30 de setembro de 2009

Terror na Antártida, de Dominc Sena


Chega a impressionar a falta de capacidade em narrar, demonstrada por Dominic Sena. Pouco se pode esperar destes longas hollywoodianos dirigidos por funcionários inexpressivos. Apenas que sejam competentes na execução do storytelling. Terror na Antártica está longe disso.

Fica evidenciado já no prólogo: dentro de um avião, russos atiram uns nos outros, chacoalhando em um avião com uma das hélices avariadas, mostrados por uma câmera que trepida para disfarçar a falta de habilidade do diretor. Quase nada se entende do que está acontecendo, graças a uma decupagem desastrada. Quando a cena atinge o que seria o ápice de tensão, é impossível distinguir quem é quem.

O argumento de Terror na Antártica é muito simples: assassinatos ocorrem em uma base de pesquisa científica no meio do gelo. Uma agente federal com passado obscuro (Kate Beckinsale) investiga o caso. A confusão que se segue ao prólogo – principalmente nos momentos que sucedem a descoberta do primeiro cadáver - não é uma questão de condução do entendimento do público acerca da trama (como em Shyamalan), e sim, mau uso das ferramentas disponíveis a um diretor de cinema para se contar uma história. Flashbacks que se repetem e mostram basicamente a mesma coisa, diálogos que ratificam a imagem (vemos um plano de detalhe de vários diamantes e, logo em seguida, surge um personagem que diz “são diamantes”): apenas dois exemplos entre tantos outros possíveis.

E o problema mais grave é que o filme se passa todo na neve e, em nenhum momento, nos faz sentir frio. Qualquer episódio de Arquivo X situado no mesmo cenário o faz com uma mão nas costas.

24 de setembro de 2009

Pequenos Invasores, de John Schultz


Já há algum tempo não restam dúvidas de que os videogames influenciam diretamente as narrativas cinematográficas mais “comerciais”, em um curioso movimento contrário (eram os games que antes tentavam ser cinematográficos). O recente A Pedra Mágica de Robert Rodriguez e este Pequenos Invasores são exemplos significativos. Afinados com seu público- alvo, os dois longas incorporam na narrativa os jogos eletrônicos. O filme de Schultz, nessa questão, é bem sucedido.

Para além citação em diálogos – em determinada cena, um guri diz: “Uau, igual ao jogo Halo!” o outro responde: “cara, não é como X-Box! isso é real, é como o Wii”, numa curiosa analogia que diz muito sobre as crianças pixelizadas de hoje – ou da referência visual mais simplista – um dos jovens do diálogo anterior usa uma camiseta do jogo Grand Prix, do Atari -, Pequenos Invasores traduz aspectos dos videogames em elementos dramáticos e estéticos.

O mais óbvio, não menos interessante, é o controle: os diminutos alienígenas, que atrapalham as férias de verão da família Pearson e parentes, com planos de dominar o mundo, possuem uma arma capaz de transformar as vítimas em bonecos que obedecem aos comandos de um joystick.

Não há dúvidas de que é um interessante achado cômico. Possibilita diversas piadas em que o corpo funciona de acordo com as leis físicas dos games menos “realistas”. Em uma das cenas, Ricky (Robert Hoffman), namorado da filha de Stuart Pearson, e Rose, a avó (Doris Roberts) transformados em avatares de um dos alienígenas e de Lee (Regan Young), respectivamente, lutam à maneira dos personagens de Street Fighter. Controle à mão, Lee executa comandos que resultam em shoryukens e voadoras.

Se até pouco tempo o humor físico dos filmes infantis hollywoodianos derivava dos desenhos animados – com Esqueceram de Mim dando o pontapé inicial - Pequenos Invasores está aí como um sintoma e um indicativo de que tal estética dificilmente voltará à tona tão cedo. Apesar de haver no longa algumas piadas de “caretas” que remetem a algum lugar entre o filme de Chris Columbus e qualquer coisa feita por Jim Carrey nos anos 90, não parece que Schultz olhe para trás.

Os bonequinhos extraterrestres, feitos em CGI, têm o aspecto, é claro, de bonequinhos controláveis de algum jogo do Playstation 3 ou concorrentes, o que deixa ainda mais evidente a sensação de que se está assistindo um filme sobre videogames.

O (involuntariamente) engraçado é que Pequenos Invasores acredita que o ápice de felicidade provém da família reunida em uma pescaria, idéia satirizada por John Hughes já em Clube dos Cinco. Passam-se os anos, mudam-se as tecnologias e suas relações com o cinema, mas o bom e velho conservadorismo norte-americano raramente é subvertido. Nos filmes infantis.

4 de setembro de 2009

Arraste-me Para o Inferno, de Sam Raimi


Só se pode ousar jogar as regras do jogo os que têm competência e/ou talento para cumpri-las. Cláudio Torres (A Mulher Invisível) e José Alvarenga Jr. (Os Normais 2) não possuem tais qualidades e seus filmes são provas que não deixam qualquer dúvida sobre a incompetência dos diretores – oquei, o primeiro teve enorme público, mas, isto não deveria ser o principal parâmetro de qualidade de um produto.

O único motivo para se falar nestes filmes em um texto sobre Araste-me Para o Inferno é que a disparidade entre os longas brasileiros e o de Sam Raimi é tão grande, que dá vontade de adotar a postura - que a crítica jamais deveria tomar para si - de apontar o certo e o errado, mostrar o que presta e o que não presta, indicar o que deve ser visto e o que não deve.

Talvez seja mesmo injusto colocar lado a lado estes produtos cuja única frágil semelhança está na adesão dos três ao cinema de gênero (sendo que nem são do mesmo gênero). Que seja. Às vezes (só às vezes) vale mais a irracionalidade do calor da hora do que a reflexão que leva ao tom mais lúcido.

