1 de dezembro de 2009

Mostra Avec 2009 – Parte 2


Fotograma de Com as próprias mãos, de Aly Muritiba

Alexandre R. Garcia
alexandre33@gmail.com

Antes de qualquer coisa, vale ressaltar que esse texto foi escrito no final de 2008 (exato um ano atrás), depois da primeira exibição pública em Curitiba deste filme. Ele surgiu como um exercício da disciplina "Crítica Cinematográfica" na faculdade, onde o objetivo era relacionar um filme ao texto Travelling de Kapò de Sergey Daney (que, por sua vez, parte do texto Da abjeção, de Jacques Rivette).

E depois de muito adiamento sem publicar o texto, finalmente surge mais uma - depois de tantas - oportunidades, com a Mostra Avec em cartaz na Cinemateca de Curitiba. Confesso que não pude acompanhar essa sessão em específico, mas isso não influencia a percepção sobre o filme. Sobre a Mostra, que fui no segundo dia, numa sessão que teve apenas DOIS dos CINCO filmes agendados... terei que me abster. Mas uma Mostra com essa (des)organização deveras complica a situação.

Muita coisa mudou sobre o contexto do Com as próprias mãos, até em questão de festivais e premiações, pelo fato de não ter recebido um maior destaque nacional em grandes e mais relevantes festivais, como talvez fosse de se esperar, dado o início "promissor". Talvez fosse algo mais a se discutir, o fato deste filme causar reações tão díspares: grande aceitação perante muitas pessoas, e reprovação de muitos outras.

O filme é o mesmo. E dele que deveríamos falar. E seja como for, dado o "cenário" catastrófico do "cinema curitibano" (é só acompanhar a Mostra Avec), este ainda é um dos poucos filmes daqui que pelo menos viaja por outros Estados brasileiros - na verdade, como vários outros dessa "nova geração", que parece ao menos falar uma língua diferente do "curitibanês" (cinematográfico) - seja lá o que isso queira dizer, por bem e por mal.

Da Irresponsabilidade

Um dos curtas-metragens curitibanos de 2008 mais comentados neste ano, sem dúvidas, foi Com as próprias mãos, de Alysson "Aly" Muritiba. Vencedor do prêmio 16º Gramado Cine Vídeo no início de agosto e selecionado para competir no AXN Film Festival (canal de TV por assinatura) entre filmes de toda América Latina, o filme só foi estrear em sua cidade natal, depois de muita expectativa, em outubro, no 3º Festival de Cinema do Paraná, como Hours Concours (aquela velha questão: não iremos questionar aqui os porquês deste mérito). Desculpas pela ignorância do que de fato representam estes prêmios ou estas participações no cenário do cinema nacional, o fato é que este, juntamente com [colorado esporte cluBE], de Fábio Allon, foram os curtas curitibanos que mais freqüentaram festivais cinematográficos do Brasil em 2008, além de Osório, de Heloísa Passos e Tina Hardy (que está em outro patamar) - e isto já é muita coisa, tendo em vista as pálidas produções cinematográficas paranaenses. Ambos de diretores, e de equipes, ainda em formação pela Faculdade de Artes do Paraná/CINETVPR, mas que diferem muito em seus trabalhos. Enquanto [colorado] é claramente um filme de experimentação (não "experimental" no termo que se costuma utilizar), universitário, à busca de uma forma de realização e linguagem, mesmo que não fosse bem sucedido em seu resultado, é um óbvio produto estudantil. Um exercício, possível se dizer. E a pretensão artística até que é bem-vinda para estudantes, em certa medida.

Com as próprias mãos não difere muito de alguns filmes bem famosos e queridos por muitos, como Jogos Mortais ou Última parada 174; um exemplo produzido em Hollywood e outro no Brasil. Mas por que a comparação, já que seus meios de produção (e orçamentos) diferem tanto?

Jacques Rivette, em seu influente texto Da abjeção fala a respeito do filme Kapò, de Gillo Pontecorvo, e de suas implicações estéticas e morais, de maneira que Serge Daney viria anos depois imortalizar a expressão "Travelling de Kapò" retomando o assunto. Como a frase de Luc Moullet, "a moral é questão de travellings" (ou a de Godard, "os travellings são uma questão de moral"); a questão baseia-se no pressuposto de que o realizador dos filmes é o responsável pelas implicações morais, impressas e resultantes, por meio de sua abordagem, de seus filmes.

