18 de fevereiro de 2011

Deixe-me entrar, de Matt Reeves


Um aviso: não vou comparar o original sueco com esta refilmagem. Outro aviso: não vi Cloverfield e muito menos qualquer outra coisa em que Matt Reeves tenha dirigido. Assisti a Deixe-me entrar envolto em uma pequena ignorância e é neste estado que pretendo me manter durante o texto. Pequena ignorância: fazer vista grossa a diversas questões do fora da tela e mergulhar, um pouco às cegas, na tela.

O primeiro plano já convida à submersão. Ao som do que parecem marteladas proferidas por um gigante dentro de um frigorífico, uma câmara de execução ou do inferno, vemos, em PG, carros de polícia e uma ambulância rasgando a noite na paisagem desolada do Novo México. As luzes das sirenes serpenteiam a estrada que contorna as montanhas com neve. Antes de identificarmos que aquilo são veículos, pode-se pensar que se tratam de OVNIS à caminho de um novo mundo. A metáfora com o espaço sideral, aliás, como notaremos mais tarde, é uma presença constante – mas, ainda sim, sutil. Um belo cartão de visitas de Reeves.

Minutos mais tarde, o policial interpretado por Elias Koteas interroga o ser desconhecido trazido pela ambulância – desconhecido até para nós, já que ele é um habitante do universo fora de quadro. A única resposta que se tem é o barulho intermitente do aparelho de respiração – que está em quadro. Darth Vader, 2001, Solaris: o desenho de som da cena remete à mecanização que é tão necessária à sobrevivência no espaço sideral. O trabalho com o som, aqui, fascina e, por isso, envolve.

Ao vermos o pequeno Owen (Kodi Smith-McPhee) usando uma estufada jaqueta prateada, não restam mais dúvidas. O que temos, aqui, é um astronauta explorando um planeta desconhecido (Plutão? Netuno? Hoth?), com a ajuda de sua luneta, e se deparando com seres estranhos. Sua mãe (a qual mal distinguimos o rosto), o halterofilista, a jovem moça que namora um homem careca, que moram em apartamentos do outro lado do pátio, e, principalmente, o selvagem trio de garotos que “estudam” (o melhor verbo seria “aterrorizam”) na escola de Owen, são ETS no mundo do protagonista de Deixe-me entrar.

Quando a adorável Abby adentra este mundo, Owen finalmente encontra seu par. A bem da verdade, quem deixa entrar é a menina, e não o menino. Ela é quem permite que ele se aproxime – e, não há dúvidas, a única coisa que diferencia Owen de Abby é que um deles não é um vampiro que tem 12 anos há décadas. Ela, por fim, é quem tira, literalmente, o jovem daquele planeta gelado em que vive.

Uma tocante investigação sobre a solidão da adolescência? Uma história de amor proibido que ecoa, de alguma forma, Romeu e Julieta? Também. Acima de tudo Deixe-me entrar é um ótimo filme de gênero que, como tal, é pródigo em garantir a imersão.

14 de fevereiro de 2011

Envolto nas sombras, de Henry Hathaway



O falcão maltês, Dívida de sangue, À beira do abismo e vários outros cânones da historiografia do filme noir não valem nem a sombra de Mark Stevens nesta não-canônica obra-prima do velho Henry.

13 de fevereiro de 2011

Warren Oates, por David Tohmson


Let me have two weeks, $50,000, and Warren Oates, and I´ll give you one hell of a movie. Make it $ 100,000: why should he always be in cheap pictures?

We have to make this picture somewhere on, in, around, and pertaining to the border. What border? Does it matter, so long as it´s poised between chance and fate, and so long as we can remain in doubt as to whether Oates is greeting his destiny with a smile or a grimace?

Oates seem on first sight grubby, balding, and unshaven. You can smell whiskey and sweat on him, along with that mixture of bad beds and fallen women. He´s toothy, he´s small, he´s 53 this year, and he has a face like prison bread, with eyes that have know too much solitary confinement. But the eyes bulge and shrink in a sweet game of fear and courage. And for some of us, Oates is the only human being in pictures.

Is that an exaggeration? Race you over the border to settle it. Lot of good actors around, with De Niro, Keitel, Harry Dean Stanton, Nicholson, Dern, Ben Johnson, and Robert Duvall. Only thing: longer you look at them, the more you get the feeling they´re all bursting with life. De Niro, now, can’t stand still. Never have seen him do nothing. Sublimest thing with Oates is when he does nothing. Only Mitchum could do nothing so well, so that you think a hole is opening up in the middle of the picture and everything is gonna fall down it. Then you see Oates starting that shy grin of his, and you shake yourself because he could’ve been dead. The greatest trick to write about Oates is to catch the spirit of obituary. A death notice for an honorable little sleaze-bag.

Thank God he´s never gonna get near one of those Oscars. You know it from the start. It´ll be fifty years before they catch on to him, and with the films Oates makes, chances are there won´t be any of them left intact by then.

So i´ll deal you the hand now, doubting if there´s more than three of you that have seen them all.


David Thomson

Texto publicado originalmente em Film Comment, edição Janeiro/Fevereiro de 1981.

Desenrola, de Rosane Svartman



Texto na Contracampo.