18 de maio de 2010

O poder da traição, de Atom Egoyan


Como quase toda vilã dos thrillers eróticos, Chloe é imaterial. A natureza da personagem está ligada ao mito, que tem como meta cumprir um objetivo específico, traçado de antemão, em um tempo outro, anterior não só ao filme, mas ao próprio cinema. O que diferencia a personagem de Amanda Seyfried de boa parte de suas semelhantes é a auto-consciência (algo que se pode dizer da obra mesma): em off, a jovem explica que pode ser tudo aquilo que os clientes quiserem, da “filha” à “professora de matemática”. Estamos falando, é claro, de fantasias sexuais. De projeções, portanto. A personagem, uma prostituta de luxo, sabe o que é e para quê serve.

A busca desesperada de uma mulher por algo concreto a se apegar é o assunto principal de O poder da traição. Chloe, cuja profissão lhe exige que seja boa com palavras (o melhor do filme vem justamente dos momentos em que ficamos privados de imagens e somos conduzidos apenas pelos relatos orais da moça), com as mãos (outros pequenos prazeres surgem da maneira como o cineasta amplifica os menores gestos da atriz, como quando durante a narração de um encontro com o marido de Juliane Moore, a “heroína” do longa-metragem, Chloe passa discretamente uma das mãos no nariz, logo após ter dito “então ele gozou na minha mão”) faz uso destes atributos para tentar persuadir a pacata mãe de família a se tornar algo que lhe seja mais do que uma idéia, ou uma fantasia sexual.

Ainda que fique evidente a intenção de Egoyan em fazer o público se deparar com os limites da perversão no campo do sexo, parece mais possível experimentar este sentimento quando se nota o paradoxo de Chloe: um mito que, consequentemente, carrega uma série de pré-conceitos e remete a mil e um personagens do cinema (a de Glen Close em Atração fatal, para citar somente um exemplo), sem um passado diegético que é, ao mesmo tempo, bastante humano. Novamente, são os pequenos gestos que conferem a jovem um aspecto comum, “mundano” (não no sentido do pecado, claro). Um deles, não tão pequeno assim, é o desolado olhar de Chloe para câmera, depois de ter sido rejeitada por seu objeto de desejo. Temos ali não a aparição, a vilã, a destruidora de lares, a femme fatale, mas a pobre garota que acaba de levar um fora do namorado(a) – e que já pensa na vingança, obviamente. Quem nunca viu, ou foi, uma dessas?

Quando Chloe despenca para morte, leve como a névoa se dissipando, indo embora do mesmo modo como surgiu, é que percebemos: talvez, O preço da traição seja mesmo sobre o quão perverso é viver em um mundo onde se termina um namoro pela web cam, onde o amor concreto, enfim, não é uma possibilidade.