20 de dezembro de 2011

Mostra Vincent Price: faces da morte*


A Morte lhe cai bem

Se a Morte tivesse um rosto, bem poderia ser o de Vincent Price. Haveria os olhos azuis, da cor de duas piscinas ao sol, bem como o bigodinho aristocrático. As sobrancelhas, curvas, em forma de ondas e os lábios grossos comporiam o conjunto. Rugas, profundas linhas a denunciar que este rosto mudou muitas vezes de expressão ao longo dos anos, desenhariam a assinatura do criador – seja ele quem for. Talvez não parecesse uma fisionomia exatamente assustadora. Não para os padrões de hoje, em que a morte quase sempre esconde-se atrás de máscaras grotescas e jogos sádicos. Price é do tempo em que matava-se civilizadamente.

Mas, não se engane: este homem já caminhou por muitas vielas escuras, corredores de castelos vitorianos parcamente iluminados (fruto do senso estético do bruxo que o habitava), teatros semi-abandonados, criptas em noites de trovão e outros ambientes igualmente tenebrosos. O suficiente para conhecer as manifestações do medo e os truques necessários para provocá-lo. Sim, temei Vincent Price caso tenha o infortúnio de se deparar com sua figura esguia, vestindo uma capa preta de gola alta, no exato momento em que abrir a porta de um aposento iluminado unicamente pelo luar da meia noite.

O pequeno exercício de imaginação feito aqui não foi sem propósito. Nos filmes de horror em que o ator esteve, o que mais se usava, além de trajes negros e velas bruxuleantes, era a imaginação. Nesta mostra foram escolhidas quatro obras de Price, que certamente exercitarão o nosso senso de fantasia, atividade esquecida pela maioria da produção comercial de terror contemporânea (em que há profusão de efeitos especiais computadorizados e violência explícita, como nas séries Jogos Mortais e Premonição). Estamos falando de uma arte quase perdida, portanto. Quase, pois ainda que o modelo “ator aterrorizante” esteja em desuso, a força vital destes filmes é enorme. Como vampiros, são capazes de dormir por décadas e, motivados por algo, provavelmente a sede por sangue, despertar. O papel da Mostra Vincent Price: Faces da Morte é despertar o vampiro.

Imagem em ação/Imaginação

Como quase sempre havia pouquíssimo dinheiro nas produções, os cineastas, para executar suas ideias, precisavam ser criativos. Roger Corman, diretor de O Corvo (Roger Corman, 1963) e Muralhas do Pavor (Roger Corman, 1962), os dois primeiros longas-metragens desta mostra, talvez tenha sido o mais inventivo artista a dirigir Vincent Price. Como filmar um duelo entre poderosos bruxos, quando o orçamento total da obra mal alcança os cinco dígitos? Ora, utilizam-se efeitos fotográficos com luzes coloridas – que resultam belíssimas, por sinal – e delega-se o resto aos atores. Tarefa relativamente fácil, quando se tem, além de Price, Boris Karloff (imortalizado por interpretar a primeira versão cinematográfica de Frankstein, lançada em 1931), outro que muito bem poderia emprestar o rosto à Morte. Dar aos atores tamanha responsabilidade, como se faz no teatro, em que os interpretes são a razão de ser da arte em questão, não significa subaproveitar o cinema como força de expressão autônoma: um arquear de sobrancelhas de Price, mostrado em close é potencializado pela câmera e, se repetido no palco, sequer seria notado.

Em Muralhas do Pavor, uma adaptação de três histórias de Edgar Allan Poe, vemos, no conto O Caso do Sr. Valdemar, outra saída formal bastante simples, e possível apenas pelo cinema, encontrada para representar o impossível: um estado de semi-consciência pós morte. Deitado na cama, a face imóvel de Price é iluminada por diversas cores. Corman, mais uma vez, por meio de luzes e expressões de um rosto, transforma em imagem concreta aquilo que habitaria apenas o reino da imaginação caso limitações técnicas ou orçamentárias fossem realmente restrições.

