7 de outubro de 2008

3° Festival do Paraná de Cinema Brasileiro e Latino - 1° Dia

Começamos no blog a cobertura do Festival (como, a guisa de abreviação, chamamos o evento por aqui). Postaremos textos sobre os longas e os curtas-metragens em competição, sempre ao fim de cada dia. Eventuais entrevistas com realizadores também podem aparecer.

Pornographico, de Paula Gomes e Haroldo Borges

Há toda uma tentativa de arquitetação estética e temática, além de uma certa utilização de signos, que tentam fazer deste curta-metragem algo pertencente a um outro tempo, a um tempo passado. Desde a premissa – um projecionista, já idoso, de cinema pornô que tem saudades do período em que exibia na salas os filmes do cinema clássico norte-americano - , ao uso da música orquestrada, a uma mise-en-scene de movimentos de câmera pretensamente suaves, fica claro que Pornographico é nostalgia pura. Nada contra nostalgia (apesar da frase do genial Stanislaw Ponte Preta, que diz: “voltar é morrer um pouco”), tudo contra a nostalgia doentia, moralista e tão ingênua ao ponto de ser absolutamente constrangedora.

O filme, inteiro com o voice over do protagonista atormentando os nossos ouvidos, tem aquele papo quase fascista de De Niro em Taxi Driver (limpar a sujeira das ruas, acabar com a escória etc) e o idealismo tonto que nem os filmes clássicos norte-americanos possuem (“a magia do cinema”). Ou seja algo preocupante e/ou risível. Nada pior do que utilizar signos já muito batidos, como a chuva ou um vestido branco, de forma batida, sem qualquer tentativa de re-significação, já que o resultado disso é aquela sensação de “será que o filme tá levando a sério isso mesmo? jura que não é uma paródia?”.

O grande exemplo está na cena em que uma personagem feminina entra em cena em câmera lenta, usando um vestido branco (a voz em off não nos deixa esquecer deste detalhe), banhada pela chuva, ao som de algo parecido com um bolero. Parece haver aqui uma pequena aproximação ao estilo de Wong Kar Wai. Fracassada, já que o resultado lembra algo dos irmãos Zucker (o que neste caso não é um elogio, já que Pornographico não é uma comédia).

O festival começou de maneira bastante decepcionante. Nada que não pudesse melhorar, como nos mostrou o terrível Luchador.

Wellington Sari


Luchador, de Juliano Luccas

O dia de abertura da mostra competitiva de curtas-metragem do Festival pareceu uma espécie de homenagem constrangedora ao universo scorsesiano. Pornographico decalca Taxi Driver e Luchador empresta de Touro Indomável. Ambos utilizam explicitamente (mas sem jamais admitir de forma clara, como faz, em um exemplo ligeiro, Tarantino com os cineastas que idolatra) signos e temas do diretor norte-americano. O curta-metragem dirigido por Juliano Luccas, que narra a história de um lutador clandestino perdedor, em diversos momentos, utiliza a iconografia cristã apenas para se parecer com Scorsese. Assim como em Pornographico, as influências – estéticas, temáticas etc – são utilizadas como um fim e não como um meio. Não há porque elas estarem ali.

Luchador é um filme que se utiliza do próprio cinema para construir o seu mundo (Pornographico também, mas em um escala um pouco menor), por isso o diretor não pára em Scorsese (considerado como um exemplar do bom cinema norte-americano) e vai até os filmes vagabundos de artes marciais. Mais especificamente: vai até Leão Branco, o Lutador Sem Lei, de Sheldon Lettich, com nada mais nada menos do que Jean-Claude Van Damme. É daí que Luccas retira a matéria-prima para construir o roteiro, os personagens e seus arquétipos e a cenografia do seu filme. Há porque, em um curta-metragem, feito no Brasil, chupar um filme do Van Damme?

O que esse curta-metragem quer dizer? Pode-se sugar sim e não necessariamente um filme precisa dizer algo (isso fica para os comentaristas de futebol). O problema é que – ajudado por graves problemas de direção, que faziam a platéia rir em momentos que se pretendiam densos – dessa combinação toda fica quase impossível extrair algo bom. Luchador parece uma grande piada de mau gosto, selecionada no Festival apenas para pregar uma peça em todo mundo. Pena que isso é bem pouco proveitoso.

P.S: Adoro filmes de artes marciais vagabundos e adoro Leão Branco, o Lutador Sem Lei.

