
Parece um pouco difícil decidir se Simplesmente Feliz é um filme que afirma ser a felicidade algo possível como visão de mundo, ou, uma obra que dá à alegria um quê de loucura e irrealidade. A primeira alternativa é muito mais singela e é a que mais me agrada: É bonito de se ver Poppy (Sally Hawkins) vestida em Technicolor, contrastando com os prédios marrons de Londres. Em um mundo urbano e monocromático, ser colorido é “não entrar no esquema”. Se o stress é a Nova Ordem, ter bom humor quase que cem por cento do tempo é estar por fora.
Não é à toa que a felicidade de Poppy incomoda sua irmã, que está grávida, tem uma casa bacaninha, um marido mais ou menos e um Playstation. Uma vida média, enfim. A alegria de Poppy faz a irmã entrar em crise e dizer “eu sei que você acha que eu escolhi o caminho mais fácil”. Sim, foi exatamente isso o que ela fez.
A saltitante Poppy não. Escolheu ser diferente (ser feliz, hoje, soa tão esquisito como ser um punk nos anos 70, parece uma afronta). E precisa arcar com as consequências: a erupção de Scott (Eddie Marsan) se dá principalmente graças a um mal intendido – ele achava que Poppy o estava seduzindo. É a cena que sintetiza todo o incômodo causado – nos outros personagens e, quem sabe, no público? - pela felicidade protagonista ao longo do filme. Não que Leigh seja muito sutil na construção de Poppy e Scott – um é o absoluto oposto do outro. O primeiro contato entre ambos já prenuncia um distúrbio. De qualquer forma, é um dos momentos mais interessantes do filme, quando, pela primeira vez, vemos a escolha de Poppy – ser feliz - ser posta em cheque. Mas, logo tudo se resolve e sem demora Poppy está com Zoe, sua melhor amiga, em um barquinho no meio do lago.
É possível ser feliz e até ajudar as pessoas – algumas não, como Scott e o mendigo, mas estes sofrem de uma patologia e cuidar disto cabe à ciência, não ao bom humor de Poppy -, como o menininho valentão da escola em que a protagonista leciona. O mundo parece sofrer sim alguma alteração graças ao comportamento alegre. Não parece coincidência o fato de que o entorno de Poppy, em diversos momentos, é também coloridão (a despeito da monocromática Londres a que me referi): o mapa mundi da sala de aula é de um azul muito vivo, o portão da escola é vermelho, a porta da casa do assistente social com quem Poppy começa a namorar é amarela...
Apesar de a segunda alternativa ser bastante plausível, a primeira, como já disse, é muito mais bonita. E é esse o filme que eu quero ter visto.
15 de abril de 2009
Simplesmente Feliz, de Mike Leigh
por
Wellington Sari
às
11:12:00
Marcadores: Mike Leigh
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