30 de dezembro de 2009

Efeitos da Cobertura sobre a Mostra Avec 2009

Foi Cacá Diegues quem disse, certa vez, que o crítico daqui deveria se preocupar em refletir mais o cinema brasileiro a outro qualquer. Análises sobre filmes produzidos recentemente no país, segundo o diretor, causariam efeito na produção local, ao contrário do que se tratassem do último lançamento de Martin Scorsese, por exemplo. Pois, este jamais ficaria sabendo que uma linha sequer teria sido redigida sobre sua obra.

Mesmo relevando tal pensamento – além de ser de uma pequenez incrível, pressupõem poder que talvez a crítica não detenha – me parece interessante colocá-lo sob o prisma da repercussão tida pela cobertura da Mostra Avec 2009 (em especial, ao que Christopher escreveu).

Não é que a pretensão ao elaborar meu texto fosse primeiramente causar rebuliço. Falo por mim, é claro - já que o Pé em Quadro não é nada além de um blog e, portanto, não precisa de um posicionamento editorial, o que significa cada um escrever sobre o que quiser, da maneira que achar melhor. A intenção primordial era simplesmente responder ao conjunto de trabalhos exibidos em um evento específico. Mas, tanto melhor se houvesse também retorno por parte dos interessados – cineastas? estudantes? membros da famigerada lista de “discussão” cineartecwb? público do cinema paranaense em geral?

Infelizmente, para mim, o escrito causou pouco efeito - não aquele, pragmático, insinuado pelo autor de Quando o carnaval chegar, mas “emocional”, de defesa aos objetos criticados, de repúdio à própria crítica, ou qualquer coisa assim.

É claro, sabemos que o alcance do blog é limitadíssimo. No entanto, pode-se monitorar a quantidade de acessos à página. Basta clicar no ícone abaixo de “contadores”, no canto direito do site. Os três textos postados (além dos já citados, o do Alexandre, que também passou em branco) fizeram aumentar consideravelmente o número de visitas. Por isso a expectativa pelos comentários não era descabida.

Expectativa que foi suprida pela terceira parte da cobertura da Mostra Avec 2009. Suprida em partes, melhor dizendo. Pedro Merege e Estevan Silveira, diretores paranaenses, reagiram aos apontamentos feitos pelo estudante da Cinetvpr *.

Antes de continuar, reproduzo aqui, fielmente, as duas primeiras observações de ambos:


Os geniozinhos da escolinha. Precisam comer ainda muito feijão ou mostrar seus filmes geniais. Ou apenas ter um pouquinho de humildade e aprender alguma coisa.
P Merege

***

Caros e mediocres criticos do sem pé e fora de quadro.

com vcs , futuros criticocozinhos ,e
alunos de escolinha sem ética .
como será o inesperado futuro do cinema paranaense?
quem dera não brasileiro.
Ahh... melina, chris e wellington,
falam de : narração em off, muleta, legitimidade artística,
redundância, terceiro plano, etc. Mas não sabem ler os créditos,
quem dera entender o estilo do professor de fotografia
( Alziro Barbosa ).
No filme em Busca de Curitiba Perdida a fotografia é de Rubens Eleutério,
Sabem quem foi ? procurem, estudem , aprendam, mas não falem M...
Minha curitiba não é a sua, só para seu governo.
e minhas prostitutas poderiam ser bem melhores, se ,
quando fiz o teste de elenco suas primas, irmãs ou talvez
até as santas ... pudesssssem comparecer e provar que as
prostitutas são também belas e bem arrumadas.
Já ouviram falar de transposição cinematográfica, ou sobre a
história do cinema brasileiro,
ou do filme guerra conjugal , de Joaquim Pedro de Andrade?
“ que, aparenta ser tirada literalmente do texto do qual é
baseado, muleta comum no cinema... “
falar em baseado, apareçam na próxima paseata a favor, não
fiquem só nessa, viajo, viajo, viajo...
Cuidado, cuidado, com a força das palavras...
Hoje é natal, paramos por aqui.
Deixem – m, assistir a missa do galo,
e Um feliz natal e prospero ano novo,
Mas , não continuem assim...
estevan silvera

***

É profundamente desanimador (um pouco risível, especialmente no segundo caso, que lembra a atitude, ao menos original, tomada pelo infame cineasta alemão Uwe Boll, de desafiar os críticos que desgostassem de seus filmes para uma luta de boxe...) que se dê nesse tom e nessa pobreza de espírito – mais uma vez, refiro-me principalmente a Estevan - a manifestação dos “efeitos causados” em homens adultos, lembremos, responsáveis por uma parcela da produção cultural realizada no Paraná.

