23 de outubro de 2008

3° Festival do Paraná de Cinema Brasileiro e Latino - Dia 6

Feliz Natal, de Selton Mello

Ao contrário de Mistéryos, exibido na noite anterior, que falhava especialmente na comunicação com o público, aqui, após uma apresentação do personagem principal durante os créditos iniciais, com direito a grua, somos literalmente convidados por um garoto, juntamente com o protagonista, para adentrar a vida dessa família disfuncional.

Vi Linha de Passe, de Walter Salles e Daniela Thomas, duas semanas atrás, e me incomoda bastante o fato de em alguns momentos mais densos, a câmera parece se afastar dos personagens. Em Feliz Natal, a câmera está sempre muito próxima de seus personagens, numa influência clara de Cassavetes (como Selton lembrou durante a apresentação do filme), e não os larga mais por nenhum instante.

Essa câmera rente aos personagens surpreende (especialmente para quem viu o horroroso Quando o Tempo Cair, curta-metragem dirigido por Selton Mello, com Jorge Loredo), e rende os melhores momentos de Feliz Natal. É uma opção acertada por este ser, em sua essência, um filme de atores. Se não há espaço em tela para que o espectador respire fora do drama dessa família, os atores parecem livres para improvisos, e é Darlene Glória (a Gena Rowlands de Selton) quem mais brilha neste elenco todo ótimo.

Ainda que em sua parte final Feliz Natal tome alguns rumos que John Cassavettes nunca tomaria, se aproximando de um tipo de cinema mais atual, como o de Paul Thomas Anderson e Lucrecia Martel, está aqui uma grande obra do cinema brasileiro recente, corajoso e autoral, vindo de onde menos se esperava: da maior estrela do cinema tupiniquim dos anos 00 que, como ator, parecia se repetir cada vez mais. Não por menos, Selton Mello anunciou que está abandonando sua carreira de ator, para se dedicar a escrever e dirigir filmes. Vida longa à Selton Mello como diretor!