Por falar em imagem, é justamente este o tema central de As Sete Máscaras da Morte (Douglas Hickox, 1973) e Dr. Morte (Jim Clark, 1974), os últimos filmes da mostra. Obras involuntariamente irmãs, ambas realizam um trabalho de desconstrução da imagem de Price. A primeira tem como pano de fundo o teatro, e narra a jornada de Lionheart, um (mau) ator shakespeariano que decide eliminar críticos de arte que atacaram sua interpretação exagerada. Ideia divertidíssima, quando se sabe que “na vida real” Price recebeu, algumas vezes, o mesmo parecer. Ficamos, então, sempre em dúvida se o ator está incorporando Lionheart de maneira exagerada propositalmente ou não.

Já em Dr. Morte, o desmembramento do corpo de trabalho de Price é feito por meio do cinema: Paul Toombes, um famoso ator de obras de horror estreladas por um personagem apropriadamente chamado Dr. Morte, é perturbado pelas imagens dos seus longas-metragens, quando pessoas próximas a ele são uma a uma assassinadas (o criminoso reencena as mortes dos filmes de Toombes). Trechos de O Corvo e O Caso do Sr. Valdemar compõe o painel de imagens que atormentam o pobre intérprete. Seria Vincent Price, e não Toombes, quem estaria sendo assombrado por sua persona cinematográfica? Dr. Morte dá adeus aos velhos filmes de horror enquanto, abatido, vislumbra o futuro. Em determinado momento, há uma festa a fantasia em que, evidentemente, os participantes estão ou maquiados ou mascarados. Ao perceber, Price diz, em tom nostálgico: “antigamente os monstros vinham como eram”. Ou seja, nos bons tempos não eram necessárias máscaras e disfarces (itens que, quatro anos depois, com o lançamento de Halloween, tornar-se-iam elementos obrigatórios).

Para comprovar que a única máscara que atores da tradição de Price precisam vestir é o próprio rosto, Dr. Morte termina com Peter Cushing – também famoso pela carreira no terror – maquiando a face até transformá-la na exata feição de Price (cujo personagem, Toombes, havia morrido). É tudo muito claro: Toombes/Price pode ter perecido (em corpo e em forma de arte), mas haverá sempre alguém para carregar o legado. A imagem de Vincent Price continuará a nos atormentar.

*A mostra, composta pelos filmes O corvo, Muralhas do pavor, As sete máscaras da morte e Dr. Morte, foi exibida, pela programação do Cinesec Paraná, durante o mês de novembro e dezembro.

18 de fevereiro de 2011

Deixe-me entrar, de Matt Reeves


Um aviso: não vou comparar o original sueco com esta refilmagem. Outro aviso: não vi Cloverfield e muito menos qualquer outra coisa em que Matt Reeves tenha dirigido. Assisti a Deixe-me entrar envolto em uma pequena ignorância e é neste estado que pretendo me manter durante o texto. Pequena ignorância: fazer vista grossa a diversas questões do fora da tela e mergulhar, um pouco às cegas, na tela.

O primeiro plano já convida à submersão. Ao som do que parecem marteladas proferidas por um gigante dentro de um frigorífico, uma câmara de execução ou do inferno, vemos, em PG, carros de polícia e uma ambulância rasgando a noite na paisagem desolada do Novo México. As luzes das sirenes serpenteiam a estrada que contorna as montanhas com neve. Antes de identificarmos que aquilo são veículos, pode-se pensar que se tratam de OVNIS à caminho de um novo mundo. A metáfora com o espaço sideral, aliás, como notaremos mais tarde, é uma presença constante – mas, ainda sim, sutil. Um belo cartão de visitas de Reeves.