É evidente o cerne das três críticas sobre a mostra: por mais que denunciem uma tomada de posição de nossa parte, esboçam uma tentativa de diálogo entre pessoas da “nova” e da “velha geração”. Algo que, sinceramente, agora parece inviável. Cada um dos “lados” pode, então, fechar os olhos e ignorar o outro. Todos sairão perdendo, não há dúvida. Uns mais, outros menos. Bem menos.


* O restante da discussão pode ser acompanhada na sessão de comentários deste post.

24 de dezembro de 2009

Mostra Avec 2009 - Parte 3


Fotograma de Devoção, de Geraldo Pioli

A boa onda local?

Há uma grande falta de se pensar cinema no atual cenário paranaense, perceptível nessa Mostra Avec não somente na grande maioria dos filmes exibidos, mas também na própria (falta de) curadoria. Poderia se pensar em diferentes critérios para a escolha destes específicos curtas para uma mostra, mas a verdade é que nenhum deles fará sentido. Se falou numa seleção que primou pela diversidade (claro, sempre com privilégio a algumas figurinhas carimbadas), mas talvez a única desculpa que seria mais sensata para essa seleção seja a aleatoriadade. Fico imaginando que se jogássemos todos os curtas paranaenses dos últimos três anos pro alto e escolhêssemos aleatoriamente 20 filmes, o negócio poderia fazer um pouco mais de sentido. A média de público, de 10 a 15 pessoas por dia, demonstra a falta de apelo do evento.

É difícil escrever sobre essa mostra justamente porque ela parte de uma visão nula de cinema, e os filmes, que já mal incitam pensamentos, ficam ainda mais perdidos no meio destes outros. Ao escrever, não há muito o que refletir, apenas constatar a mediocridade das obras exibidas. Nesse texto serão citadas algumas delas.

Começamos com Venha Ver o Pôr-do-Sol, de June Meirelles. Adaptado de um texto da Lygia Fagundes Telles, conta a história do encontro de um casal de ex-namorados num cemitério. Com uma grande dose de generosidade no olhar, até poderia se tentar associar as intenções do curta com a de um Lavoura Arcaica, pelo texto extremamente literário ou pelas atuações exageradas, mas isso seria simplesmente não notar a completa incompetência da diretora. O “filme” pode ser descrito como um registro filmado de atores de teatro declamando um texto literário. Percebe-se a decupagem não pensada, e o único motivo plausível para a câmera estar ligada, e posicionada onde está, é para que um filme (financiado com verba pública) exista. Mas que filme é esse? Para quê esse filme?

Além disso, o curta começa e termina com uma narração off, que aparenta ser tirada literalmente do texto do qual é adaptado. Muleta comum no cinema local, ainda mais quando adaptada de escritores paranaenses, caminho fácil em busca de uma legitimidade artística, já muito bem apontada por Wellington Sari na primeira parte da cobertura.

Outros filmes da mostra também se apoiam em narração off, seja flertando com gêneros, em resultados muito duvidosos mas que ao menos esboçam uma tentativa de mise-en-scene, como o noir em A Filha do Chefe, de Antonio Marcos Ferreira; e o western em Esmarteza, de Pedro Merege; ou ainda em Ermos Argênteos, de Josiane Orvatich, espécie de Mapa Imundi da nova geração, filme obcecado em demonstrar a todo custo sua compreensão sobre cinema. Mas é Em Busca de Curitiba Perdida que consegue a proeza de levar essa muleta às últimas conseqüências.

