23 de julho de 2010

Stage frigth, de Michel Soavi

















Perfeita ilustração de Soavi para a idéia de que (no melhor do) cinema de horror italiano os personagens não sangram, mas colorem.

17 de julho de 2010

Encontro explosivo, de James Mangold


O início do novo filme do diretor de Jhonny e June é como uma paródia da primeira cena de Colateral: vemos Tom Cruise em um aeroporto, prestes a esbarrar em alguém e neste gesto realizar uma troca. Em Encontro explosivo, durante a espera para encontrar a pessoa que receberá o esbarrão, o personagem chupa um sorvete de chocolate e brinca no fliperama (evidentemente, um game de tiro, uma vez que atirar em pessoas é sua principal atividade, como descobriremos em seguida). O matador, portanto, se diverte.
A idéia principal de Mangold é essa: fazer um filme de matador profissional com diversão e romance (ação! risos! beijos! Tem de tudo no pacote). Com tal afirmação não surpreendo ninguém, uma vez que a proposta já está clara no trailer. No entanto, a maneira como isso se dá nem sempre está ligada puramente ao conteúdo – logo, nem sempre é tão óbvia -, como na piadinha do sorvete, mas também por meio da revelação das estruturas da própria obra. Antigamente se diria que Encontro explosivo é opaco, ou autoconsciente. Podemos simplificar e apenas escrever que o longa-metragem brinca com as convenções do thriller. Algumas vezes de maneira brilhante, como na cena em que Cruise e Cameron Diaz são cercados por inimigos. Em qualquer thriller sério veríamos o calvário do herói no cativeiro. Em seguida, presenciaríamos sua astúcia em enganar os raptores e escapar. Depois, observaríamos o mocinho despistar alguns bandidos e encontrar um esconderijo.
Cruise e Cameron passam por essa aventura. A diferença é que tudo não dura mais de um minuto. O homem droga a companheira segundos antes de os vilões os encontrarem, e o que vemos na tela é pelo ponto de vista da mulher, que abre o olho (fade in) e enxerga Cruise balançando amarrado de ponta cabeça e sem camisa, em um lugar sujo (fade out); abre o olho outra vez e os dois estão em um avião – o matador pronto para saltar de pára-quedas – fecha o olho; abre o olho e os dois estão em uma ilha tropical. Ela veste um biquíni vermelho. Pronto. Deixa-se somente o essencial para que a trama avance (a sina destes filmes é a do ônibus de Velocidade máxima: é preciso sempre ir para frente e rápido, senão explode), ao mesmo tempo em que tal estratégia é explicitada.
Difícil é não sentir frustração à medida que Encontro explosivo se aproxima do final. Gradativamente o longa deixa de brincar com as convenções e passa a temê-las e respeitá-las, como fazem os vilões – ou as mocinhas, veladamente ou não - diante dos heróis, em thrillers sérios ou comédias românticas.

9 de julho de 2010

Shrek para sempre, de Mike Mitchell


É bastante chocante perceber que as imperfeições e defeitos da pele de Shrek, quando vistas em close, são mais verossímeis que as da minha vó. O padrão de qualidade da animação norte-americana atual parece exigir essa mimetização plena do corpo-humano, o que resulta em personagens até caricatos (no sentido do aumento de certas partes do corpo, como a cabeça ou as mãos, buscando efeito cômico), mas que atuam e se movem exatamente como gente de verdade. Ou, melhor, bonecos que imitam gente de verdade. Mesmo que estes sejam gatos, burros ou biscoitos. Este progressivo antropormofismo hiper-realista nos proporcionará animações que, de tão “reais”, parecerão filmes live action?
É evidente que chamar Shrek para sempre de hiper-realista é um tremendo exagero. O faço apenas para sublinhar um ponto que considero bastante incômodo, por parecer muito mais uma estratégia mercadológica do que estética (dar aos bonequinhos aparência um pouco mais real, para o papai não se sentir tão boboca, no caso da Dreamworks e dar aos bonequinhos que vivem narrativas “tocantes” e superficialmente “sérias” aparência um pouco mais real, para o papai não se sentir tão boboca e ainda ter a sensação de que, no fundo, viu uma obra de temática adulta, no caso da Pixar). Não se trata aqui de defender uma suposta especificidade do cinema de animação - que devesse, portanto, empregar todo tipo de recurso que fosse só possível no desenho animado – em troca do cuidado extremo com que os animadores destes dois estúdios (mas não só) dispensam às texturas dos cabelos, dos pêlos e da pele dos personagens. Não.
A questão é: será que, mesmo dentro dos limites comerciais, não é possível um caminho alternativo (que seja também diferente do ocasional stop motion de Tim Burton e Wes Anderson)? Basta à animação mainstream se fiar ao “realismo” e em dubladores famosos (Dreamworks), nas narrativas exemplares – a eterna citação por parte dos entusiastas à sequência da passagem dos anos do casal em Up – Altas aventuras – e na dramaturgia tão bem manejada (Pixar)?
Ao final das contas, Shrek para sempre, em sua picaretagem digna da atual Marvel Comics de Joe Quesada (universo paralelo, passado apagado por mágica), pelo menos tem uma piada engraçadíssima. Mas só isso. Sério.