8 de outubro de 2008

3° Festival do Paraná de Cinema Brasileiro e Latino - 2° Dia

Entre Cores e Navalhas, de Catarina Accioly e Iberê Carvalho

Aqui está um exemplar interessante do cinema de fragmentos (algo que começou lá nos anos 60 e que hoje em dia é quase requisito obrigatório para um “filme de festival”). Entre Cores e Navalhas é interessante porque, a bem da verdade, não é tão fragmentado assim. Narra pequenos instantes das vidas dos seus personagens, mas sem – pelo menos na maioria das vezes – perder de vista o potencial dramático da história de amor entre o cabeleireiro e a cobradora de ônibus da história. Afinal, muitas das vezes é este o defeito de certos filmes de fragmento: as ações são mostradas já no seu andamento, deixando de lado o caminho que teve de ser percorrido para que se chagasse naquele determinado ponto. Sendo que, não é raro, é neste caminho em que se encontra o interessante, o inusitado, a novidade, as emoções, o drama etc.

O curta-metragem de Catarina Accioly e Iberê Carvalho, com sua divisão estrutural em pequenos blocos, separados por fade outs e telas pretas lembra o Jim Jarmush de Estranhos No Paraíso e Dawn By Law. Mas isso não quer dizer que os cineastas simplesmente repetem esta estrutura à maneira do cineasta norte-americano (como faziam os dois curtas do dia anterior, no Festival). Aqui este recurso é utilizado de maneira bastante própria, ideal para servir a esta narrativa que suscita longas elipses temporais.

Como já disse, só há um ou outro momento em que aparentemente aquilo que é mostrado é um pouco menos interessante do que é deixado de fora. A mim interessaria muito ver, por exemplo, qual seria a reação da cobradora de ônibus ao ver pela primeira vez a transformação sofrida pelo cabeleireiro, ao invés momento mostrado no filme, em que claramente os dois já passaram um bom tempo juntos. Não que eu esteja aconselhando os cineastas, ou dizendo como deveria ser o filme deles. Isso Truffaut já condenou como algo completamente patético. E eu não sou louco de contrariar o homem que fez Beijos Proibidos.

Wellington Sari


A Espera, de Fernanda Teixeira

Fiquei impressionado quando ontem achei uma página sobre o curta Luchador, que o definia como um “curta metragem sobre a solidão”. Tá bem, então. A Espera, de Fernanda Teixeira, pelo menos tem muito mais consciência do que pode ser um filme sobre solidão e de como filmar isso. O resultado é interessante, ainda que não seja necessariamente bom.

O filme mostra o cotidiano de um velho homem, que espera sua morte. Ele vive sozinho, apenas com seu cachorro, em uma casa imensa. Com planos longos e lentos movimentos de câmera, vemos a rotina desse personagem, que, entre outras coisas, dá comida ao seu cachorro, olha os obituários nos jornais, limpa e lustra um caixão e lê Cem Anos de Solidão. Uma referência meio óbvia, onde o curta vai calcar todo seu enredo. Na primeira vez que o velho aparece lendo o livro, o plano que dá mais atenção a sua referência do que a ação da cena em si. Teixeira se apóia muito em Garcia Marquez para mostrar o que quer.

Depois de muito tempo vendo o velho em sua rotina, acontece algo, e o final é trsite, mas ao mesmo tempo parece uma sacada engraçadinha. Estranho, talvez bom, não sei. Só sei que agora tenho certeza que filmes sobre solidão não são para mim. Talvez por isso eu nunca tenha gostado de Antonioni.

Christopher Faust