O curta de Estevan Silveira (que já havia adaptado Dalton Trevisan, juntamente com Beto Carminatti, em A Balada do Vampiro) é a redundância em forma de filme. Temos em primeiro plano a narração off, seguindo letra por letra o conto de Dalton, e em segundo plano a imagem, que apenas reitera tudo o que é narrado. A narração menciona meninas num bar, temos a imagem de algumas meninas num bar, a narração menciona gatinhos brancos na janela e, adivinhem só, temos a imagem de um gatinho branco numa janela. Há ainda num terceiro plano a música, que apenas acompanha o filme, acrescentando nada, tentando dar uma coesão a tudo, mas conseguindo apenas aproximar o curta de uma propaganda do governo de Curitiba. Impressão essa corroborada também pela fotografia “perfeita” de Alziro Barbosa***, excelente fotógrafo técnico, mas que parece engessado pelos diretores com quem trabalha (ou seria o diretor de fotografia que engessa os diretores?), e pela própria encenação do que é narrado, tudo limpo, belo e clean demais. Talvez a Curitiba perdida de Silveira seja a Curitiba das propagandas de governo, em seu filme até as prostitutas do centro podre da cidade são belas e bem arrumadas.

Os veteranos Geraldo Pioli e Nivaldo Lopes, duas figuras carimbadas, deram as caras na mostra com seus mais recentes trabalhos. São décadas no ramo que só provam que o tempo pode nada ensinar a algumas pessoas. Impressiona a inocência de seus filmes na tentativa de busca a um certo tipo de “cinema popular paranaense”.

O curta de Nivaldo Lopes, Senhor, Tende Piedade de Mim, premiado no Festival de Maringá de 2008 (misteriosamente o único festival que seleciona e premia os curtas do diretor), não passa de uma piada de mau gosto mal filmada, envolvendo masturbação e pêlos em sovacos femininos, num esforço para arrancar risadas dignos dos últimos filmes do Eddie Murphy. A cópia em 35mm do curta, que no primeiro plano já evidencia uma porca captação em digital, sugere que estamos num lugar onde a imagem, novamente, é nada. Interessa contar uma história engraçadinha, mas nem isso se consegue. A narrativa segue aos trancos e barrancos até seu final-piada.

Devoção, de Geraldo Pioli, é outro que falha em sua narrativa. Vejamos os acontecimentos do filme: Um padre prega numa igreja, com planos e travellings que o engrandecem, seguidos de planos de fiéis o ouvindo, enquanto duas meninas em uma casa assistem tv e conversam sobre novela com diálogos absurdamente inverossímeis para meninas de sua idade. No meio disso, um plano de um velho saindo de uma casa parece induzir a mais um personagem importante, mas logo o velho entra na igreja e some do filme. Começa a chover muito forte, uma das meninas vai até a porta de sua casa e diz “olha amiga, está chovendo!”, a cada raio que cai o padre olha para a janela da igreja, há uma ponta engraçadinha do diretor e, por fim, após mais alguns raios na igreja, o padre tropeça e cai. Créditos finais, nada faz sentido.

Há ainda O Cortejo, de Marcos Sabóia e Joba Trindade, diretores estreantes, que parecem seguir o legado desse cinema. A trama engraçadinha se orgulha de não usar diálogos, mas não tem vergonha nenhuma de ter uma música ditando o ritmo e as emoções o tempo todo. É bem mais consciente e funcional que os curtas de Pioli e Lopes, mas uma cria deles. A tentativa de ser popular, e do uso de tramas paralelas, não esconde uma grande breguice e cafonice levada a sério na busca por uma beleza plástica. O uso do 35mm, recorrente em vários dos cineastas locais da "velha guarda" (que, muitas vezes, parece também usado apenas para legitimar as obras), vai contra o filme e dá a ele um ar de ultrapassado, de velho. É um curta que talvez faria sentido uns 20 anos atrás.

Semana passada a Gazeta do Povo, mais importante jornal local, publicou generosa matéria sobre 29 longas no estado, recentemente finalizados ou em produção. Se a quantidade impressiona, e é bom que se esteja produzindo tanto, é momento de começar a analisar melhor essa produção, pensar os filmes e relevar o que há de realmente interessante, ousado e/ou incitante nessa lista e no que está por vir. Ou basta apenas se produzir e criar um mercado? Afinal, se o mais importante cineasta que há no Paraná se chama Marcos Jorge, é porque as coisas ainda não estão tão bem.


