas estéticas questionáveis, da incapacidade.
