9 de julho de 2010

Shrek para sempre, de Mike Mitchell


É bastante chocante perceber que as imperfeições e defeitos da pele de Shrek, quando vistas em close, são mais verossímeis que as da minha vó. O padrão de qualidade da animação norte-americana atual parece exigir essa mimetização plena do corpo-humano, o que resulta em personagens até caricatos (no sentido do aumento de certas partes do corpo, como a cabeça ou as mãos, buscando efeito cômico), mas que atuam e se movem exatamente como gente de verdade. Ou, melhor, bonecos que imitam gente de verdade. Mesmo que estes sejam gatos, burros ou biscoitos. Este progressivo antropormofismo hiper-realista nos proporcionará animações que, de tão “reais”, parecerão filmes live action?
É evidente que chamar Shrek para sempre de hiper-realista é um tremendo exagero. O faço apenas para sublinhar um ponto que considero bastante incômodo, por parecer muito mais uma estratégia mercadológica do que estética (dar aos bonequinhos aparência um pouco mais real, para o papai não se sentir tão boboca, no caso da Dreamworks e dar aos bonequinhos que vivem narrativas “tocantes” e superficialmente “sérias” aparência um pouco mais real, para o papai não se sentir tão boboca e ainda ter a sensação de que, no fundo, viu uma obra de temática adulta, no caso da Pixar). Não se trata aqui de defender uma suposta especificidade do cinema de animação - que devesse, portanto, empregar todo tipo de recurso que fosse só possível no desenho animado – em troca do cuidado extremo com que os animadores destes dois estúdios (mas não só) dispensam às texturas dos cabelos, dos pêlos e da pele dos personagens. Não.
A questão é: será que, mesmo dentro dos limites comerciais, não é possível um caminho alternativo (que seja também diferente do ocasional stop motion de Tim Burton e Wes Anderson)? Basta à animação mainstream se fiar ao “realismo” e em dubladores famosos (Dreamworks), nas narrativas exemplares – a eterna citação por parte dos entusiastas à sequência da passagem dos anos do casal em Up – Altas aventuras – e na dramaturgia tão bem manejada (Pixar)?
Ao final das contas, Shrek para sempre, em sua picaretagem digna da atual Marvel Comics de Joe Quesada (universo paralelo, passado apagado por mágica), pelo menos tem uma piada engraçadíssima. Mas só isso. Sério.