P.S: Vale citar a iniciativa da Mostra Juliette, ocorrida no último dia 12 de dezembro. Ainda que com uma seleção irregular, teve boa parte de sua programação composta por curtas paranaenses (a maioria de alunos ou ex-alunos da FAP/CINETVPR), alguns deles muito bons. Destaque para Silêncio e Sombras, Oscar 07/02, Pastoreio e O Muro.


*** - ERRATA: o diretor de fotografia de Em Busca de Curitiba Perdida não é Alziro Barbosa, mas sim Rubens Eleutério.

15 de dezembro de 2009

Programa Duplo

O CINECLUBE SESC tem o prazer de convidar a todos para a sua sessão de estréia, às 19h30 da próxima sexta-feira (18/12), no Paço da Liberdade, apresentando em sessão dupla:


Ciclo de animação:


A SEREIA (10 min.)
O VELHO E O MAR (22 min.)
de Alexander Petrov
(texto e apresentação de João Krefer)

e, em seguida:


Ciclo de horror à italiana:


BLACK SABBATH (92 min.)
de Mario Bava
(texto e apresentação de Wellington Sari)

Entrada franca!

Filmes projetados e com legendas em português.
Sessões quinzenais, sempre às sextas-feiras.

Cartaz:

Serviço:
Paço da Liberdade Sesc Paraná
Praça Generoso Marques, 189 - Centro - Curitiba
tel: (41) 3234 4200

O CINECLUBE SESC é uma produção do Sesc Paraná/Paço da Liberdade, realizada por integrantes da cooperativa O Quadro.

1 de dezembro de 2009

Mostra Avec 2009 – Parte 2


Fotograma de Com as próprias mãos, de Aly Muritiba

Alexandre R. Garcia
alexandre33@gmail.com

Antes de qualquer coisa, vale ressaltar que esse texto foi escrito no final de 2008 (exato um ano atrás), depois da primeira exibição pública em Curitiba deste filme. Ele surgiu como um exercício da disciplina "Crítica Cinematográfica" na faculdade, onde o objetivo era relacionar um filme ao texto Travelling de Kapò de Sergey Daney (que, por sua vez, parte do texto Da abjeção, de Jacques Rivette).

E depois de muito adiamento sem publicar o texto, finalmente surge mais uma - depois de tantas - oportunidades, com a Mostra Avec em cartaz na Cinemateca de Curitiba. Confesso que não pude acompanhar essa sessão em específico, mas isso não influencia a percepção sobre o filme. Sobre a Mostra, que fui no segundo dia, numa sessão que teve apenas DOIS dos CINCO filmes agendados... terei que me abster. Mas uma Mostra com essa (des)organização deveras complica a situação.

Muita coisa mudou sobre o contexto do Com as próprias mãos, até em questão de festivais e premiações, pelo fato de não ter recebido um maior destaque nacional em grandes e mais relevantes festivais, como talvez fosse de se esperar, dado o início "promissor". Talvez fosse algo mais a se discutir, o fato deste filme causar reações tão díspares: grande aceitação perante muitas pessoas, e reprovação de muitos outras.

O filme é o mesmo. E dele que deveríamos falar. E seja como for, dado o "cenário" catastrófico do "cinema curitibano" (é só acompanhar a Mostra Avec), este ainda é um dos poucos filmes daqui que pelo menos viaja por outros Estados brasileiros - na verdade, como vários outros dessa "nova geração", que parece ao menos falar uma língua diferente do "curitibanês" (cinematográfico) - seja lá o que isso queira dizer, por bem e por mal.

