12 de março de 2010

Ilha do Medo, de Martin Scorsese

Prenda-me se for capaz: a personagem de Michelle Williams se esvai.

Posso estar errado, mas imagino que a tradução de Shutter island para Ilha do medo tem como objetivo sugerir algum tipo de relação com Cabo do medo. Ela existe, de fato (para além da semelhança geo marítima): ambos são filmes bem pé no gênero e lidam com a loucura. A diferença é que enquanto neste último a insanidade é material, física, cuja imagem marcante é a de Robert De Niro musculoso e tatuado, o primeiro põem em cena o impalpável, o etéreo, o fugidio, aquilo “o que não é, mas resulta: a indizível dimensão”, nas palavras de Vinícius de Moraes. Neblina, fumaça, fogo e a cor branca: o cinema é arte ideal para estes quatro elementos (Yambo, o protagonista de A Misteriosa chama da rainha Loana, de Umberto Eco, é fascinado pela imagem do nevoeiro e coleciona diversas passagens de grandes escritores descrevendo o fenômeno: nenhuma delas chega perto do primeiro plano de Ilha do medo, em que “entre brumas ao longe surge” não a aurora, mas a balsa trazendo os personagens de Leonardo Di Caprio e Mark Ruffalo). Justamente por isso é um prazer notar como o roteiro vai, sistematicamente, sendo coberto pelo véu leitoso das imagens impalpáveis criadas por Scorsese. As reviravoltas, revelações, idas e vindas da trama ao fim, nada são além de distantes silhuetas parcamente distinguíveis por trás da espessa e alva névoa que toma a tela.