Apesar de servir como “tema” principal do longa-metragem, o passado nunca chega a ser um peso em O segredo dos seus olhos. Tanto no sentido Histórico (o cenário político argentino pré-ditadura militar serve apenas para deixar o vilão mais detestável) quanto àquele ligado aos mistérios do caso envolvendo o assassinato brutal de uma jovem, investigado por Esposito (Ricardo Darín) que, teoricamente, continuam a assombrar o homem, vinte e cinco anos depois. Ainda que a segunda cena nos mostre o protagonista filmado em scope, ocupando o canto do quadro, que é repleto de áreas sombrias, tentando escrever em uma caderneta, cujas folhas são transformadas em bolinhas a cada tentativa fracassada de reconstrução do acontecido (o poder de comunicabilidade desta imagem é inegável; seu constante emprego, principalmente no cinema, mas não só, faz com que rapidamente a “decifremos”: escrever é um ato doloroso; temos aqui um herói, a estripar a alma e o coração em busca da verdade – ou algo do tipo), serão raros os momentos em Campanella nos dará a chance de ver os efeitos provocados pelos espectros em Esposito – ou, mais: experimentar os mesmos sentimentos de Esposito, algo que certamente se poderia esperar deste tipo de cinema.
O roteiro até prevê tal tipo de situação, como na sequência de flashback em que o investigador se depara com o corpo da vitima ensangüentado e estuprado. No entanto, essa imagem, que duas décadas e meia depois, permanece impregnada na retina do agora aposentado agente federal, deveria, suponho, ser digna de causar perturbação, de se configurar em um fardo do qual o herói não pôde se livrar durante aquele ponto da vida em diante. Mas, o que observamos na tela é um arranjo plasticamente impecável: o corpo alvo da belíssima vítima, seios à mostra, púbis estrategicamente escondida pelo joelho levantado, um dos braços graciosamente dobrados para trás, com o pulso servindo de apoio para cabeça e a palma da mão dramaticamente semi-aberta, banhada pelo providencial raio de sol que irrompe através da janela. Uma imagem quase agradável, digna de um dos episódios de Law and order – Special victims unit comandados pelo diretor (seria sobre isso O segredo dos seus olhos, então? Sobre a capacidade sedutora da imagem violenta, do sadismo, portanto? Definitivamente, não).
Mesmo que, repito, o roteiro indique que Esposito teve sua existência modificada depois de presenciar tamanho horror - a cena seguinte mostra o personagem em postura introspectiva, para que não reste qualquer dúvida ao espectador– as palavras do papel (o roteiro é quase sempre o ontem que age, de alguma maneira, sobre o eterno presente que é a imagem de cinema) não se transformam em material incômodo a ser captado pela câmera. Tudo é muito fácil e tranquilo, como o fade out que nos transporta serena e rapidamente da sequência em que o melhor amigo do protagonista é mostrado estirado na cama, o corpo perfurado de balas, para outra, muito mais confortável, já distante temporalmente (mas ainda situada no passado) da tristeza da perda do companheiro de trabalho, em que Esposito está acompanhado de Irene (Soledad Villamil), seu “interesse romântico”. Sair do que poderia perturbar e chegar logo ao que é mais palatável parece uma operação constante (e que se mostrou comercialmente bem sucedida) em O segredo dos seus olhos. Uma pena já que, como sabemos todos, muito açúcar dá dor de barriga.

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