Da Irresponsabilidade

Um dos curtas-metragens curitibanos de 2008 mais comentados neste ano, sem dúvidas, foi Com as próprias mãos, de Alysson "Aly" Muritiba. Vencedor do prêmio 16º Gramado Cine Vídeo no início de agosto e selecionado para competir no AXN Film Festival (canal de TV por assinatura) entre filmes de toda América Latina, o filme só foi estrear em sua cidade natal, depois de muita expectativa, em outubro, no 3º Festival de Cinema do Paraná, como Hours Concours (aquela velha questão: não iremos questionar aqui os porquês deste mérito). Desculpas pela ignorância do que de fato representam estes prêmios ou estas participações no cenário do cinema nacional, o fato é que este, juntamente com [colorado esporte cluBE], de Fábio Allon, foram os curtas curitibanos que mais freqüentaram festivais cinematográficos do Brasil em 2008, além de Osório, de Heloísa Passos e Tina Hardy (que está em outro patamar) - e isto já é muita coisa, tendo em vista as pálidas produções cinematográficas paranaenses. Ambos de diretores, e de equipes, ainda em formação pela Faculdade de Artes do Paraná/CINETVPR, mas que diferem muito em seus trabalhos. Enquanto [colorado] é claramente um filme de experimentação (não "experimental" no termo que se costuma utilizar), universitário, à busca de uma forma de realização e linguagem, mesmo que não fosse bem sucedido em seu resultado, é um óbvio produto estudantil. Um exercício, possível se dizer. E a pretensão artística até que é bem-vinda para estudantes, em certa medida.

Com as próprias mãos não difere muito de alguns filmes bem famosos e queridos por muitos, como Jogos Mortais ou Última parada 174; um exemplo produzido em Hollywood e outro no Brasil. Mas por que a comparação, já que seus meios de produção (e orçamentos) diferem tanto?

Jacques Rivette, em seu influente texto Da abjeção fala a respeito do filme Kapò, de Gillo Pontecorvo, e de suas implicações estéticas e morais, de maneira que Serge Daney viria anos depois imortalizar a expressão "Travelling de Kapò" retomando o assunto. Como a frase de Luc Moullet, "a moral é questão de travellings" (ou a de Godard, "os travellings são uma questão de moral"); a questão baseia-se no pressuposto de que o realizador dos filmes é o responsável pelas implicações morais, impressas e resultantes, por meio de sua abordagem, de seus filmes.

A primeira cena de Última parada 174 dá o tom do que é o filme - e não estamos falando da sua relação com os fatos verídicos, é bom ressaltar: uma solitária mãe amamenta seu bebê logo após ter cheirado sua última porção de cocaína. Chega o traficante exigindo o pagamento da dívida a qualquer custo. A mãe, desesperada, argumenta que não tem como pagar e implora piedade. A todo custo o traficante quer se recompensado, e de maneira brutal, aos gritos de "me dá o filho [sic]", acaba expulsando a mulher e exigindo que ela abandone sua casa e nunca mais retorne para a favela. O bebê de colo se manteve a todo momento em cena, primeiro nos braços da mãe para depois ser arrancado a força pelo antagonista. E ele não estava ali por acaso: era um elemento catalizador com o claro objetivo de "dramatizar" ainda mais a cena. Rivette, em 1961:
"cada um se habitua sorrateiramente ao horror, isso entra pouco a pouco nos modos, e logo fará parte da paisagem mental do homem moderno; quem poderá, da próxima vez, se espantar ou se indignar com aquilo que terá deixado de ser chocante?".

Aquele bebê ali em cena em meio à uma sequência de truculência extrema e tratada de maneira a denotar uma realidade pré-existente é chocante? Talvez seja, para algumas pessoas ainda. Talvez não para os realizadores de Jogos mortais, por exemplo. Para estes a questão é um pouco diferente, é verdade, por se tratar de um falso realismo, um filme que claramente pretende ser nada mais que uma brincadeira sobre (e com) a violência (pode-se dizer que não, mas é melhor acreditar assim). Traquitanas criativamente construídas para violentar seres humanos; mas o objetivo é realmente o choque estético no espectador, e não suas implicações sociais no mundo real - ou a partir dele.

