2 de novembro de 2009

Anticristo, de Lars Von Trier


A imagem predominantemente nublada – cor de chumbo/recorrente uso de lentes de distância focal longa – em Anticristo funciona, a bem da verdade, como o oposto do que o uso metafórico da palavra “nublado” poderia sugerir: ela tudo revela. Não necessariamente a natureza de determinada coisa. Talvez uma ou outra alegoria seja menos “decifrável” – o veado com o filhote morto. O que as imagens explicitam são as intenções da própria obra, algo que só não é prejudicial em um pornô, em que as figuras em movimento são meramente funcionais.

A cena inicial, por exemplo, com fotografia em preto e branco e super-slow, é como a nudez em um exploitation: existe para cumprir as obrigações de um gênero (que, no caso de Anticristo, é o “filme de arte”). Evidentemente, a grande diferença está no fato de que enquanto lá tudo se opera às claras – já se sabe de antemão que seios aparecerão na tela – aqui, pretensamente, se dá de forma velada, escondido sob o véu da “poesia”. Fale-se muito em publicidade no cinema, pejorativamente. Mas nem sempre se aponta concretamente sua presença. O prólogo está aí, para dar uma ajuda à crítica em geral.

A ênfase da seqüência é a mesma de propagandas da Nike ou Reebok. A mise en scène (no sentido mais primário mesmo, do “por em cena”) é milimetricamente organizada, com objetos posicionados de maneira que denotam a obsessiva busca pela perfeição técnica encontrada nos comerciais - as estátuas, o plano detalhe do ursinho, a neve no cabelo do menino etc. Assim como em certas empresas, o cineasta não está nos vendendo descaradamente o produto, mas uma idéia que remeterá a este produto. Aqui tudo – música, fotografia, direção de arte –, com a pouca sutileza típica da publicidade, serve para nos vender o conceito de “filme de arte”. Um programa humorístico que desejasse parodiar um anúncio de uma fábrica de telas de segurança para janelas, poderia fazê-lo utilizando os mesmos recursos empregados por Von Trier, tamanho o caráter exageradamente “poético” das imagens (na caricatura e na paródia, como é sabido, busca-se a exacerbação dos traços característicos).

Ainda que parte dos capítulos finais de Anticristo se passe na floresta coberta de névoa, o que se tem, outra vez, são diversos simbolismos pobres, porque muito evidentes, como o “corte do clitóris”, que pretendem sustentar as questões pseudo-psicanalíticas do longa-metragem.

A imagem, para o diretor, desnuda de qualquer mistério, está quase sempre em função de algo. Quer, muitas vezes, remeter a determinada coisa que não ela mesma. Parecemos estar diante não de um filme, mas de uma ilustração destinada a ser usada em alguma aula sobre a mais antiquada semiologia metziana.