
O título já dava a entender, e o filme comprova que Balada da Cruz Machado segue uma certa linha recente no cinema paranaense, de se apoiar no texto de um escritor para versar sobre a cidade de Curitiba. Estevam Silveira, Pedro Merege e Beto Carminatti são alguns dos nomes que já seguiram essa linha, cujo exemplo mais recente é o longa Mistéryos. A diferença é que dessa vez estamos falando de um diretor de uma nova geração (Terence Keller) adaptando o texto de um escritor de uma nova geração (Rodrigo Madeira), e a impressionante fotografia de Alziro Barbosa de curtas como O Mistério da Japonesa e A Balada do Vampiro dessa vez dá lugar ao digital escancarado, opção que me parece bem mais interessante para retratar essa tal podridão noturna de Curitiba, tão comum entre autores locais.
A mistura entre ficção e documentário e o particular interesse do filme pela noite, pelo sexo e pelas drogas, fazem de Balada da Cruz Machado talvez o melhor curta desta nova safra exibida na Cinemateca nesses dois dias (não conto aqui com Osório, que já percorreu vários festivais e é do edital de 2005). Mas fica a questão: até que ponto vale a pena seguir essa “tradição” do cinema curitibano? Se dizem que ao se falar sobre sua terra, você consegue falar sobre o mundo, esses filmes onde o protagonista é um local, seja a cidade de Curitiba ou uma rua específica, se problematizam por se fecharem demais em si mesmos, e possivelmente não façam muito sentido exibidos em outros lugares.
Curitiba em Quatro Estações, de Bernardo Rocha, segue um tipo de cinema que ficou famoso com Koyaanisqatsi. Imagens da cidade de Curitiba passeiam pela tela, às vezes de forma aleatória, numa montagem padrão ritmada pela trilha sonora. O resultado final é uma busca vazia por imagens belas, que parece mais um videoclipe institucional da prefeitura.
Osório, de Heloísa Passos e Tina Hardy, é essencialmente um filme de observação, tanto em sua parte ficcional como em documentar momentos de uma noite na praça que dá título ao curta. No início, temos o cotidiano solitário de uma mulher que vive em frente a essa praça, logo depois somos jogados em imagens da praça captadas do alto de um prédio (seria o prédio daquela mulher?), onde a câmera procura sempre isolar os personagens em seus planos. Apenas uma vez se vê mais de uma pessoa em quadro, alguns homens jogando cartas, mas nesse momento parece que há um interesse maior pelo baralho do que pelas pessoas em si. Com um excepcional trabalho na mixagem e edição de som, o curta talvez só peque em ser aberto demais, e uma sensação final de "é só isso?". Mas há um clima aqui, uma vontade/necessidade de ser/pensar cinema.
25 de maio de 2009
Balada da Cruz Machado / Curitiba em Quatro Estações / Osório
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