25 de maio de 2009

Balada da Cruz Machado / Curitiba em Quatro Estações / Osório



O título já dava a entender, e o filme comprova que Balada da Cruz Machado segue uma certa linha recente no cinema paranaense, de se apoiar no texto de um escritor para versar sobre a cidade de Curitiba. Estevam Silveira, Pedro Merege e Beto Carminatti são alguns dos nomes que já seguiram essa linha, cujo exemplo mais recente é o longa Mistéryos. A diferença é que dessa vez estamos falando de um diretor de uma nova geração (Terence Keller) adaptando o texto de um escritor de uma nova geração (Rodrigo Madeira), e a impressionante fotografia de Alziro Barbosa de curtas como O Mistério da Japonesa e A Balada do Vampiro dessa vez dá lugar ao digital escancarado, opção que me parece bem mais interessante para retratar essa tal podridão noturna de Curitiba, tão comum entre autores locais.

A mistura entre ficção e documentário e o particular interesse do filme pela noite, pelo sexo e pelas drogas, fazem de Balada da Cruz Machado talvez o melhor curta desta nova safra exibida na Cinemateca nesses dois dias (não conto aqui com Osório, que já percorreu vários festivais e é do edital de 2005). Mas fica a questão: até que ponto vale a pena seguir essa “tradição” do cinema curitibano? Se dizem que ao se falar sobre sua terra, você consegue falar sobre o mundo, esses filmes onde o protagonista é um local, seja a cidade de Curitiba ou uma rua específica, se problematizam por se fecharem demais em si mesmos, e possivelmente não façam muito sentido exibidos em outros lugares.

Curitiba em Quatro Estações, de Bernardo Rocha, segue um tipo de cinema que ficou famoso com Koyaanisqatsi. Imagens da cidade de Curitiba passeiam pela tela, às vezes de forma aleatória, numa montagem padrão ritmada pela trilha sonora. O resultado final é uma busca vazia por imagens belas, que parece mais um videoclipe institucional da prefeitura.

Osório, de Heloísa Passos e Tina Hardy, é essencialmente um filme de observação, tanto em sua parte ficcional como em documentar momentos de uma noite na praça que dá título ao curta. No início, temos o cotidiano solitário de uma mulher que vive em frente a essa praça, logo depois somos jogados em imagens da praça captadas do alto de um prédio (seria o prédio daquela mulher?), onde a câmera procura sempre isolar os personagens em seus planos. Apenas uma vez se vê mais de uma pessoa em quadro, alguns homens jogando cartas, mas nesse momento parece que há um interesse maior pelo baralho do que pelas pessoas em si. Com um excepcional trabalho na mixagem e edição de som, o curta talvez só peque em ser aberto demais, e uma sensação final de "é só isso?". Mas há um clima aqui, uma vontade/necessidade de ser/pensar cinema.

22 de maio de 2009

Caleidoscópio / Sob a Luz da Vela / Parasara


Foram exibidos ontem, na Cinemateca de Curitiba, três curtas-metragens contemplados pelo Edital Filme Digital, de 2007. Seguem algumas impressões.

Dois filmes com temática parecida – o mundo “mágico” das crianças – e uma animação em rotoscopia a la Waking Life e O Homem Duplo. É difícil não pensar nestes curtas sem relacionar os primeiros de um lado e o último em outro. Não só pelos motivos óbvios – as diferenças no conteúdo e na forma -, mas pelos resultados alcançados.

Caleidoscópio, de Gustavo Ribas e Murilo Wesolowicz e Sob a Luz da Vela, de Karina de Souza, já de início evidenciam que o mundo do qual habitam seus personagens mirins não é o “real”. O primeiro por meio do uso de “efeitos cênicos” - fumaça de gelo seco imitando neblina, bolhas de sabão - e o segundo apoiado na voz em off. A música, nesse sentido, também desempenha um papel importante - ambos parecem adorar cellos e xilofones.

O curta de Ribas e Wesolowicz até consegue, nos primeiros minutos, ser bem sucedido na proposta de nos fazer adentrar no universo da imaginação - algo fundamental para que virada do roteiro, ao final, cause alguma surpresa. O problema é que, a partir do momento em que os personagens começam a falar, a direção de atores se mostra deficiente. E aí fica um pouco difícil prestar atenção em outra coisa.

Sob a Luz da Vela também é capaz em construir um mundo “imaginário”, principalmente pelo uso não-realista do som. No entanto, algumas incoerências dramatúrgicas, como a relação de medo entre o casal mirim e a bruxa - na primeira vez que a vêem, os dois saem correndo; na segunda, dividem, tranquilamente, o mesmo quadro - e alguns problemas de eixo acabam gerando um estranhamento que não convém ao tipo de cinema buscado por Karina. Há ainda o uso sistemático da fusão nas transições de cena, o que, a princípio, causa quase um mal-estar. Entretanto, esta é uma questão estética das mais interessantes para se pensar sobre...(o resgate de um recurso formal largamente utilizado no cinema durante muito tempo e que hoje parece ter sido esquecido, me remete a uma inocência, no bom sentido, que de alguma forma combina com a história contada em Sob a Luz da Vela).

Parasara, de Igor Moura, parece buscar, descaradamente, uma semelhança com Waking Life e O Homem Duplo. Até consegue. Por isso a distinção feita no primeiro parágrafo. Agora, até que ponto alcançar tal objetivo é algo a ser comemorado eu não sei.

18 de maio de 2009

Star Trek, de J. J Abrams


Para quem não é fã de Jornada nas Estrelas, o que o filme de J.J Abrams tem a oferecer? Muito pouco. Temos um funcionário competente na direção, que dá à câmera, principalmente nas cenas de ação, o sacolejo necessário para que não seja possível ver nada muito além de cotovelos, manchas, vultos (o raccord de movimento se dá, geralmente, de um plano próximo de um ombro, para outro plano próximo de um antebraço...e assim vai); Roteiristas que, para não correrem o risco de ofender os apreciadores da série clássica, criam um universo paralelo e, para agradar os filhos dos apreciadores da série clássica, inserem um bichinho engraçado lá pela metade do filme.

Há também uma ou outra esquisitice, como o a luta de espadas entre dois personagens. Espadas? Espadas de laser? Espadas de luz? Não, espadas de metal mesmo. Consegue-se pular de uma galáxia a outra em segundos. Mas, não se consegue inventar nada melhor do que uma espada de ferro!

Star Trek, se tem algum interesse, é porque seus personagens, sua “mitologia”, fazem parte da cultura pop. Mesmo os não iniciados sabem algo sobre a relação de amizade entre Spock e Kirk, por exemplo. Algum carisma há nestas figuras. Mas não graças aos atores. Zachary Quinto, o jovem Spock, atua como um boneco criado em CGI. Chris Pine, o heróico Kirk, atua como um boneco criado em CGI com o talento de Paul Walker. Os outros eu nem lembro direito.