4 de setembro de 2009

Arraste-me Para o Inferno, de Sam Raimi


Só se pode ousar jogar as regras do jogo os que têm competência e/ou talento para cumpri-las. Cláudio Torres (A Mulher Invisível) e José Alvarenga Jr. (Os Normais 2) não possuem tais qualidades e seus filmes são provas que não deixam qualquer dúvida sobre a incompetência dos diretores – oquei, o primeiro teve enorme público, mas, isto não deveria ser o principal parâmetro de qualidade de um produto.

O único motivo para se falar nestes filmes em um texto sobre Araste-me Para o Inferno é que a disparidade entre os longas brasileiros e o de Sam Raimi é tão grande, que dá vontade de adotar a postura - que a crítica jamais deveria tomar para si - de apontar o certo e o errado, mostrar o que presta e o que não presta, indicar o que deve ser visto e o que não deve.

Talvez seja mesmo injusto colocar lado a lado estes produtos cuja única frágil semelhança está na adesão dos três ao cinema de gênero (sendo que nem são do mesmo gênero). Que seja. Às vezes (só às vezes) vale mais a irracionalidade do calor da hora do que a reflexão que leva ao tom mais lúcido.

A Mulher Invisível e Os Normais 2 – são exemplos representativos, poderíamos escolher vários outros – são mentirosos. Prometem riso e sacanagem e não cumprem. Dizem conhecer as regras, mas se mostram inábeis em segui-las. Arraste-me Para o Inferno deveria, portanto, soterrar os filmes de Torres e Alvarenga Jr.

Alguns dirão que seguir as regras significa passar pelo já visto, pelo típico. Raimi, assim como os outros dois cineastas, só lida com os clichês: a velha bruxa, a maldição antiga, o objeto assustador, o médium, o gato, a cena de chuva no cemitério etc. Um possível leitor que não tenha visto o filme só pode esperar que a junção disso tudo só pode resultar em um grande...clichê. Enquanto se está no nível das palavras, da linguagem, do remeter a algo, é isso mesmo. Mas um filme não é feito de palavras. Um filme não é uma linguagem.

As imagens – e o som, é claro – é que fazem do gasto, algo novo. O domínio da mise en scène – a protagonista fugindo, escada acima, da entidade que a persegue, se escondendo no quarto e sendo ameaçada pela sombra do “demônio” é um primor – é o que faz o cineasta provocar sustos – e, conseqüentemente, estar de acordo com as regras do jogo – utilizando um lenço. O objeto amaldiçoado, enquanto palavra, é só um clichê. Transformado em imagem – flutuando pela tela, etéreo, e, por isso mesmo, assustador – é a evidência de que para o diretor talentoso, jogar pelas regras só significa fazer um filme cheio de clichês quando se fica preso à palavra e ao discurso pré-estabelecido (“a noite mais louca de todas”, no cartaz de Os Normais 2. Onde estão as imagens disso?).

O problema é que A Mulher Invisível e Os Normais 2 não são nem filmes de gênero e, muito menos, filmes. O problema maior é utilizar Arraste-me Para o Inferno para ajudar a mostrar as deficiências dos dois longas brasileiros. É uma baita injustiça com Raimi. É um tipo de abordagem crítica que não me interessa.

Filmes bobos ficam na cabeça e nos fazem cometer bobagens. Isto não irá se repetir.