
Um filme cujo título é homônimo ao personagem principal pressupõe uma série de questões, antes mesmo que se veja um fotograma sequer. Já se vai, por exemplo, ao longa-metragem sabendo que tal figura será o centro das atenções (o que não significa, necessariamente, que o personagem será o centro da imagem ; ele pode ser alguém a quem os personagens se referem, alguém cuja força exerce influência nos outros etc). No caso de Jean Charles, a questão é potencializada por, basicamente, dois fatores: a presença de Selton Mello e, é claro, a repercussão que a “história real” teve na imprensa do mundo todo.
Ou seja, os diversos indícios anteriores ao filme nos preparam para ver a história de Jean, um herói brasileiro, morto covardemente pela polícia inglesa. Ah sim, interpretado por um dos atores mais badalados da atualidade.
No entanto, alguma coisa acontece ao decorrer do longa, talvez uma contradição, que deixa Jean Charles interessantíssimo. Ao mesmo tempo em que há o galã de Mulher Invisível dominando o plano na maior parte do tempo, percebemos – graças a certas estratégias formais empregadas pelo diretor e também a maneira como ele nos mostra o entorno do personagem – que Jean é só mais um brasileiro, no meio de tantos outros. Mesmo que saibamos disso de antemão – conhecemos a história do jovem de Minas Gerais apenas em razão da sua morte absurda -, é importante que o filme consiga materializar, na tela, tal fato. Afinal, seria um pouco patético se nos fosse dado a ver apenas Selton Mello, tentando fingir ser um herói eletricista – lembremos de quão bobo parece Tom Cruise em muitos momentos de Operação Valquíria.
Ainda que aparentemente seja difícil desvincular o ator do personagem (o ritmo de fala seltonmelloniano está lá, a todo vapor) há algo de especial na caracterização de Mello, que nos faz acreditar naquela figura. O mérito é, sem dúvidas, muito do ator, entretanto, Goldman merece lá seu quinhão.
Não só pela óbvia questão da direção de atores, e sim por conseguir pinçar do cotidiano momentos que, ora beiram o vulgar, ora são singelos, mas que são absolutamente bonitos e que, nem sempre, acontecem com o protagonista. Isto reforça a idéia de que há vida ao redor de Jean e que ela pode ser tão interessante quanto a dele . A festa com as prostitutas na construção (principalmente o regozijo de Denilson, que, abraçado à duas prostitutas, fuma um charuto, dentro de uma banheira) é um bom exemplo do “quase vulgar”. A reação de Alex, solitário no plano, depois que leva uma bronca de Jean; O telefonema para a mãe, em que o protagonista tenta disfarçar o choro com um tom de voz diferente; A lagrima de um dos pedreiros, ao cobrar de Jean o passaporte prometido; A reação do galanteador ao tentar beijar, sem sucesso, Vivi; São todos exemplos da beleza que pode ser encontrada no banal.
Talvez esteja aí , aliás, e não na câmera na mão, na utilização de não atores etc, a força “documental” do filme. Saber olhar para tais momentos do dia a dia – encenados, é claro - é a grande marca do documentarista Goldman deixada na ficção Jean Charles.
Mesmo que o indefectível “baseado em fatos reais” esteja lá, materializado no plano e não sob uma tela preta, aqui, quem predomina, de qualquer forma, é a ficção. É o contar a história de alguém que deixou seu país e se fixou em uma terra estranha, para lá aprontar das suas, certamente com base no que aconteceu de verdade, interpretado por um rosto mais do que conhecido, que se esforça para fingir que é um “ex- caipira eletricista/trambiqueiro”, conseguir, e, ao mesmo tempo, encher de vida encenada os personagens ao redor deste cara, fazendo com que, curiosamente, as coisas pareçam mais reais e menos mitificadas, e, por consequência, fazendo com que nem importe tanto assim que a história tenha “acontecido de verdade”, mas sim, que ela seja bem contada, ou seja, que haja coisas bonitas entre o longo caminho do ponto de partida ao de chegada.
9 de julho de 2009
Jean Charles, de Henrique Goldman
por
Wellington Sari
às
00:37:00
Marcadores: Henrique Goldman
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