6 de novembro de 2009

Uma Pincelada sobre Argento

Jean Douchet falava em uma crítica atenta às questões de “dramaturgia plástica do cinema”, em oposição à “dramaturgia literária do cinema”. Qualquer filme de Dario Argento parece um convite à aplicação primeiro módulo. Ver seus longas-metragens e querer enxergar apenas personagens, tramas, motivações psicológicas, enfim, tudo aquilo tomado da literatura e utilizado para se analisar cinema – processo este que pode se dar tanto na academia quanto na conversa de boteco, passando pelos cadernos culturais dos jornais – é frustrante. Algo lógico, afinal, em Argento não existem personagens, mas figuras; pontos de partida, ao invés de tramas; movimentos necessários, no lugar de motivações psicológicas.

Ainda que pessoas habitem a filmografia do italiano e histórias sejam narradas, o ser humano e suas ações sobre o mundo estão longe de estarem sob o foco do autor. O interesse pelos aspectos plásticos está acima de tudo – o diretor é a antítese plena do humanismo.

Talvez, só não esteja acima da vontade de causar, no espectador, algumas “emoções baratas” – medo, excitação, repulsa: aí está um dos motivos para que sua arte não seja estéril (as palavras “emoções baratas” e “arte” não costumam ser associadas, o que pode ser um grande equívoco...).

Encontra-se em Tenebre, lançado em 1982, a seqüência que é a metáfora para o cinema de interesses plásticos de Argento. Vemos o susto, o terror. O assassino ataca a vítima. O “sangue” – entre aspas, porque na obra dele o sangue é antes cor do que o resultado de um ferimento grave – esguicha na parede branca. Mas, para além da violência, o que se vê é um cuidadoso trabalho com contrastes de cor.

Ali está o pintor com a tinta, o cavalete e a tela.















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A foto no topo do post também foi retirada de Tenebre.