Em ambos os casos é explícito uma posição do realizador que se abstém de posicionar-se criticamente - não com palavras ou texto, mas sim através de sua abordagem formal -a respeito da violência que está lançando mão, um pseudo discurso de neutralidade, um pouco como o alter ego de Michael Haneke em Código desconhecido afirma: "eu não tenho a chave de decifração para os problemas do mundo, eu só constato os defeitos". Fazer uso da violência com o argumento de que ela é real e indissociável de obras produzidas nos dias de hoje. Este discurso de isenção do realizador em relação ao mundo - e do que diz que absorveu dele - expõe a irresponsabilidade de levar em conta as implicações (morais e sociais, para com o espectador) de suas escolhas estéticas. O cinema é um meio mediático, transmissor de mensagens. E assim como o velho e exaustivo ditado, "combater fogo contra fogo"; apenas fortalecer o incêndio. Aquele que opta por se utilizar da violência explícita de maneira a nos remeter à nossa própria realidade e assim objetivar a fácil comoção, demonstra sua falta de criatividade por conta da referência fácil (a realidade sendo cruel. Como o basear-se em próprias histórias verídicas, exemplo Última parada 174, já que o objetivo não foi discutir este evento em si, como o próprio diretor afirmou (1)); mau gosto em estetizar uma realidade violenta (muito diferente do caso de estetizar a violência em si e por si só, como é o caso de Quentin Tarantino, para ficar no exemplo mais corrente); e demonstra sua covardia - imparcialidade? - ao delegar ao outro - o mundo - toda a culpa por essa violência que lançou mão; para não acabar dizendo que "esse homem só tem direito ao mais profundo desprezo", como fez Jacques Rivette.

Em Com as próprias mãos presenciamos a tortura de um homem que é acusado por uma mulher de ter seqüestrado seu filho, à maneira de Sympathy for Lady Vengeance, de Chan-wook Park ou Serpent's path, de Kyoshi Kurosawa (outros filmes, tão diversos, onde pais acusam e torturam "criminosos" - também num galpão, no segundo caso). Ela busca respostas e o paradeiro da criança. Logo descobrimos que não há respostas, não há mais criança viva. O filme encerra-se no próprio ato de violência e é composto somente por ele. Para quê? Motivado pela tortura extremamente gráfica, vemos em flashback a criança, vemos o seqüestrador, presenciamos a luta (cinema é um meio imagético, e a sugestão de uma imagem pode ser tão forte quanto a imagem em si, ou ainda mais). Novamente, por que a imagem da criança? A resposta não é difícil imaginar e não deve diferir muito do caso de Última parada 174...

Somos convidados a adentrar naquele mundo, as luzes são apagadas, as portas fechadas e ficamos presos lá dentro. Nada de bom surge: uma experiência puramente estética, um julgamento, uma reflexão (e o que de impressionante que surge do filme não é devido à sua construção especificamente cinematográfica, mas sim por suas imagens impressionantes em si mesmos - mãe, criança, assassinato...). Ou, se surge, é à custa de muita auto-reflexão - e isso é pedir demais ao espectador, como já se discutiu a respeito de Tropa de elite. A catarse se dá com a replicação da violência e a consolidação do ato de vingança aguardado. (Ato aguardado, sim, porque o filme é construído de maneira tradicionalmente dramática a criar a identificação (pathos) com a personagem vingadora e nada mais natural que compartilhemos de seus desejos). Não só expressou o gesto espetacular da violência em si do seqüestrador contra a criança, como também tentou justificar a vingança através desta relação - socialmente compreendida como sagrada - a materna. O objetivo da comoção é óbvio e para isso foram lançados os mais significantes (nos dois sentidos) artifícios: a violência, a figura infantil, a relação maternal.

