O início do novo filme do diretor de Jhonny e June é como uma paródia da primeira cena de Colateral: vemos Tom Cruise em um aeroporto, prestes a esbarrar em alguém e neste gesto realizar uma troca. Em Encontro explosivo, durante a espera para encontrar a pessoa que receberá o esbarrão, o personagem chupa um sorvete de chocolate e brinca no fliperama (evidentemente, um game de tiro, uma vez que atirar em pessoas é sua principal atividade, como descobriremos em seguida). O matador, portanto, se diverte.
A idéia principal de Mangold é essa: fazer um filme de matador profissional com diversão e romance (ação! risos! beijos! Tem de tudo no pacote). Com tal afirmação não surpreendo ninguém, uma vez que a proposta já está clara no trailer. No entanto, a maneira como isso se dá nem sempre está ligada puramente ao conteúdo – logo, nem sempre é tão óbvia -, como na piadinha do sorvete, mas também por meio da revelação das estruturas da própria obra. Antigamente se diria que Encontro explosivo é opaco, ou autoconsciente. Podemos simplificar e apenas escrever que o longa-metragem brinca com as convenções do thriller. Algumas vezes de maneira brilhante, como na cena em que Cruise e Cameron Diaz são cercados por inimigos. Em qualquer thriller sério veríamos o calvário do herói no cativeiro. Em seguida, presenciaríamos sua astúcia em enganar os raptores e escapar. Depois, observaríamos o mocinho despistar alguns bandidos e encontrar um esconderijo.
Cruise e Cameron passam por essa aventura. A diferença é que tudo não dura mais de um minuto. O homem droga a companheira segundos antes de os vilões os encontrarem, e o que vemos na tela é pelo ponto de vista da mulher, que abre o olho (fade in) e enxerga Cruise balançando amarrado de ponta cabeça e sem camisa, em um lugar sujo (fade out); abre o olho outra vez e os dois estão em um avião – o matador pronto para saltar de pára-quedas – fecha o olho; abre o olho e os dois estão em uma ilha tropical. Ela veste um biquíni vermelho. Pronto. Deixa-se somente o essencial para que a trama avance (a sina destes filmes é a do ônibus de Velocidade máxima: é preciso sempre ir para frente e rápido, senão explode), ao mesmo tempo em que tal estratégia é explicitada.
Difícil é não sentir frustração à medida que Encontro explosivo se aproxima do final. Gradativamente o longa deixa de brincar com as convenções e passa a temê-las e respeitá-las, como fazem os vilões – ou as mocinhas, veladamente ou não - diante dos heróis, em thrillers sérios ou comédias românticas.

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