Minutos mais tarde, o policial interpretado por Elias Koteas interroga o ser desconhecido trazido pela ambulância – desconhecido até para nós, já que ele é um habitante do universo fora de quadro. A única resposta que se tem é o barulho intermitente do aparelho de respiração – que está em quadro. Darth Vader, 2001, Solaris: o desenho de som da cena remete à mecanização que é tão necessária à sobrevivência no espaço sideral. O trabalho com o som, aqui, fascina e, por isso, envolve.

Ao vermos o pequeno Owen (Kodi Smith-McPhee) usando uma estufada jaqueta prateada, não restam mais dúvidas. O que temos, aqui, é um astronauta explorando um planeta desconhecido (Plutão? Netuno? Hoth?), com a ajuda de sua luneta, e se deparando com seres estranhos. Sua mãe (a qual mal distinguimos o rosto), o halterofilista, a jovem moça que namora um homem careca, que moram em apartamentos do outro lado do pátio, e, principalmente, o selvagem trio de garotos que “estudam” (o melhor verbo seria “aterrorizam”) na escola de Owen, são ETS no mundo do protagonista de Deixe-me entrar.

Quando a adorável Abby adentra este mundo, Owen finalmente encontra seu par. A bem da verdade, quem deixa entrar é a menina, e não o menino. Ela é quem permite que ele se aproxime – e, não há dúvidas, a única coisa que diferencia Owen de Abby é que um deles não é um vampiro que tem 12 anos há décadas. Ela, por fim, é quem tira, literalmente, o jovem daquele planeta gelado em que vive.

Uma tocante investigação sobre a solidão da adolescência? Uma história de amor proibido que ecoa, de alguma forma, Romeu e Julieta? Também. Acima de tudo Deixe-me entrar é um ótimo filme de gênero que, como tal, é pródigo em garantir a imersão.

14 de fevereiro de 2011

Envolto nas sombras, de Henry Hathaway



O falcão maltês, Dívida de sangue, À beira do abismo e vários outros cânones da historiografia do filme noir não valem nem a sombra de Mark Stevens nesta não-canônica obra-prima do velho Henry.

13 de fevereiro de 2011

Warren Oates, por David Tohmson


Let me have two weeks, $50,000, and Warren Oates, and I´ll give you one hell of a movie. Make it $ 100,000: why should he always be in cheap pictures?

We have to make this picture somewhere on, in, around, and pertaining to the border. What border? Does it matter, so long as it´s poised between chance and fate, and so long as we can remain in doubt as to whether Oates is greeting his destiny with a smile or a grimace?

Oates seem on first sight grubby, balding, and unshaven. You can smell whiskey and sweat on him, along with that mixture of bad beds and fallen women. He´s toothy, he´s small, he´s 53 this year, and he has a face like prison bread, with eyes that have know too much solitary confinement. But the eyes bulge and shrink in a sweet game of fear and courage. And for some of us, Oates is the only human being in pictures.

Is that an exaggeration? Race you over the border to settle it. Lot of good actors around, with De Niro, Keitel, Harry Dean Stanton, Nicholson, Dern, Ben Johnson, and Robert Duvall. Only thing: longer you look at them, the more you get the feeling they´re all bursting with life. De Niro, now, can’t stand still. Never have seen him do nothing. Sublimest thing with Oates is when he does nothing. Only Mitchum could do nothing so well, so that you think a hole is opening up in the middle of the picture and everything is gonna fall down it. Then you see Oates starting that shy grin of his, and you shake yourself because he could’ve been dead. The greatest trick to write about Oates is to catch the spirit of obituary. A death notice for an honorable little sleaze-bag.

Thank God he´s never gonna get near one of those Oscars. You know it from the start. It´ll be fifty years before they catch on to him, and with the films Oates makes, chances are there won´t be any of them left intact by then.

So i´ll deal you the hand now, doubting if there´s more than three of you that have seen them all.


David Thomson

Texto publicado originalmente em Film Comment, edição Janeiro/Fevereiro de 1981.

Desenrola, de Rosane Svartman



Texto na Contracampo.