24 de setembro de 2009

Pequenos Invasores, de John Schultz


Já há algum tempo não restam dúvidas de que os videogames influenciam diretamente as narrativas cinematográficas mais “comerciais”, em um curioso movimento contrário (eram os games que antes tentavam ser cinematográficos). O recente A Pedra Mágica de Robert Rodriguez e este Pequenos Invasores são exemplos significativos. Afinados com seu público- alvo, os dois longas incorporam na narrativa os jogos eletrônicos. O filme de Schultz, nessa questão, é bem sucedido.

Para além citação em diálogos – em determinada cena, um guri diz: “Uau, igual ao jogo Halo!” o outro responde: “cara, não é como X-Box! isso é real, é como o Wii”, numa curiosa analogia que diz muito sobre as crianças pixelizadas de hoje – ou da referência visual mais simplista – um dos jovens do diálogo anterior usa uma camiseta do jogo Grand Prix, do Atari -, Pequenos Invasores traduz aspectos dos videogames em elementos dramáticos e estéticos.

O mais óbvio, não menos interessante, é o controle: os diminutos alienígenas, que atrapalham as férias de verão da família Pearson e parentes, com planos de dominar o mundo, possuem uma arma capaz de transformar as vítimas em bonecos que obedecem aos comandos de um joystick.

Não há dúvidas de que é um interessante achado cômico. Possibilita diversas piadas em que o corpo funciona de acordo com as leis físicas dos games menos “realistas”. Em uma das cenas, Ricky (Robert Hoffman), namorado da filha de Stuart Pearson, e Rose, a avó (Doris Roberts) transformados em avatares de um dos alienígenas e de Lee (Regan Young), respectivamente, lutam à maneira dos personagens de Street Fighter. Controle à mão, Lee executa comandos que resultam em shoryukens e voadoras.

Se até pouco tempo o humor físico dos filmes infantis hollywoodianos derivava dos desenhos animados – com Esqueceram de Mim dando o pontapé inicial - Pequenos Invasores está aí como um sintoma e um indicativo de que tal estética dificilmente voltará à tona tão cedo. Apesar de haver no longa algumas piadas de “caretas” que remetem a algum lugar entre o filme de Chris Columbus e qualquer coisa feita por Jim Carrey nos anos 90, não parece que Schultz olhe para trás.

Os bonequinhos extraterrestres, feitos em CGI, têm o aspecto, é claro, de bonequinhos controláveis de algum jogo do Playstation 3 ou concorrentes, o que deixa ainda mais evidente a sensação de que se está assistindo um filme sobre videogames.

O (involuntariamente) engraçado é que Pequenos Invasores acredita que o ápice de felicidade provém da família reunida em uma pescaria, idéia satirizada por John Hughes já em Clube dos Cinco. Passam-se os anos, mudam-se as tecnologias e suas relações com o cinema, mas o bom e velho conservadorismo norte-americano raramente é subvertido. Nos filmes infantis.