27 de março de 2009

The Spirit, de Frank Miller


Um filme sobre cor. Formas e cores, para ser mais exato.

Já vimos, recentemente, o recurso de se utilizar uma cor viva em um detalhe, em contraste com o “todo” preto e branco ou em tons “rebaixados” (Sin City, Rocky Balboa). Em The Spirit, podemos observar outra vez este expediente. Mas não só: vemos a cor viva tomar o lugar do todo, assim como também vemos a cor praticamente desaparecer do quadro. O primeiro exemplo está no momento em que os personagens de Samuel L. Jackson e Scarlet Johanson estão vestidos de nazistas. É uma cena longa, à beira do nonsense, que parodia o “momento revelação dos planos”, presente em um certo tipo de histórias em quadrinhos, ou em filmes do James Bond (quando o vilão, tendo o herói sob domínio, começa a revelar detalhes do seu plano maligno). Em dado momento, de um close de Scarlet, é abstraído todo o fundo: vemos apenas seu rosto, sob um vermelho “chapado”. Outra cena, anterior a esta, que aparentemente não possui nenhuma importância narrativa – no sentido um pouco mais clássico, de “fazer a trama avançar” -, mostra Jackson, vestido de samurai, literalmente cortando dois capangas, sob um fundo branco,também inteiramente “chapado”. Temos aqui uma técnica que poderia ter sido emprestada do barroco, não fosse o fato de as histórias em quadrinhos a utilizarem em larga escala (o Spirit de Eisner, como um exemplo óbvio).

Ou seja. Um dos interesses de Miller é emprestar alguns aspectos da estética das HQS e daí tirar seu cinema. Sem, necessariamente, prestar um respeito covarde e imbecil ao material de origem. Apenas por este motivo, The Spirit é tão superior ao Watchman de Zack Snyder.

E, é claro, há a autoconsciente interpretação de Jackson e Scarlett (principalmente o ator) e o maravilhoso primeiro encontro entre Spirit e o vilão, em que os dois ficam se socando na lama. Um contraponto perfeito à bobagem psicologizante e pretensamente séria dos conflitos entre herói e vilão, presentes no mega sucesso Batman, O Cavaleiro das Trevas, por exemplo. São caras fantasiados se dando soco um no outro! Como alguém pôde um dia pensar que isso deveria ser levado a sério?

14 de março de 2009

Operação Valquíria, de Bryan Singer


Operação Valquíria é simplesmente uma tentativa de Hollywood de matar Hitler. Uma real história alemã aqui serve como uma desculpa para que Tom Cruise, num trabalho mínimo de composição de um ator geralmente esforçado, encarne uma espécie de Ethan Hunt de tapa olho na Segunda Guerra Mundial, na missão, dessa vez realmente impossível, de matar Adolf Hitler, que fala inglês.

A visão de tudo é claramente hollywoodiana e, por isso, um tanto limitada, num roteiro que me parece que perfeito para ser filmada por Raoul Walsh, caso este ainda estivesse vivo hoje, fazendo 3 filmes por ano.

Bryan Singer, que parece ter se tornado mais mero um diretor de estúdio graças a seus filmes de suerheróis, os bacanas dois primeiros X-Men e o desastre Superman - O Retorno (não é legal resumir filmes em um adjetivo?), volta aqui a abordar o nazismo, tema já trabalhado pelo diretor, de forma menos explícita, em O Aprendiz, talvez seu melhor filme.

O filme, enfim, é muito mais interessante do pode parecer a princípio. Um bom thriller de ação, que se destaca pela forma contida com que Singer filma, surpreendentemente até, considerando seus outros trabalhos (a exceção é O Aprendiz, o que me faz pensar que Singer se interessa pelo nazismo, mas o filma com demasiado respeito, e isso não é ruim). A metade inicial especialmente, com a arquitetação do plano para matar Hitler, demonstra um grande cuidado de decupagem e muita eficiência na criação da tensão. Lembra as metades iniciais de alguns bons filmes de roubo de banco. Mesmo quando há uma explosão, a câmera permanece fixa, observando tudo de uma maneira fria, forma típica de Hollywood tratar o nazismo.

Se no final Cruise fracassa em sua missão é porque, apesar de todas deturpações, essa ainda é uma história baseada em fatos reais, e a indústria americana parece ter um respeito enorme demais por essas coisas, o Oscar que o diga. Não fosse isso, Hollywood teria o maior prazer de ver um grande astro seu matando Hitler. Quem sabe numa próxima.