(atualizado - Mistéryos)
A Armada – O Outro Lado do Descobrimento, de Ric Oliveira

Primeiro filme de animação que vejo no festival (infelizmente perdi Dossiê Rebordosa), este curta-metragem de Ric Oliveira poderia ser enquadrado como uma “animação de arte”. Poderia. Mas ninguém vai fazer tal coisa, já que é uma tremenda bobagem ficar enquadrando o que quer que seja.
O fato é que A Armada – O Outro Lado do Descobrimento vai na contra-mão das animações mais comerciais, produzidas pelos grande estúdios norte-americanos. Ao invés de buscar a fluidez dos movimentos corporais, a minúcia das expressões faciais – ou seja, buscar a mimese das peculiaridades do corpo-humano -, o filme vai de encontro ao estático. Os personagens têm pouquíssimos movimentos – a expressividade cabe quase que exclusivamente aos olhos, como nos animes -, assim como o cenário, que na maioria das vezes chega a lembrar a cenografia fixa dos desenhos dos estúdios Hanna-Barbera.
É bastante interessante como esta quase falta de movimento contribui plenamente para a narrativa. Uma vez que os personagens passam boa parte do curta-metragem navegando, todo o tédio causado por tal atividade nos é passado pelo contido movimento dos personagens e do cenário. Ambos se mexem de forma lenta e repetida, quase hipnótica. O belíssimo desenho de som contribui para que a experiência se torne quase sensorial.
Ao final da viagem pelo mar, os portugueses chegam à costa brasileira. Dois deles desembarcam e pisam em terra-firme. Encontram os índios.O que se vê a seguir é uma dos mais interessantes interpretações do que poderia ter acontecido neste insólito momento: completamente estáticos, com a exceção dos olhos, que vão de lá para cá, vemos todo o constragimento dos portugueses. Os personagens se encaram e o tempo se dilata, graças ao simples uso do plano/contra-plano. Como em um filme de Sérgio Leone. De repente, o grito furioso do português...
Mistéryos, de Beto Carminatti e Pedro Merege

Havia escrito alguns parágrafos sobre Mistéryos, mas andando de minha casa até o Museu Oscar Niemeyer para o último dia de festival, me peguei pensando algumas coisas sobre este filme, e resolvi então chutar o balde, deletar os parágrafos que já havia escrito e começar de novo o texto com a seguinte frase: O maior problema de Mistéryos está em sua fotografia. (na verdade, eu não comecei o texto com essa frase, como vocês devem ter percebido, comecei com uma história sobre andar até o MON e tal, mas a intenção foi essa. enfim.)
Antes de tudo, vale informar que este filme de baixo orçamento (um milhão de reais, financiado por um edital de cinema do estado do Paraná) foi filmado com câmera Panavision, uma das melhores do mundo, e fotografado por Alziro Barbosa, possivelmente um dos melhores diretores e fotografia do país. Vendo Mistéryos, é impossível negar a plasticidade da beleza de suas imagens. Me pergunto apenas o porque de tudo isso em um filme onde a imagem fica completamente refém do texto em off.
A fotografia aqui não contribui em nada para o desenvolvimento da narrativa do longa (ao contrário, por exemplo, de O Grão, exibido na noite anterior, ou Feliz Natal, exibido na noite seguinte, onde a fotografia está intrinsecamente ligada ao cerne de seu respectivo filme), contribui apenas para a criação de um clima, e ao fim soa apenas como um enfeite de luxo em meio a um filme, cujo roteiro, escrito a dez mãos, falha especialmente na comunicação com qualquer tipo de público.
Tal como no curta-metragem O Mistério da Japonesa, da mesma dupla de diretores, Mistéryos parece respeitar muito Valêncio Xavier, escritor na qual ambos os filmes são baseados. Esse respeito e a tentativa de se fazer uma homenagem ao escritor, como revelou Pedro Merege na apresentação do longa, parece mais prejudicar do que ajudar o filme, e funciona quase como uma camisa de força para a direção e o roteiro. Durante grande parte do filme, é a voz off pretensamente bela que conduz o filme narrativamente, resta às imagens apenas ilustrar o que está sendo dito.
Muitas vezes, as imagens de Mistéryos são redundantes, como as cartelas que invadem o filme, informando coisas desnecessárias. Por que explicitar em uma cartela que estamos em Curitiba ou no Passeio Público, se as locações são em Curitiba, e se depois da cartela do Passeio Público, vemos uma cena que se passa... no Passeio Público? Ou por quê dizer que estamos em 1969 se, logo depois da cartela, uma televisão mostra a chegada do homem à lua? Este aliás, seria um exemplo onde a fotografia poderia ajudar a contar a história, mas o filme se diminui a mastigar essas informações. Pode-se dizer que essas cartelas servem como uma forma de explicar melhor a história ao público, mas contradiz com a vontade dos diretores de fazer um filme artístico. Mistérios fica num meio termo entre o “artístico” e o “popular”, sem nunca alcançar um ou outro
Quando escrevo que o maior problema de Mistéryos está em sua fotografia, digo isso não apenas por causa da fotografia em si, mas por todo o conceito deste filme na qual esta fotografia está inserida. É na fotografia bela, mas antiquada, onde se percebe que a posição de cada refletor foi muito bem pensada, que Mistéryos se revela um exercício masturbatório. Todos os envolvidos no filme parecem ter gostado demais do resultado, e o esforço dos profissionais envolvidos é notável, faltou apenas um convite ao público para adentrar esse mundo de Valêncio Xavier.
O fato é que A Armada – O Outro Lado do Descobrimento vai na contra-mão das animações mais comerciais, produzidas pelos grande estúdios norte-americanos. Ao invés de buscar a fluidez dos movimentos corporais, a minúcia das expressões faciais – ou seja, buscar a mimese das peculiaridades do corpo-humano -, o filme vai de encontro ao estático. Os personagens têm pouquíssimos movimentos – a expressividade cabe quase que exclusivamente aos olhos, como nos animes -, assim como o cenário, que na maioria das vezes chega a lembrar a cenografia fixa dos desenhos dos estúdios Hanna-Barbera.
É bastante interessante como esta quase falta de movimento contribui plenamente para a narrativa. Uma vez que os personagens passam boa parte do curta-metragem navegando, todo o tédio causado por tal atividade nos é passado pelo contido movimento dos personagens e do cenário. Ambos se mexem de forma lenta e repetida, quase hipnótica. O belíssimo desenho de som contribui para que a experiência se torne quase sensorial.
Ao final da viagem pelo mar, os portugueses chegam à costa brasileira. Dois deles desembarcam e pisam em terra-firme. Encontram os índios.O que se vê a seguir é uma dos mais interessantes interpretações do que poderia ter acontecido neste insólito momento: completamente estáticos, com a exceção dos olhos, que vão de lá para cá, vemos todo o constragimento dos portugueses. Os personagens se encaram e o tempo se dilata, graças ao simples uso do plano/contra-plano. Como em um filme de Sérgio Leone. De repente, o grito furioso do português...
Wellington Sari
Mistéryos, de Beto Carminatti e Pedro Merege