Para complicar ainda mais, o diretor Alysson Muritba já fez questão de frisar que faz "filmes para o público". Afirmação de difícil entendimento, já que um público de uma pessoa ou de um milhão, é um público, independente de seu número. Então, considerando que a sugestão é por "o maior público possível", podemos entender que a busca é por tentar dialogar com a maior quantidade possível de pessoas, soar "universal". E para isso se utilizar de uma linguagem comum a todos nós: a violência. Reduzir a violência ao seu menor denominador comum, ou seja, novamente, violência. Mas sendo ela algo que começa e termina em si próprio, não há saída em seu uso apenas acessório, como um simples potencializador do drama cinematográfico. A menos que se proponha e expresse o questionamento dela própria ou de sua utilização, como em um exemplo de Michael Haneke: Violência gratuita , que, através de um dispositivo metalingüístico e reflexivo, questiona o papel do espectador que deseja a violência como catarse para os personagens (e conseqüentemente para quem assiste). Ou Laranja mecânica, Chopper, Não matarás, Psicopata americano, Marcas da violência, Assassinos por natureza, Taxi driver, exemplos que não faltam, tão díspares e desiguais entre si, mas que mesmo sendo narrativas clássicas que não evidenciam seus discursos como construções formais (transparentes), questionam o modo de representação da violência na mídia a que se submetem a si próprios. "Mais valeria em todo caso se questionar, e inserir uma interrogação, de alguma forma, naquilo que se filma; mas a dúvida é aquilo de que Pontecorvo e seus iguais estão mais desprovidos (2)".

O posicionamento categórico, seguro e objetivo de Com as próprias mãos acaba por condenar seu espectador apenas ao gesto do tempo presente ao presenciar aquilo. Seu realizador não titubeia em abordar a violência para impressionar (e chocar e comover) e não somos incitados a julgá-los em nenhum momento - filme e autor. "Existem coisas que só devem ser abordadas no temor e no terror; a morte é uma delas, sem dúvida; e como, no momento de filmar uma coisa tão misteriosa, não se sentir um impostor?"(3).

Assim como o texto de Serge Daney analisava as obras cinematográficas a partir de um ponto de vista do modernismo no cinema, ao qual Daney foi contemporâneo, sendo Noite e Neblina o ponto referencial, motivo do qual Kapò nasceu "caduco" - pois era o início da reflexividade cinematográfica, como conteúdo, e principalmente, forma - e Alain Resnais "o protótipo do cineasta 'moderno (4)'" ; a análise feita aqui não é puramente um julgamento de valor de um filme como construção técnica de linguagem, mas sobretudo sua reapresentação perante o espectador e sua inserção no cenário audiovisual de 2008: o mundo pós-moderno.

Há pouco tempo atrás, quando da divulgação das imagens de torturas em Abu Ghraib, iniciou-se uma intensa discussão a respeito da reapresentação de imagens sobre (e da) violência - que se proliferam em fotos, vídeos e relatos. Ao exemplo do escritor A.S. Hamrah, que publicou um artigo intitulado Nós adoramos torturar , em referência à Abu Graib e à recentes onda dos filmes "torture porn" , podemos levar em conta que estes filmes (assim como Com as próprias mãos) descendem diretamente deste certo pós-modernismo e assim se inserem no cinema. Século XXI, outras questões em relação à 1960, na sociedade e no cinema. Um pouco como Daney esboçou em 1992, os limites hoje se encontram muito indistintos; definições do que é arte, comportamento moral, ético, justeza... aparentemente, agora mais do que nunca na mídia, "o fim justifica os meios". E este fim é simplesmente sua eficiência como produto de entretenimento. Qual o objetivo de um filme como este? Agradar o público? Obter certa repercussão? Para qualquer destes objetivos é necessário o ato de impressionar, comover. E isso eles conseguem, sem dúvida. Mas, a que custo?

Ainda mais sintomático (e preocupante) é que um filme universitário apresente este comportamento, pois, a priori, entendemos que a universidade é o lugar de discussão, experimento, reflexão... sobre o cinema e suas re(a)presentações. Não o discurso bom-mocista da "fidelidade" com o real, mas uma certa coerência e honestidade no papel de produtores de imagens. Responsabilidade na sua função midiática; transmissores de mensagens, idéias, conceitos...

***

(1) "Adoro Cidade de Deus. Acho um marco no cinema mundial. Agora, é um grande afresco, não se propõe a dissecar os sentimentos. É um épico. Meu filme é exatamente o oposto. É um épico do coração, intimista". Folha de São Paulo, caderno "Ilustrada", 25 de setembro 2008.
(2)RIVETTE, em Travelling de Kapò.
(3) Idem.
(4)DANEY, Da abjeção.