Após alguns dias sem nenhum texto novo no blog, voltamos com um texto triplo (feito pelos três colaboradores) com a cobertura do que de melhor/pior aconteceu no VPutz - Festival Universitário de Cinema e Vídeo de Curitiba.
Pipa, de Leonardo Bello [Ficção]
Ao fim da sessão, um amigo muito bem classificou esse Pipa como o chamado “curta portfólio”. “Curta portfólio” seria aquele trabalho feito na faculdade com a intenção de provar a qualidade profissional de um diretor e sua equipe. De fato, é um curta todo muito bem realizado tecnicamente, a fotografia especialmente chama a atenção. Com a grande angular que permeia todo o curta Leonardo Bello lança um interessante olhar sobre a favela, e o roteiro correto rapidamente constrói os dramas de cada personagem para que se chegue ao clímax final. Durante os créditos finais, porém, fica a sensação de que o adjetivo que melhor pode classificar esse curta-metragem é correto. Bem feito, bem realizado, mas sem nenhum algo a mais que possa fazer ele realmente se destacar na atual produção brasileira (não apenas universitária) de curtas. O merecido 2° lugar em Ficção mostra que sim, este é um trabalho de cunho profissional, que tem chances de ir além de apenas festivais universitários. Mas também não muito além.
Este sucesso do Youtube chegou com pampa de favorito na categoria Trash do festival, pelo menos no que condiz com a reação do público presente. Acabou com um mero 3° lugar. As semelhanças com No Dia da Dança das Canetas, vencedor dessa categoria do ano passado, são claras: os dois são trailers, falados em inglês, e tem a sacada do presidente com a voz do Lula. Estas semelhanças demonstram que, apesar de a principio parecer muito original, A Morte dos Lactobacilos Vivos trabalha com alguns clichês já muito presentes, especialmente em vídeos engraçados de sucesso da Internet. Mas esse uso de clichês em nada diminui a eficiência deste engraçadíssimo filme protagonizado por yakults, cujo sucesso no Youtube é mais que merecido. Que os lactobacilos nunca morram!Como fazer um curta-metragem experimental, cult e pseudo-intelectual, de Vitor Alli [Trash]
“1, 2, 3, 4, pronto, agora pode sacudir”. Divertido e interessante, o vencedor da categoria Trash brinca com alguns clichês de filmes experimentais picaretas ao fazer este guia para a realização de um curta experimental, cult e pseudo-intelectual. Vitor Alli, que cursa Rádio e Tv (e isso talvez diga alguma coisa sobre este seu trabalho), deixa claro que sua crítica bem-humorada não é uma tese contra o cinema experimental, mas sim um simples comentário contra pessoas “cineastas” que fazem nada mais do que picaretagens na frente de um programa de edição no computador e, pior, chamam o que fazem de "arte". De minha parte, também nada contra cinema experimental, mas há gênios e picaretas, como em tudo no mundo. Quanto a trabalhos universitários, levando em conta, por exemplo, alguns dos próprios curtas exibidos no Putz na categoria Experimental, prefiro ficar com os Trashs criativos, como esse filme de Vitor Alli, que tem seus momentos geniais, a citação do começo desse texto, o uso da música Umbrella na trilha, e as imagens dentro de carros são alguns exemplos.
Christopher Faust
Paranóia do Negão, de Armando Fonseca [Trash] - link Youtube
Utilizando a voz em off de maneira inusitada (o narrador/personagem conversa literalmente consigo mesmo, no melhor estilo “conflito de consciência), cujo conteúdo foi claramente criado à partir do improviso, o curta-metragem de Armando Fonseca foi um dos filmes mais criativos da categoria trash.
Paranóia do Negão é um filme que, segundo o autor, nasceu como uma narrativa contada apenas por meio das imagens. Felizmente esta idéia não foi levada adiante. A decisão de acrescentar a voz em off foi uma escolha bastante acertada, pois, é na palavra (e, principalmente, na entonação em que ela é pronunciada) onde está situado praticamente todo o potencial cômico do curta. Tal como em um Hiroshima Meu Amor, um Ilha das Flores ou um Annie Hall, Fonseca consegue fazer de Paranóia do Negão um filme em que as palavras tanto não sufocam a imagem quanto não a redundam.
Além disso, o filme tem um dos inserts mais geniais de todos os tempos.

Rua Javari, de Rodrigo Fonseca [Ficção]
Em um texto publicado na revista Arts, em 1955, François Truffaut elege os sete pecados capitais cometidos pela crítica cinematográfica. Um deles é o “professoralismo”, ou seja, é o crítico dizer como tal filme deveria ser.
Talvez, ao se escrever sobre Rua Javari, seja preciso um grande esforço para não pecar.
