19 de junho de 2008

Cortina Rasgada, de Alfred Hitchcock


Sai-se geralmente muito feliz dos filmes de Hitchcock. Mas, definitivamente, Cortina Rasgada não causa esse tipo de sentimento. Há nesse filme todo um clima de incompletude e melancolia, estranhos à filmografia do cineasta inglês (em Marnie, os primeiros resquícios deste tom já apareciam, mas, felizmente, nunca se concretizavam).

Sem dúvidas, os diversos problemas enfrentados por Hitchcock, desde que o projeto estava nascendo até quando estava quase concluído influenciaram o resultado final: tanto seu montador quanto seu fotógrafo de muitos anos haviam morrido; O roteiro e a escalação de Paul Newman para viver o protagonista, não o agradavam. Além disso, o cineasta havia despedido Bernard Herrman por achar que a música composta por ele era sombria demais. Também não há dúvidas de que saber destes detalhes influenciam a maneira como se recebe o filme.

É possível então que eu só tenha sentido esse “clima de incompetude e melancolia” por conhecer os problemas enfrentados por Hitchcock (caminho para uma análise cognitiva do filme, algo que, sinceramente, não me agrada). Porém, considerando o que está na tela, é inegável que este é um mau filme (mas ainda não chega a ser um Topázio, que infelizmente é terrível).

O problema (?) - aqui onde eu queria chegar - é que Cortina Rasgada é um Hitchcock. E, por mais inocente e romântica que a teoria do autor possa parecer hoje em dia, não há com negar: não existe, de fato, um mau Hitchcock.

Mesmo que o filme como um todo seja fraco, há diversas cenas ou até seqüências inteiras que funcionam por elas mesmas, que são puro deleite visual e que quase não dependem das cenas ou seqüências anteriores para serem compreendidas (esta uma grande característica do cinema de Hitchcock, aliás). Como exemplo podemos citar a seqüência de abertura, tipicamente hitchcockiana, em que o público é rapidamente informado, por meio da decupagem e da montagem de atrações, em que o choque de um plano com outro cria um terceiro sentido (Eisenstein, vocês sabem), o local em que estão e condição dos protagonistas.

Há ainda uma cena em que Newman e Julie Andrews “discutem a relação” cuja mise en scène é curiosamente ligada aos paradigmas do cinema moderno (Cortina Rasgada é de 1966): em plano-sequência, a câmera distanciada da ação procura desdramatizar o acontecimento, além de colocar o espectador na condição de um simples observador, incapaz de se identificar com nenhum dos dois personagens (portanto Hitchcock rompe aqui com a dita decupagem clássica, que busca, entre outras coisas, a identificação psicológica do receptor com os personagens por meio da montagem invisível e do close-up, por exemplo).

Mas, é claro, o que há de mais famoso em Cortina Rasgada é a cena em que Newman mata um vilão, quando o diretor inglês nos mostra como é difícil cometer um assassinato. A escalação de Newman que de fato no geral parece equivocada, aqui é definitivamente o motor da cena. Ele é quem faz se evidenciar toda a brutalidade da luta entre os personagens, de uma forma que seria impossível imaginar em outros filmes de Hitchcock.

Curiosamente, assistir Cortina Rasgada me fez pensar em Fim dos Tempos, que também é um filme fraco de um grande diretor. No longa de Shyamalan também é possível encontrar em pequenas seqüências que brilham por elas mesmas, quase independentes do todo, como a que se passa na cabana, na casa da “velha louca” e na que mostra com um traveleing o suicídio de três pessoas (fatos muito bem evidenciados no texto de Christopher Faust sobre o filme). Ou seja, um mau Hitchcock e um mau Shyamalan, valem muito mais do que, sei lá, um excelente (se é que isso é possível) Iñárritu.