
Depois da patacoada de Caetano Veloso sobre Woody Allen, fica difícil ver um filme do novaiorquino sem pensar “hum, figurinos cor-de-creme”. De fato, eles estão lá, aos montes. Sempre estiveram, claro. Eles só não chamavam tanta atenção – a seguir, as duas funções de uma calça marrom claro e um blazer bege: a) não chamar atenção. b) não manchar outras roupas, quando colocadas juntas na máquina de lavar. É verdade que Caetano tem uma parcela do mérito em nos fazer notar as roupas feitas para não serem notadas, presentes em toda filmografia/guarda-roupas de Allen. Mas não é o único responsável. Nem o principal. Tal papel é, atualmente, de forma literal, desempenhado por Josh Brolin.
9 de dezembro de 2010
Você vai conhecer o homem dos seus sonhos, de Woody Allen
O contraste entre o tipo físico do ator – um tanto truculento e, vá lá, vulgar - e o vestuário predominantemente marrom do qual utiliza, é notório. Não levássemos em conta um dos temas centrais de Você vai conhecer o homem dos seus sonhos e certamente pensaríamos que a escalação do norte-americano estaria incrivelmente equivocada. “O que esse cowboy faz no meio destes almofadinhas trajando ternos bem cortados e calças de veludo?”. A questão, no entanto, aqui e em grande parte dos muitos longas-metragens do diretor é essa: pessoas, que se consideram miscasts na vida, querem interpretar os papéis que (elas acham) lhes são de direito. Tais papéis, muitas vezes, estão ligados ao mundo da arte (ultimamente, adentraram o inventário as classes sociais e a idéia de velhice: pobres buscam ser ricos e velhos almejam ser jovens).
Roy, o personagem de Brolin, tenta ser escritor. Apesar de ter emplacado um livro de sucesso, nunca mais conseguiu repetir a dose. Resta-lhe trabalhar como motorista. Então, bate o carro e tenta voltar a escrever. Fracassa, pois não é bom o suficiente. Até que o destino lhe sorri. Ou quase – desde que Allen descobriu o destino e Chabrol, as coisas tem se resolvido em suas narrativas, assim, com ajuda deles, o destino e Chabrol. Mesmo vestindo a fantasia caqui de escritor/intelectual do universo alleniano, Roy não cabe neste mundo. As roupas não lhe caem bem, como resume a imagem que, mostra o homem, camisa desabotoada e pança à mostra – e, em seguida, pança coberta e camisa abotoada caoticamente – caminhar pelas ruas de Londres.
Há, evidentemente, uma aparente contradição de idéias nos parágrafos acima: se os personagens sonham com vidas melhores, muitas vezes impossíveis – e não é só Roy; Helen acredita em clarividência e pensa que com a ajuda do ocultismo encontrará um amor; Alfie, que já está velho demais para ser considerado um sedutor, emprega todos os meios, inclusive Viagra, para parecer mais jovem – e se, no caso do aspirante a escritor, tais sonhos implicam fuga da vida comum, da vida do anonimato, porque usar roupas caqui? Ora, porque são uniformes, ou códigos, que significam (para a alegria dos rapazes e moças entusiastas da semiótica) intelectualidade no universo de Allen. Até aí tudo bem. Nada de novo. A questão é que, de uma vez por todas, o diretor usa o expediente de trazer para o campo visual a problemática do miscasting (digo “de uma vez por todas” porque pelo menos desde Matchpoint o expediente vem sendo empregado, mas nunca de forma tão evidente).
Um exemplo que ecoa a situação de Roy, presente em Interiores, talvez ajude a deixar a afirmação mais clara. Nesta obra de 1978 há, também, um escritor de um sucesso só que se ressente pelo fato de não conseguir voltar ao topo. Talvez ele não seja tão bom. Talvez não pertença ao mundo dos escritores de sucesso. Só que ninguém pode dizer que não se parece (com a idéia que se faz de) um escritor de sucesso. Apenas sabemos que ele não o é pelo que ouvimos, em uma longa cena em que discute o assunto com a mulher. Não pelo que vemos, como no caso de Roy.