A primeira cena de Última parada 174 dá o tom do que é o filme - e não estamos falando da sua relação com os fatos verídicos, é bom ressaltar: uma solitária mãe amamenta seu bebê logo após ter cheirado sua última porção de cocaína. Chega o traficante exigindo o pagamento da dívida a qualquer custo. A mãe, desesperada, argumenta que não tem como pagar e implora piedade. A todo custo o traficante quer se recompensado, e de maneira brutal, aos gritos de "me dá o filho [sic]", acaba expulsando a mulher e exigindo que ela abandone sua casa e nunca mais retorne para a favela. O bebê de colo se manteve a todo momento em cena, primeiro nos braços da mãe para depois ser arrancado a força pelo antagonista. E ele não estava ali por acaso: era um elemento catalizador com o claro objetivo de "dramatizar" ainda mais a cena. Rivette, em 1961:
"cada um se habitua sorrateiramente ao horror, isso entra pouco a pouco nos modos, e logo fará parte da paisagem mental do homem moderno; quem poderá, da próxima vez, se espantar ou se indignar com aquilo que terá deixado de ser chocante?".

Aquele bebê ali em cena em meio à uma sequência de truculência extrema e tratada de maneira a denotar uma realidade pré-existente é chocante? Talvez seja, para algumas pessoas ainda. Talvez não para os realizadores de Jogos mortais, por exemplo. Para estes a questão é um pouco diferente, é verdade, por se tratar de um falso realismo, um filme que claramente pretende ser nada mais que uma brincadeira sobre (e com) a violência (pode-se dizer que não, mas é melhor acreditar assim). Traquitanas criativamente construídas para violentar seres humanos; mas o objetivo é realmente o choque estético no espectador, e não suas implicações sociais no mundo real - ou a partir dele.

Em ambos os casos é explícito uma posição do realizador que se abstém de posicionar-se criticamente - não com palavras ou texto, mas sim através de sua abordagem formal -a respeito da violência que está lançando mão, um pseudo discurso de neutralidade, um pouco como o alter ego de Michael Haneke em Código desconhecido afirma: "eu não tenho a chave de decifração para os problemas do mundo, eu só constato os defeitos". Fazer uso da violência com o argumento de que ela é real e indissociável de obras produzidas nos dias de hoje. Este discurso de isenção do realizador em relação ao mundo - e do que diz que absorveu dele - expõe a irresponsabilidade de levar em conta as implicações (morais e sociais, para com o espectador) de suas escolhas estéticas. O cinema é um meio mediático, transmissor de mensagens. E assim como o velho e exaustivo ditado, "combater fogo contra fogo"; apenas fortalecer o incêndio. Aquele que opta por se utilizar da violência explícita de maneira a nos remeter à nossa própria realidade e assim objetivar a fácil comoção, demonstra sua falta de criatividade por conta da referência fácil (a realidade sendo cruel. Como o basear-se em próprias histórias verídicas, exemplo Última parada 174, já que o objetivo não foi discutir este evento em si, como o próprio diretor afirmou (1)); mau gosto em estetizar uma realidade violenta (muito diferente do caso de estetizar a violência em si e por si só, como é o caso de Quentin Tarantino, para ficar no exemplo mais corrente); e demonstra sua covardia - imparcialidade? - ao delegar ao outro - o mundo - toda a culpa por essa violência que lançou mão; para não acabar dizendo que "esse homem só tem direito ao mais profundo desprezo", como fez Jacques Rivette.

Em Com as próprias mãos presenciamos a tortura de um homem que é acusado por uma mulher de ter seqüestrado seu filho, à maneira de Sympathy for Lady Vengeance, de Chan-wook Park ou Serpent's path, de Kyoshi Kurosawa (outros filmes, tão diversos, onde pais acusam e torturam "criminosos" - também num galpão, no segundo caso). Ela busca respostas e o paradeiro da criança. Logo descobrimos que não há respostas, não há mais criança viva. O filme encerra-se no próprio ato de violência e é composto somente por ele. Para quê? Motivado pela tortura extremamente gráfica, vemos em flashback a criança, vemos o seqüestrador, presenciamos a luta (cinema é um meio imagético, e a sugestão de uma imagem pode ser tão forte quanto a imagem em si, ou ainda mais). Novamente, por que a imagem da criança? A resposta não é difícil imaginar e não deve diferir muito do caso de Última parada 174...

