26 de março de 2010

Como treinar seu dragão, de Chris Sanders e Dean Deblois


Da mesma maneira que em Avatar, a nova animação da Dreamworks nos mostra um personagem domando uma fera alada, ação que leva a vertiginosas cenas de vôos super velozes nas alturas. Que resultam, é claro, em inevitáveis quedas (o 3D, me parece, tem vocação para este tipo de infortúnio, graças à potencialização da profundidade de campo). Também como na obra de Cameron, um curioso posicionamento político brilha atrás das nuvens coloridinhas e fofas que são as imagens destes dois filmes.

No primeiro, vemos Jake Sully - um fuzileiro norte-americano - ser mais esperto, forte e corajoso do que todos os outros guerreiros da tribo Na´vi. Uma de suas maiores demonstrações de virtude é conseguir domar Toruk, a poderosa besta voadora, feito que nenhum dos seres azuis “originais” havia conseguido até então. No segundo, acompanhamos Soluço, o jovem e atrapalhado viking-em-formação, habitante da ilha de Berk, abater o mais temido dragão do lugar: uma criatura negra que lança destruidoras chamas roxas. Ao procurar a vítima ferida, o garoto encontra o monstro ainda vivo, preso na rede atirada por sua arma. Soluço libera a fera e, mais tarde, descobre que ela não pode voar, pois está com a cauda machucada. Depois de firmar uma relação de amizade com o dragão (a cena em que os dois ficam frente a frente, os olhos verdes, felinos e grandes da criatura indicando diferentes emoções, é bastante cativante) Soluço resolve construir uma peça que substitua a parte danificada da calda.
A intenção do jovem não é libertar o monstro – agora apelidado carinhosamente de Banguela -, mas domá-lo. E isso desencadeia um processo que faz terminar a histórica guerra entre dragões e vikings e iniciar a domesticação completa dos animais (a passagem se dá de maneira bastante nebulosa: é difícil entender a relação de submissão, transmutada em revolta com a rapidez e artificialidade com que um mágico saca um coelho branco da cartola, entre as várias espécies de dragões e o dragãzão gigantesco que vive dentro do vulcão). E assim fica tudo bem. Animais a serviço do Homem. Como deve ser.

Se em Avatar o fato de o norte-americano - corpo azul ou não, Jake ainda é um norte-americano do exército - ser o escolhido e assim ensinar uma série de valores à tribo (não é sempre este o dever cívico que motiva a política externa intervencionista dos Estados Unidos?) está em terceiríssimo plano, já que há muito mais a se ver no longa-metragem (a compreensão da natureza pouco sólida da imagem 3D, por parte de Cameron, que a incorpora na composição da fauna e flora do planeta Pandora, é impressionante), o mesmo não se pode dizer de Como treinar seu dragão. A questão da dominação, aqui, é tratada de forma muito mais aberta pelo roteiro. A narração em off ao final e os últimos planos não deixam lá muitas dúvidas sobre o quão benéfico para o ser humano é ter um dragão de estimação. Ou melhor: ter um ex-inimigo como servo.

12 de março de 2010

Ilha do Medo, de Martin Scorsese

Prenda-me se for capaz: a personagem de Michelle Williams se esvai.

Posso estar errado, mas imagino que a tradução de Shutter island para Ilha do medo tem como objetivo sugerir algum tipo de relação com Cabo do medo. Ela existe, de fato (para além da semelhança geo marítima): ambos são filmes bem pé no gênero e lidam com a loucura. A diferença é que enquanto neste último a insanidade é material, física, cuja imagem marcante é a de Robert De Niro musculoso e tatuado, o primeiro põem em cena o impalpável, o etéreo, o fugidio, aquilo “o que não é, mas resulta: a indizível dimensão”, nas palavras de Vinícius de Moraes. Neblina, fumaça, fogo e a cor branca: o cinema é arte ideal para estes quatro elementos (Yambo, o protagonista de A Misteriosa chama da rainha Loana, de Umberto Eco, é fascinado pela imagem do nevoeiro e coleciona diversas passagens de grandes escritores descrevendo o fenômeno: nenhuma delas chega perto do primeiro plano de Ilha do medo, em que “entre brumas ao longe surge” não a aurora, mas a balsa trazendo os personagens de Leonardo Di Caprio e Mark Ruffalo). Justamente por isso é um prazer notar como o roteiro vai, sistematicamente, sendo coberto pelo véu leitoso das imagens impalpáveis criadas por Scorsese. As reviravoltas, revelações, idas e vindas da trama ao fim, nada são além de distantes silhuetas parcamente distinguíveis por trás da espessa e alva névoa que toma a tela.