Pode-se questionar até que ponto esse jogo entre fantasia/ator em Você vai conhecer o homem dos seus sonhos é algo plenamente consciente, ou nada mais do que a repetição de um costume - ou visão de mundo – do autor. Sendo assim, fosse qual fosse o tema de seu filme, estivesse quem estivesse interpretando um dos personagens, e o figurino seria basicamente o mesmo. A verdade é que pouco importaria a resposta. A possibilidade de ver tal jogo está lá, na tela. Mesmo que escondida sob um pulôver verde musgo.
por
Wellington Sari
às
00:14:00
|
Marcadores: Woody Allen
7 de dezembro de 2010
3 de dezembro de 2010
A rede social, de David Fincher
O primeiro som que se ouve em A rede social, ainda durante o logotipo da Columbia, são os acordes iniciais de Ball and biscuit, do White stripes. A canção segue, até virar música de fundo no bar em que Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg) e Erica Albright (Rooney Mara), sentados à mesa, conversam. A trilha sonora, neste caso, tem a função de demarcar uma época – à mesma maneira daquele velho expediente de se utilizar um hit da disco music para indicar que determinada seqüência tem lugar nos anos 70, por exemplo. Estamos, portanto, diante de um filme de época. Que se passa antes de ontem, por volta de 2002, 2003.
Neste mundo, em que bandas, a cada pressionada de F5 no site Pitchfork, são eleitas “nova salvação do rock” - isso há alguns anos; hoje não existe salvação; tampouco rock - e em que Fiuk e Justin Bieber, ainda contando os minutos restantes para completar seus quinze de fama, são temas de mais “biografias não autorizadas” do que Alex Chilton, Norman Blake e Guilherme Arantes juntos, não chega a espantar que Hollywood tenha se voltado a Zuckerberg, um rosto ainda imberbe no livro da História (evidentemente, um rosto infinitamente mais importante do que aqueles dois citados acima). Muito consciente da efemeridade das tendências de internet – lembre-se de que você já utilizou o ICQ e, possivelmente, teve um e-mail do Bol – a indústria cultural (é, essa expressão ainda deve existir) procura logo assegurar o lugar de Zuckerberg no museu do celulóide e do papel - materiais que talvez ainda existam.
O modo que Fincher parece ter encontrado para dar forma a este universo veloz e passageiro fica bastante claro já naquela primeira cena, no ritmo da fala do casal – principalmente no do futuro bilionário. A velocidade com que as frases são ditas surpreende. Faz lembrar Jejum de amor, de Howard Hawks, obra emblemática neste quesito. O que não significa que o cineasta tente estabelecer conexões com o passado, para além do empréstimo de modelos do filme de tribunal. Aqui, de maneira alguma, existe passado. Apenas o ontem, o antes de ontem e o agora pouco, já que a narrativa é costurada por estes três tempos. Como prova da ausência, basta nos perguntarmos, ao sairmos da sessão, o quanto sabemos da história de Zuckerberg, sem recorrer ao Wikipédia. Isso, no entanto, não é um problema. Ao contrário, é algo que potencializa o interesse pelo protagonista. Fechado – sorri apenas uma vez no longa todo - , enigmático (dentro do possível permitido por Hollywood) e obcecado, o Zuckerberg de Jesse Eisenberg é quase o Cherles Bronson de Era uma vez no Oeste. No que diz respeito à impassividade das expressões faciais - não do número de palavras ditas por segundo, claro. E este caráter impassível do rosto ganha uma incrível força dramática na cena final.
Tais escolhas formais para se tratar do mundo do criador do Facebook são interessantes porque sutis. Já outro aspecto, o da estruturação da narrativa, que busca traduzir a simultaneidade da internet, uma de suas características marcantes, intercalando, célere, os três tempos, parece óbvia demais. E vem acompanhada de uma pequena introdução, para que o espectador não se perca: na conversa do bar, Erica pergunta algo como “você tem sempre essa mania de falar várias coisas ao mesmo tempo?”. Esse, aliás, é o grande problema de Fincher. Ele acaba quase sempre sendo óbvio demais: quem se lembra das imagens “poéticas” envolvendo borboletas em O curioso caso de Benjamin Button possivelmente concorde. Adivinhe qual música encerra a saga do bilionário herói dos computadores? Baby, you´re a rich man.
por
Wellington Sari
às
01:49:00
|
Marcadores: David Fincher
Assinar:
Comment Feed (RSS)