Havia escrito alguns parágrafos sobre Mistéryos, mas andando de minha casa até o Museu Oscar Niemeyer para o último dia de festival, me peguei pensando algumas coisas sobre este filme, e resolvi então chutar o balde, deletar os parágrafos que já havia escrito e começar de novo o texto com a seguinte frase: O maior problema de Mistéryos está em sua fotografia. (na verdade, eu não comecei o texto com essa frase, como vocês devem ter percebido, comecei com uma história sobre andar até o MON e tal, mas a intenção foi essa. enfim.)
Antes de tudo, vale informar que este filme de baixo orçamento (um milhão de reais, financiado por um edital de cinema do estado do Paraná) foi filmado com câmera Panavision, uma das melhores do mundo, e fotografado por Alziro Barbosa, possivelmente um dos melhores diretores e fotografia do país. Vendo Mistéryos, é impossível negar a plasticidade da beleza de suas imagens. Me pergunto apenas o porque de tudo isso em um filme onde a imagem fica completamente refém do texto em off.
A fotografia aqui não contribui em nada para o desenvolvimento da narrativa do longa (ao contrário, por exemplo, de O Grão, exibido na noite anterior, ou Feliz Natal, exibido na noite seguinte, onde a fotografia está intrinsecamente ligada ao cerne de seu respectivo filme), contribui apenas para a criação de um clima, e ao fim soa apenas como um enfeite de luxo em meio a um filme, cujo roteiro, escrito a dez mãos, falha especialmente na comunicação com qualquer tipo de público.
Tal como no curta-metragem O Mistério da Japonesa, da mesma dupla de diretores, Mistéryos parece respeitar muito Valêncio Xavier, escritor na qual ambos os filmes são baseados. Esse respeito e a tentativa de se fazer uma homenagem ao escritor, como revelou Pedro Merege na apresentação do longa, parece mais prejudicar do que ajudar o filme, e funciona quase como uma camisa de força para a direção e o roteiro. Durante grande parte do filme, é a voz off pretensamente bela que conduz o filme narrativamente, resta às imagens apenas ilustrar o que está sendo dito.
Muitas vezes, as imagens de Mistéryos são redundantes, como as cartelas que invadem o filme, informando coisas desnecessárias. Por que explicitar em uma cartela que estamos em Curitiba ou no Passeio Público, se as locações são em Curitiba, e se depois da cartela do Passeio Público, vemos uma cena que se passa... no Passeio Público? Ou por quê dizer que estamos em 1969 se, logo depois da cartela, uma televisão mostra a chegada do homem à lua? Este aliás, seria um exemplo onde a fotografia poderia ajudar a contar a história, mas o filme se diminui a mastigar essas informações. Pode-se dizer que essas cartelas servem como uma forma de explicar melhor a história ao público, mas contradiz com a vontade dos diretores de fazer um filme artístico. Mistérios fica num meio termo entre o “artístico” e o “popular”, sem nunca alcançar um ou outro
Quando escrevo que o maior problema de Mistéryos está em sua fotografia, digo isso não apenas por causa da fotografia em si, mas por todo o conceito deste filme na qual esta fotografia está inserida. É na fotografia bela, mas antiquada, onde se percebe que a posição de cada refletor foi muito bem pensada, que Mistéryos se revela um exercício masturbatório. Todos os envolvidos no filme parecem ter gostado demais do resultado, e o esforço dos profissionais envolvidos é notável, faltou apenas um convite ao público para adentrar esse mundo de Valêncio Xavier.
Christopher Faust
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