19 de novembro de 2008

REC, de Jaume Balagueró e Paco Plaza


Um filme é um experiência. Passamos por ela e daí apreendemos (ou não) alguma coisa, fisicamente ou psicologicamente. No caso de um filme de terror-filmado-como-se-fosse-uma-reportagem-de-tv, como [REC], que propõe um jogo de “realismo” com o espectador (é uma ficção que se finge de “material apanhado diretamente do real”), a sensação física é, basicamente, tudo. A proposta é causar medo em quem assiste, é fazê-lo pular da cadeira, como se houvesse um pingüim malvado açoitando com um pedaço de marshmallow a parte do móvel em que colocamos a bunda. Se o filme já parte de uma escolha formal que tem como objetivo aumentar o grau de credibilidade da história que está sendo contada, é justamente porque intenciona causar mais medo no público (que só pode temer que acredita, caso contrário, simplesmente debocha). Isto é óbvio, e redundante, mas, precisa ser dito, afinal, demonstra qual é o fim de [REC].

Os meios utilizados por Jaume Balangueró e Paco Plaza para se chegar a tal resultado, passam pela supracitada forma que mimetiza a do jornalismo televisivo, a uma mise en scène que abraça o histerismo com todos os braços possíveis. Atores, câmera, desenho de som: todos em ritmo acelerado, em total descontrole. Quase não se pode dizer que Balangueró e Plaza se utilizam de enquadramentos pra narrar o longa-metragem: tratam-se de uma massa disforme de luzes. Os limites do que seria um quadro são absolutamente limados pela dança louca praticada pela câmera. O fora de campo, tão utilizado pelo suspense ao longo dos anos, como forma de ocultar do espectador a “verdade”, o segredo etc, e, assim, deixá-lo “em suspense” aqui, não existe. O “dentro de quadro”, ou melhor, o “dentro de imagem”, esconde – as trepidações da câmera transformam, em diversos momentos, a imagem quase em uma massa disforme de tinta, como se um pintor jogasse, aleatoriamente, por sobre a tela, vários dos seus tubos – o zumbi (aquilo que o público está ansioso para ver)- e também o ator, o espaço. Mal podemos ver os corpos que dão vida aos personagens - no início, quando tudo está calmo, ainda no quartel dos bombeiros, conseguimos ver o rosto da repórter. Depois disso, o que nos é mostrado, na maioria das vezes, é apenas um borrão-, não conseguimos perceber o espaço em que estão.

Não que a dupla de diretores espanhóis precise ser tão genial quanto Carpenter, Romero, Hitchcock e o Hawks de Onde Começa o Inferno e Paraíso Infernal, quando se trata de manter a unidade de espaço e fazer disto algo sufocante. Darabont não é nem um gênio e mesmo assim conseguiu ser absolutamente magistral neste quesito, em O Nevoeiro. Em [REC], não há a sensação de sufoco, uma vez que não conseguimos ver direito (não tanto por causa da escuridão, mas da inquietude da câmera) o lugar em que estão presos os personagens. Não havendo a sensação de que o espaço é claustrofóbico, não se podendo ver minimamente os atores, resta o que então? O som.

Sem dúvidas, [REC] daria um excelente programa de rádio, tão assustador quanto deve ter sido a leitura de Orson Welles de Guerra dos Mundos. No filme espanhol, o som está sempre presente (em algumas poucas cenas, ele é processado, a fim de imitar problemas técnicos da captura do áudio; estes são praticamente os únicos momentos de silêncio) e é por meio dele que Balangueró e Plaza tentam assustar a platéia: o barulho de um corpo que atinge o chão, o som de um vidro se quebrando graças à mão de um zumbi, o grito medonho dos monstros etc. Já que mal podemos ver tais coisas acontecendo, só nos resta ouvir. Nada mal. Mas, como já disse, talvez tivesse mais efeito se fosse transmitido pelo rádio.

O fato é que a proposta estética de [REC] não me agrada de jeito nenhum. Prefiro o modo old fashion de se fazer filmes de terror, praticada por Carpenter e Argento (só pra ficar com dois grandes exemplos), que navegam sem nenhum medo pelas regras estritas do cinema de gênero, e não precisam disfarçar seus filmes de reportagens de TV (mas, é claro, pagam bem caro por isso). Daí que o único momento que realmente me atraiu neste longa-metragem espanhol é quando a repórter e o cinegrafista chegam ao apartamento do homem que, supostamente, estudava para obter uma vacina que cure os zumbis. Lá a câmera se acalma e podemos de fato ver o lugar em que estão os personagens. Lentos movimentos descritivos mostram as paredes cobertas de papel, a câmera esquadrinha o lugar. Após alguns sustos, um zumbi muito magro aparece na imagem e, ali permanece, por muito mais tempo do que o filme se permitiu deixar, em qualquer outro momento. Lentamente, a criatura caminha (percebemos, graças aos recortes de jornal que a câmera focalizou na parede, momentos antes, que se trata de uma linda garotinha portuguesa, que foi infectada por algo e se transformou em um corpo magricelo e deformado, o que é realmente assustador), em um “quase-silêncio”. Então, há uma ação dos personagens que provoca barulho e, infelizmente, tudo volta ao histerismo de antes, até que o filme acabe, com o que parece ser uma tola crítica à imprensa e seu afã por tudo registrar.

[REC] não foi capaz de me proporcionar a experiência física a qual propõem. Como, pelo menos aparentemente, a única coisa almejada pelo filme é isto, ser uma máquina de sustos, posso dizer que fracassou completamente. O que resta então? Apertar o [STOP], é claro.