
Um filme sobre cor. Formas e cores, para ser mais exato.
Já vimos, recentemente, o recurso de se utilizar uma cor viva em um detalhe, em contraste com o “todo” preto e branco ou em tons “rebaixados” (Sin City, Rocky Balboa). Em The Spirit, podemos observar outra vez este expediente. Mas não só: vemos a cor viva tomar o lugar do todo, assim como também vemos a cor praticamente desaparecer do quadro. O primeiro exemplo está no momento em que os personagens de Samuel L. Jackson e Scarlet Johanson estão vestidos de nazistas. É uma cena longa, à beira do nonsense, que parodia o “momento revelação dos planos”, presente em um certo tipo de histórias em quadrinhos, ou em filmes do James Bond (quando o vilão, tendo o herói sob domínio, começa a revelar detalhes do seu plano maligno). Em dado momento, de um close de Scarlet, é abstraído todo o fundo: vemos apenas seu rosto, sob um vermelho “chapado”. Outra cena, anterior a esta, que aparentemente não possui nenhuma importância narrativa – no sentido um pouco mais clássico, de “fazer a trama avançar” -, mostra Jackson, vestido de samurai, literalmente cortando dois capangas, sob um fundo branco,também inteiramente “chapado”. Temos aqui uma técnica que poderia ter sido emprestada do barroco, não fosse o fato de as histórias em quadrinhos a utilizarem em larga escala (o Spirit de Eisner, como um exemplo óbvio).
Ou seja. Um dos interesses de Miller é emprestar alguns aspectos da estética das HQS e daí tirar seu cinema. Sem, necessariamente, prestar um respeito covarde e imbecil ao material de origem. Apenas por este motivo, The Spirit é tão superior ao Watchman de Zack Snyder.
E, é claro, há a autoconsciente interpretação de Jackson e Scarlett (principalmente o ator) e o maravilhoso primeiro encontro entre Spirit e o vilão, em que os dois ficam se socando na lama. Um contraponto perfeito à bobagem psicologizante e pretensamente séria dos conflitos entre herói e vilão, presentes no mega sucesso Batman, O Cavaleiro das Trevas, por exemplo. São caras fantasiados se dando soco um no outro! Como alguém pôde um dia pensar que isso deveria ser levado a sério?
27 de março de 2009
The Spirit, de Frank Miller
por
Wellington Sari
às
18:17:00
Marcadores: Frank Miller
Assinar:
Comment Feed (RSS)
|