(atualizado - [colorado esporte cluBE] e Fronteira)
Neste terceiro dia de festival, em meio a risadas contidas durante o filme argentino As Mãos, me veio a cabeça algo que Kleber Mendonça Filho escreveu sobre o Festival de Gramado esse ano, e que pode também ser observado sobre este Festival do Paraná.
Festivais como esses dois, grandes, um já consolidado e outro em busca de consolidação, abrem um importante espaço para uma primeira entrada de filmes de alguns países da América Latina no Brasil, dando visibilidade a eles e até uma chance de quem sabe conseguirem uma distribuição no país. Porém, a escolha dos filmes latinos em competição parece muito fraca e não condiz que os verdadeiros filmes importantes feitos em países como a Argentina, por exemplo. O que tem se visto até agora neste Festival do Paraná dá a impressão de ser apenas o lado b do lado b da produção argentina. Villa e As Mãos tomam um espaço que poderia ser ocupado pelos novos filmes de Lucrecia Martel, Pablo Trapero e Lisandro Alonso, para dar alguns exemplos.
Não dá para entender que um festival que se orgulhe de dar grandes prêmios em dinheiro para os longa-metragens, não tenha convidado esses filmes, com tanta relevância no cenário do cinema mundial, para se inscrevem na competição oficial. Se convidaram, é uma pena que não tenham aceitado. A presença desses filmes, e desses cineastas, seria muito mais interessante e proveitosa a todos.
Solitário Anônimo, de Debora Diniz

O fato é que Solitário Anônimo, em diversos momentos, é bastante contundente. Sua principal força está em determinadas situações, que conseguem ser captadas pela câmera, vividas pelo “personagem peculiar” – há praticamente um sub-gênero dentro do cinema documental que trata de pessoas marginais, sendo Estamira o exemplo recente dos mais marcantes. Felizmente, aqui, ao contrário do filme de Marcos Prado, o personagem é lúcido e tem plena consciência do que foi feito com sua imagem. O problema é que, para a câmera estar presente nas tais situações (bastante dramáticas, poderia se dizer), como na que o “personagem” recebe uma sonda pelo nariz e, principalmente, no momento em que uma equipe de TV, com todo o aparato técnico, entra no quarto de hospital em que está o homem, Debora também precisa invadir a vida do solitário-que-não-quer-ser-incomodado.
Assim como a sonda hospitalar literalmente invade o corpo do velho e, a imprensa, com a voracidade em apurar informação, invade o direito seu direito de se manter anônimo, a cineasta, com a vozinha de anjo em que pergunta “o Sr. quer morrer? O Sr. queria estar aqui neste hospital?”, única e exclusivamente para obter as respostas que lhe interessam, ultrapassa um certo limite da vida privada do “personagem”. Mesmo que, ao fim do filme, a diretora escolha mostrar o homem já recuperado e completamente lúcido, nos dando a entender que ele autorizou o documentário (não há como saber em que circunstâncias isto aconteceu), fica a impressão de que os meios são bem menos humanistas que os fins pretendidos por Solitário Anônimo.

Determinadas opções estéticas em [colorado esporte cluBE] – como o recorrente uso de fusões de curta duração entre os planos, que causam um certo amortecimento da passagem do tempo, e o belo uso do som não-sincronizado – são exemplos de que Allon seguiu um determinado conceito formal e nele permaneceu durante todo o filme (que em torno de quatro minutos). Goste-se ou não do curta, é inegável que ele tem uma “cara própria”.
Foi interessante tê-lo assistido mais de uma vez, já que anteriormente, durante a projeção, me sentia incomodado pelas constantes mudanças de ângulo da câmera, que parecia estar procurando de forma quase aleatória um lugar que permitisse melhor observar as ações do personagem. Eu sentia falta de planos mais longos, que fizessem por eles escorrer o tempo. Mas isso é bobagem. Hoje percebi que Allon achou uma maneira muito mais interessante de alterar a percepção que o espectador tem do tempo (utilizando as tais pequenas fusões).
O uso do texto verbal é outro grande mérito do curta: havia mil maneiras de utilizar a “fonte original” do filme (um conto de Adriano Esturilho). Allon escolheu a mais simples, portanto, a melhor.
[wellington saRI]
Quem achava que a pior coisa a ser vista neste festival seria Luchador, estava muito enganado. Mas, ao contrário do curta-metragem, cujo nível de ruindade atingia picos por causa de uma certa incompetência do diretor e roteirista, aqui Alejandro Doria parece saber exatamente o que quer, o que torna seu filme ainda mais desprezível. Pior, este é um longa, são 119 minutos de tortura.Quase não tenho palavras para descrever este filme, que mostra que não foi apenas a comissão de seleção dos curtas que resolveu fazer piada de mau gosto com o público, mas a de longas também. Tudo em As Mãos é ou clichê ou de extremo mau gosto, além de ter um roteiro com uma filosofia imbecil e ultrapassada. Começo aqui, aliás, uma campanha para que este diretor nunca mais chegue perto de uma câmera novamente, o bem da humanidade está em jogo.
O protagonista do filme é um padre, que tem o poder de curar doenças e efermidades com suas mãos. Simples assim, e ele leva isso numa boa, o diretor também, como se tudo fosse algo muito comum, mesmo em seus momentos mais X-Men ou Al Gore. Não se trata aqui de não acreditar que algo assim possa existir, isso é irrelevante, trata-se de uma exploração ridícula do tema, raso ao explorar qualquer conflito e na escolha dos conflitos a serem explorados. Qualquer filme de super-herói faria isso melhor, peguem o péssimo O Quarteto Fantástico, por exemplo.
Daí o filme segue numa jornada do padre contra tudo e contra todos, incluindo aí a polícia e certa parte da igreja, para que ele possa seguir curando pessoas. As Mãos segue o manual de roteiros, e a principal referência parece ser Patch Adams, O Amor é Contagioso, de Tom Shadyac (que já fez grandes comédias, diga-se de passagem, Ace Ventura e O Mentiroso não me deixam mentir), só que mais bitolado. Muitos zooms constrangedores depois (a questão do travelling de Kapò, poderia ser discutido aqui, aliás), temos uma cena que já nasce antológica. O padre entra pelo matagal, à noite, sob a luz do luar, numa bela fotografia, e resolve ver uma radiografia sua. Brilhante.
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