3 de dezembro de 2010

A rede social, de David Fincher


O primeiro som que se ouve em A rede social, ainda durante o logotipo da Columbia, são os acordes iniciais de Ball and biscuit, do White stripes. A canção segue, até virar música de fundo no bar em que Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg) e Erica Albright (Rooney Mara), sentados à mesa, conversam. A trilha sonora, neste caso, tem a função de demarcar uma época – à mesma maneira daquele velho expediente de se utilizar um hit da disco music para indicar que determinada seqüência tem lugar nos anos 70, por exemplo. Estamos, portanto, diante de um filme de época. Que se passa antes de ontem, por volta de 2002, 2003.

Neste mundo, em que bandas, a cada pressionada de F5 no site Pitchfork, são eleitas “nova salvação do rock” - isso há alguns anos; hoje não existe salvação; tampouco rock - e em que Fiuk e Justin Bieber, ainda contando os minutos restantes para completar seus quinze de fama, são temas de mais “biografias não autorizadas” do que Alex Chilton, Norman Blake e Guilherme Arantes juntos, não chega a espantar que Hollywood tenha se voltado a Zuckerberg, um rosto ainda imberbe no livro da História (evidentemente, um rosto infinitamente mais importante do que aqueles dois citados acima). Muito consciente da efemeridade das tendências de internet – lembre-se de que você já utilizou o ICQ e, possivelmente, teve um e-mail do Bol – a indústria cultural (é, essa expressão ainda deve existir) procura logo assegurar o lugar de Zuckerberg no museu do celulóide e do papel - materiais que talvez ainda existam.

O modo que Fincher parece ter encontrado para dar forma a este universo veloz e passageiro fica bastante claro já naquela primeira cena, no ritmo da fala do casal – principalmente no do futuro bilionário. A velocidade com que as frases são ditas surpreende. Faz lembrar Jejum de amor, de Howard Hawks, obra emblemática neste quesito. O que não significa que o cineasta tente estabelecer conexões com o passado, para além do empréstimo de modelos do filme de tribunal. Aqui, de maneira alguma, existe passado. Apenas o ontem, o antes de ontem e o agora pouco, já que a narrativa é costurada por estes três tempos. Como prova da ausência, basta nos perguntarmos, ao sairmos da sessão, o quanto sabemos da história de Zuckerberg, sem recorrer ao Wikipédia. Isso, no entanto, não é um problema. Ao contrário, é algo que potencializa o interesse pelo protagonista. Fechado – sorri apenas uma vez no longa todo - , enigmático (dentro do possível permitido por Hollywood) e obcecado, o Zuckerberg de Jesse Eisenberg é quase o Cherles Bronson de Era uma vez no Oeste. No que diz respeito à impassividade das expressões faciais - não do número de palavras ditas por segundo, claro. E este caráter impassível do rosto ganha uma incrível força dramática na cena final.

Tais escolhas formais para se tratar do mundo do criador do Facebook são interessantes porque sutis. Já outro aspecto, o da estruturação da narrativa, que busca traduzir a simultaneidade da internet, uma de suas características marcantes, intercalando, célere, os três tempos, parece óbvia demais. E vem acompanhada de uma pequena introdução, para que o espectador não se perca: na conversa do bar, Erica pergunta algo como “você tem sempre essa mania de falar várias coisas ao mesmo tempo?”. Esse, aliás, é o grande problema de Fincher. Ele acaba quase sempre sendo óbvio demais: quem se lembra das imagens “poéticas” envolvendo borboletas em O curioso caso de Benjamin Button possivelmente concorde. Adivinhe qual música encerra a saga do bilionário herói dos computadores? Baby, you´re a rich man.