No primeiro ato do filme vemos uma história bastante comum (nos dois sentidos): o pai que doutrina o filho a torcer por um time – o Juventus, no caso. Todo o processo aí é mostrado: A ida ao estádio, a compra da camiseta do clube etc. Chega-se então ao segundo ato e, junto com ele, uma surpresa: o ator que interpreta o filho, agora um adolescente, exibe alguns trejeitos algumas vezes associados aos gays.
À partir daí uma ambigüidade bastante interessante instala-se sobre o filme. O filho troca de time (começa a torcer pelo Corinthians) e isso tanto pode significar que agora ele não torce mais para o Juventus quanto que ele “trocou de time” no sentido figurado, o que para o pai “tradicional” da história é uma tragédia.
A analogia entre as duas mudanças de time é ao mesmo tempo óbvia e original (os processos entre pais e filhos que envolvem o ritual de iniciação futebolística e a iniciação heterossexual são muito parecidos). O problema é que não há como saber se tal estratégia foi utilizada intencionalmente por Fonseca ou foi apenas um mal entendido. Como no terceiro ato não há nada que indique a homossexualidade do filho, a impressão que fica é que de fato toda esta ambigüidade não foi intencional (é claro, Fonseca pode ter escolhido mantê-la sub-repticiamente no filme, mas, sinceramente, não parece ter sido este o caso).
Wellington Sari
Um grande Engano no V Putz 
A técnica vence em ficção. No V Putz, na categoria ficção quem levou a melhor foi a técnica. Para aqueles que possuem um conhecimento de cinema, um dos maiores Enganos que alguem pode cometer é se deixar levar por peripécias de competência técnica. No meio de 93 inscritos, somente na categoria ficção, é praticamente inimaginável um Engano como esse. Mas vamos aos fatos.
Quinta-feira (29/05/2008) dentre tantos filmes, passou um chamado Engano, de Cavi Borges. A primeira vista pareceu interessante, um filme em que ocorre um diálogo, após um rapaz ligar por engano para uma garota. A conversa começa a fluir e eles acham coisas em comum, porém você só sabe da versão do rapaz, pois apenas a voz dele é ouvida pelo espectador. A garota passa o filme completamente muda. A bateria do celular do rapaz acaba e eles não conseguem se encontrar. Legal. Um bom filme. Ao final das exibições, é avisado ao público que a cópia do filme estava com problema e não foi possível ouvir o áudio da moça.
No dia seguinte, ocorre a exibição com o áudio completo. Engano se apresenta completamente sem graça. O rapaz e a moça conversam e andam. Tudo em plano sequência. A voz dela é nitidamente dublada em estúdio, pois não há ambiência em sua voz. Graças a esse pequeno detalhe técnico, todos se decepcionam com o filme que tinha agradado a muitos no dia anterior.

A técnica vence em ficção. No V Putz, na categoria ficção quem levou a melhor foi a técnica. Para aqueles que possuem um conhecimento de cinema, um dos maiores Enganos que alguem pode cometer é se deixar levar por peripécias de competência técnica. No meio de 93 inscritos, somente na categoria ficção, é praticamente inimaginável um Engano como esse. Mas vamos aos fatos.
Quinta-feira (29/05/2008) dentre tantos filmes, passou um chamado Engano, de Cavi Borges. A primeira vista pareceu interessante, um filme em que ocorre um diálogo, após um rapaz ligar por engano para uma garota. A conversa começa a fluir e eles acham coisas em comum, porém você só sabe da versão do rapaz, pois apenas a voz dele é ouvida pelo espectador. A garota passa o filme completamente muda. A bateria do celular do rapaz acaba e eles não conseguem se encontrar. Legal. Um bom filme. Ao final das exibições, é avisado ao público que a cópia do filme estava com problema e não foi possível ouvir o áudio da moça.
No dia seguinte, ocorre a exibição com o áudio completo. Engano se apresenta completamente sem graça. O rapaz e a moça conversam e andam. Tudo em plano sequência. A voz dela é nitidamente dublada em estúdio, pois não há ambiência em sua voz. Graças a esse pequeno detalhe técnico, todos se decepcionam com o filme que tinha agradado a muitos no dia anterior.
Mas o maior Engano não foi o áudio, e sim a premiação do primeiro lugar, justamente para esse Engano. Um filme com dois planos sequência de 10' ocorrendo simultâneamente, com uma atuação pouco convincente, com um roteiro que ao final se mostra insustentável, uma direção de fotografia/operação de câmera pouco narrativa, e muitas vezes dispersiva, e que traz de surpreendente o arrojo técnico, teria algum mérito para sair vencedor? Até mesmo porque, numa terra distante daqui já fizeram plano sequência de 90', ou seja, como é possível se deixar vislumbrar com algo meramente técnico. Mas, no V Putz, fica claro que muitos se Engaram por um mero artifício técnico. Terrível Engano que gerou o único coro de vaias de todo o festival.
Antônio Junior
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