A Mulher Invisível e Os Normais 2 – são exemplos representativos, poderíamos escolher vários outros – são mentirosos. Prometem riso e sacanagem e não cumprem. Dizem conhecer as regras, mas se mostram inábeis em segui-las. Arraste-me Para o Inferno deveria, portanto, soterrar os filmes de Torres e Alvarenga Jr.

Alguns dirão que seguir as regras significa passar pelo já visto, pelo típico. Raimi, assim como os outros dois cineastas, só lida com os clichês: a velha bruxa, a maldição antiga, o objeto assustador, o médium, o gato, a cena de chuva no cemitério etc. Um possível leitor que não tenha visto o filme só pode esperar que a junção disso tudo só pode resultar em um grande...clichê. Enquanto se está no nível das palavras, da linguagem, do remeter a algo, é isso mesmo. Mas um filme não é feito de palavras. Um filme não é uma linguagem.

As imagens – e o som, é claro – é que fazem do gasto, algo novo. O domínio da mise en scène – a protagonista fugindo, escada acima, da entidade que a persegue, se escondendo no quarto e sendo ameaçada pela sombra do “demônio” é um primor – é o que faz o cineasta provocar sustos – e, conseqüentemente, estar de acordo com as regras do jogo – utilizando um lenço. O objeto amaldiçoado, enquanto palavra, é só um clichê. Transformado em imagem – flutuando pela tela, etéreo, e, por isso mesmo, assustador – é a evidência de que para o diretor talentoso, jogar pelas regras só significa fazer um filme cheio de clichês quando se fica preso à palavra e ao discurso pré-estabelecido (“a noite mais louca de todas”, no cartaz de Os Normais 2. Onde estão as imagens disso?).

O problema é que A Mulher Invisível e Os Normais 2 não são nem filmes de gênero e, muito menos, filmes. O problema maior é utilizar Arraste-me Para o Inferno para ajudar a mostrar as deficiências dos dois longas brasileiros. É uma baita injustiça com Raimi. É um tipo de abordagem crítica que não me interessa.

Filmes bobos ficam na cabeça e nos fazem cometer bobagens. Isto não irá se repetir.

1 de setembro de 2009

Se Beber, Não Case, de Todd Phillips


Um dos melhores filmes lançados nos cinemas esse ano, Eu Te Amo, Cara, de John Hamburger, é uma comédia em ode à amizade masculina, onde os clichês da estrutura da comédia romântica aparecem na busca do personagem de Paul Rudd por um padrinho de casamento e amigo seu. É um filme que defende o prazer de ir a um bom show de rock ou de simplesmente passar uma noite bebendo e conversando com um amigo. Agora a comédia da vez é Se Beber, Não Case, que muito mais do que sobre se ter amigos, é um filme em defesa à bebedeira. Logo depois de acordarem de uma noite da qual não se lembram, um personagem pergunta “Por que a gente não se lembra de absolutamente nada do que aconteceu ontem a noite?”, e a resposta vem pronta na boca de outro personagem “Obviamente porque a gente se divertiu muito”. É o que importa.

Fica difícil falar de Se Beber, Não Case, sem mencionar uma certa tendência atual da comédia americana, capitaneada especialmente pelo nome de Judd Apatow (que tem em Ligeiramente Grávidos seu grande filme), de vangloriar a amizade entre homens e de mostrar personagens adultos agindo como adolescentes, ou pelo menos defender o direito desses adultos de conservar certas atitudes adolescentes em meio a uma necessidade natural de se crescer.

Phil, Stu e Doug são personagens com compromissos e com mulheres (um casado, um prestes a se casar, e outro prestes a propôr), o casamento e o trabalho são vistos pelo filme como consequência natural da vida adulta, e a ida a Las Vegas para uma despedida de solteiro regada a álcool é uma espécie de catarse em meio à essa monotonia. Uma fuga, um respiro, uma necessidade de viver mais. Interessante ver também a forma como o sogro de Doug defende essa viagem do futuro genro. “O que acontece em Vegas, fica em Vegas” é uma frase repetida por ele. Um certo código é seguido e respeitado por homens, de diferentes gerações. Há ainda Alan, personagem que mais rende risadas, um tipo meio bobo, que vai a Las Vegas não para extravasar, mas porque vê nesses três a oportunidade de finalmente ter amigos. Afinal, loucura sem companhia não diverte ninguém.

Cara, Cadê Meu Carro utilizava de uma premissa parecida para ir longe no fantástico e criar uma trama tão estúpida quanto seus dois protagonistas (e isso é um elogio ao filme), Se Beber, Não Case também vai longe, mas prefere apostar no absurdo. O início da bebedeira no terraço é seguido do despertar no dia seguinte, com uma suíte completamente bagunçada, um bebê, um tigre, uma galinha, e uma viatura de polícia os esperando em frente ao hotel. Mais tarde chegaremos ainda a Mike Tyson cantando Phil Collins e um japônes meio ninja meio gay (este talvez o único elemento em que Todd Phillips exagera demais na busca pelo riso).

Apesar de ser Alan o mais simpático dos personagens e Phil o mais sensato, é em Stu que parece se encontrar a base de tudo o que Phillips pretende dizer. Um cara certinho até demais, submisso à sua namorada, e que bêbado demonstra ser um dos caras mais loucos que qualquer um já conheceu. A bebedeira o faz perder um dente, casar com Heather Graham e, na volta, largar sua namorada chata que havia transado com um barman num transatlântico anos atrás. Tudo porque a moral aqui é a de que, apesar de tudo, beber e se divertir faz bem.

Qual a boa hoje?