4 de novembro de 2008

O Pentelho, de Ben Stiller

Um filme muito estranho. Não há frase melhor para definir essa obra-prima pós-modernista dos anos 90.

O primeiro plano de O Pentelho é o de uma TV, meio fora do ar, mudando rapidamente de canal. Após os créditos iniciais, “a film by Ben Stiller”, a câmera se afasta e somos apresentados ao protagonista Steven (Matthew Broderick) que acaba de se mudar para um novo apartamento e ainda não tem tv a cabo. Quando está tomando banho, num plano idêntico à cena do chuveiro de Curtindo a Vida Adoidado, Steven ouve a campainha. Rapidamente sai do banho e vê, pelo olho mágico, o cara da tv a cabo (Jim Carrey), que logo se tornará muito mais próximo de Steven do que ele imagina, ou quer.

O parágrafo acima, que poderia ser apenas uma simples descrição inicial de uma crítica ruim, diz muita coisa sobre O Pentelho. A TV meio fora do ar pode ser encarada como uma síntese da estrutura narrativa do roteiro, escrito por Stiller e Judd Apatow (sendo este um dos primeiros roteiros filmados de Apatow, homem que viria a revolucionar a comédia americana uma década mais tarde). O Pentelho flerta com vários gêneros, especialmente a comédia e o suspense/thriller, sem nunca se encaixar em nenhum deles. Assim como os canais que trocam rapidamente, o filme é tão cheio de referências, e essas são tão variadas (Star Trek, John Hughes, videogames, Expresso da Meia-Noite), que parece que estamos vendo vários filmes em um, como se canais mudassem durante a projeção, eventos diversos encadeados por um fio de linha narrativa.

O fato do protagonista ser o personagem de Matthew Broderick mostra algo sobre a coragem das escolhas do diretor, um Ben Stiller muito ousado, e que na época (o filme é 1996) não era nem um décimo do astro que é hoje. Mas para isso é preciso contextualizar as circunstâncias dessa obra.

Esse segundo longa de Ben Stiller chamou muita atenção da mídia, antes de seu lançamento, por causa de Jim Carrey e seu cachê. Em plena ascensão na época, Carrey recebeu 20milhões pelo filme, o maior salário pago para um ator até então, e quase metade do orçamento total do filme, que foi de 47 milhões (dados do Imdb). O curioso disso tudo é que o personagem de Carrey, apesar de dar nome ao título, é o antagonista da história e, se a princípio seu personagem pode ser encarado como um mero vilão, há algo de muito triste e melancólico nele, que não o torna um cara mau.

O plano que apresenta pela primeira vez esse personagem é através do olho mágico e, durante o filme, ele volta a ser visto sobre essa perspectiva algumas outras vezes. O olho mágico é uma representação da visão de mundo deste homem solitário, uma visão que não é completa, está dentro de um pequeno círculo, e é completamente destorcida. Afinal, é um personagem que foi criado literalmente em frente a uma televisão. Sem amigos e com pais ausentes, a tv foi sua única companhia, e daí vieram suas únicas referências de mundo. Por isso que este é um personagem, acima de tudo, triste e melancólico, que quer apenas um amigo, que tem necessidade de contato humano. Apesar de interpretado por Jim Carrey, não é um personagem engraçado, longe disso, o que, aliás, incomodou muita gente na época do lançamento (inclusive este que vos escreve, que aos 10 anos de idade, fã de Ace Ventura e O Máskara, ficou decepcionado ao ver esse filme em VHS). Os exageros do ator aqui só servem para aumentar a bizarrice deste ser, perdido no mundo.

A principal e mais óbvia crítica de O Pentelho, portanto, é em relação à tv, e toda influência que esse meio de comunicação exerce hoje no mundo. Essa crítica é explicitada em uma breve cena onde um espectador qualquer, após ver sua tv fora do ar, encontra ao seu lado um livro, e o abre pela primeira vez.

Após deixar bem clara esta sua frente contra a televisão, O Pentelho “muda de canal” e adquire ares de uma sátira. O final é propositalmente exagerado, quase apocalíptico, em meio a uma chuva torrencial, com direito a helicópteros, polícia, e uma queda de altura com efeito especial tosco. Aliás, os dois filmes seguintes do diretor, Zoolander e Trovão Tropical, se assumem abertamente como sátiras, na forma como cada qual critica uma indústria (no caso de Zoolander, a indústria da moda, e no de Trovão Tropical, a do cinema). Estamos diante de um autor, e um dos grandes da comédia americana.

A bizarrice de O Pentelho toma forma especialmente em duas cenas, que poderiam muito bem estar em um dos dois últimos filmes de David Lynch. Uma delas é a seqüência de pesadelo de Steven, onde Jim Carrey aparece derrubando a porta do apartamento com uma lente de contato verde bizarra em seus olhos, os dois começam uma longa perseguição em um pequeno corredor, cujo fundo fica se repetindo tal qual antigos desenhos animados. A outra cena é parte final da sequência do karaokê, com direito a lente grande angular, imagens psicodélicas na tv. pessoas idosas bizarras sorrindo o tempo todo, Jim Carrey cantando “Somebody to Love”, e Matthew Broderick dando uns amassos com uma prostituta.

A diferença é que nos recentes filmes de Lynch, as cenas surrealistas fazem parte de um todo muito igual, sem graça, de um diretor hoje perdido no meio de suas idéias razoáveis. Ben Stiller é mais corajoso. Em O Pentelho, essas cenas aparecem com muito mais força, em momentos distintos, e isso num filme amplamente comercializado. Stiller é muito mais vanguardista que Lynch.


[texto publicado originalmente na edição de outubro da Revista Cena1]