Wellington Sari


Pachamama, de Eryk Rocha

Depois de dois curtas-metragens pavorosos, este documentário de me pareceu uma escolha bem mais feliz para o dia de abertura de um festival que é Brasileiro e Latino no seu título. Pachamama é sobre uma viagem do diretor e sua reduzida equipe para Peru, Bolívia e uma certa região do Brasil.

Sendo esse já o terceiro longa-metragem de Eryk Rocha que assisto, fica cada vez mais claro que estamos diante de um diretor com idéias interessantes e muitas boas intenções, mas que ainda não conseguiu chegar a um resultado final no nível de sua pretensão. Rocha que Voa continua sendo seu melhor trabalho, talvez por ser um filme mais pessoal, enquanto seu outro longa Intervalo Clandestino é uma boa intenção jogada no lixo. Ainda, este é um cineasta que se acha mais importante do que realmente é, talvez por seu engajamento político ou por ser filho de quem ele é, e essa sua auto-importância transparece na forma de seus fillmes.

Logo no começo, uma voz off do diretor, que logo me remete a O Fim e o Princípio, do Eduardo Coutinho, explica que este é documentário cujo seu roteiro é o trajeto do diretor e sua reduzida equipe. Neste começo, e durante boa parte do filme, vemos paisagens, em alguns belos planos, de dentro de um carro, a câmera como se fosse a janela de um carro para esses países. Eryk Rocha, ao mesmo tempo que explicita a estrada como roteiro de seu documentário, mostra que seu olhar na verdade é um olhar urbano para esse mundo latino, do qual o diretor não faz verdadeiramente parte, mas apesar de se interessar muito nele. É um olhar fácil, a câmera em uma situação confortável, cineastas dentro de um carro fazendo belas imagens, e a latino-américa lá fora.

Não por menos, é quando o filme vai para Bolívia, larga um pouco a idéia de um documentário-trajeto, e finca o pé numa situação específica, que Pachamama toma força. Raízes latino-americanas tomam vida à tela, agora próximas à câmera, Eryk Rocha, agora fora de seu carro e sem nenhuma linguagem mais experimental, talvez até forçado pela situação ao seu redor, presencia calorosos debates políticos, pessoas engajadas demonstrando seu engajamento à flor da pele. E fez, enfim, o público do festival pulsar a América Latina, por alguns poucos minutos. Deve ter deixado, ao menos, os organizadores e boa parte da platéia, felizes.

Christopher Faust


Villa, de Ezio Massa

E a Argentina também tem seus filmes de estética publicitária sobre favela. incrível! Villa exala uma clara influência de videoclipes (aliás, o filme pára pelo menos duas vezes para o uso de músicas) e do cinema de Iñarritu, no sentido ruim.

Ezio Massa não sabe o que é um tripé, filma tudo com uma câmera na mão sempre irritante, que não se inquieta em nenhum momento. Fica a impressão também de ter sido filmado com várias câmeras simultaneamente, uma mania atual que parece se espalhar cada vez mais, usada muitas vezes sem propósito (como em Villa) e até em cenas simples de diálogos entre dois personagens, transparece apenas uma preguiça por parte de um diretor que parece não se preocupar com decupagem. Pior é que aqui, ao contrário de um Linha de Passe ou Blindness, não há Fátima Toledo para preparar o elenco ou Ezio Massa não é diretor de atores tão bom quanto Fernando Meirelles, e o elenco caricato prejudica bastante o resultado final.

Os créditos revelam três nomes assinando a montagem de Villa. De fato, talvez esteja aí o maior problema da película, uma montagem perdida, especialmente quando explica com rápidos flashbacks pormenores do roteiro ou, quando no clímax final, se enrola para contar as histórias paralelas, sem muito conseguir sair do lugar, com planos detalhes que parece querer tentar levar o público a pistas falsas, mas mostra ser apenas um amadorismo de direção mesmo. Massa quis criar um clímax final com ápices para cada personagem, remetendo a um Crash: No Limite ou Magnólia, porém esqueceu de criar mais do que três personagens. A montagem videoclíptica publicitária não sustenta os parelelos.

Considerando que todos esses problemas partem de um roteiro que não sabe onde quer chegar, e que o filme tem vários planos tortos (e todos sabem que 99% dos filmes que tem planos tortos são ruins), estamos diante de um filme argentino que não precisava ter chegado no Brasil. Enfim, esperemos por dias melhores.

Christopher Faust