Somos convidados a adentrar naquele mundo, as luzes são apagadas, as portas fechadas e ficamos presos lá dentro. Nada de bom surge: uma experiência puramente estética, um julgamento, uma reflexão (e o que de impressionante que surge do filme não é devido à sua construção especificamente cinematográfica, mas sim por suas imagens impressionantes em si mesmos - mãe, criança, assassinato...). Ou, se surge, é à custa de muita auto-reflexão - e isso é pedir demais ao espectador, como já se discutiu a respeito de Tropa de elite. A catarse se dá com a replicação da violência e a consolidação do ato de vingança aguardado. (Ato aguardado, sim, porque o filme é construído de maneira tradicionalmente dramática a criar a identificação (pathos) com a personagem vingadora e nada mais natural que compartilhemos de seus desejos). Não só expressou o gesto espetacular da violência em si do seqüestrador contra a criança, como também tentou justificar a vingança através desta relação - socialmente compreendida como sagrada - a materna. O objetivo da comoção é óbvio e para isso foram lançados os mais significantes (nos dois sentidos) artifícios: a violência, a figura infantil, a relação maternal.

Para complicar ainda mais, o diretor Alysson Muritba já fez questão de frisar que faz "filmes para o público". Afirmação de difícil entendimento, já que um público de uma pessoa ou de um milhão, é um público, independente de seu número. Então, considerando que a sugestão é por "o maior público possível", podemos entender que a busca é por tentar dialogar com a maior quantidade possível de pessoas, soar "universal". E para isso se utilizar de uma linguagem comum a todos nós: a violência. Reduzir a violência ao seu menor denominador comum, ou seja, novamente, violência. Mas sendo ela algo que começa e termina em si próprio, não há saída em seu uso apenas acessório, como um simples potencializador do drama cinematográfico. A menos que se proponha e expresse o questionamento dela própria ou de sua utilização, como em um exemplo de Michael Haneke: Violência gratuita , que, através de um dispositivo metalingüístico e reflexivo, questiona o papel do espectador que deseja a violência como catarse para os personagens (e conseqüentemente para quem assiste). Ou Laranja mecânica, Chopper, Não matarás, Psicopata americano, Marcas da violência, Assassinos por natureza, Taxi driver, exemplos que não faltam, tão díspares e desiguais entre si, mas que mesmo sendo narrativas clássicas que não evidenciam seus discursos como construções formais (transparentes), questionam o modo de representação da violência na mídia a que se submetem a si próprios. "Mais valeria em todo caso se questionar, e inserir uma interrogação, de alguma forma, naquilo que se filma; mas a dúvida é aquilo de que Pontecorvo e seus iguais estão mais desprovidos (2)".

O posicionamento categórico, seguro e objetivo de Com as próprias mãos acaba por condenar seu espectador apenas ao gesto do tempo presente ao presenciar aquilo. Seu realizador não titubeia em abordar a violência para impressionar (e chocar e comover) e não somos incitados a julgá-los em nenhum momento - filme e autor. "Existem coisas que só devem ser abordadas no temor e no terror; a morte é uma delas, sem dúvida; e como, no momento de filmar uma coisa tão misteriosa, não se sentir um impostor?"(3).

Assim como o texto de Serge Daney analisava as obras cinematográficas a partir de um ponto de vista do modernismo no cinema, ao qual Daney foi contemporâneo, sendo Noite e Neblina o ponto referencial, motivo do qual Kapò nasceu "caduco" - pois era o início da reflexividade cinematográfica, como conteúdo, e principalmente, forma - e Alain Resnais "o protótipo do cineasta 'moderno (4)'" ; a análise feita aqui não é puramente um julgamento de valor de um filme como construção técnica de linguagem, mas sobretudo sua reapresentação perante o espectador e sua inserção no cenário audiovisual de 2008: o mundo pós-moderno.

Há pouco tempo atrás, quando da divulgação das imagens de torturas em Abu Ghraib, iniciou-se uma intensa discussão a respeito da reapresentação de imagens sobre (e da) violência - que se proliferam em fotos, vídeos e relatos. Ao exemplo do escritor A.S. Hamrah, que publicou um artigo intitulado Nós adoramos torturar , em referência à Abu Graib e à recentes onda dos filmes "torture porn" , podemos levar em conta que estes filmes (assim como Com as próprias mãos) descendem diretamente deste certo pós-modernismo e assim se inserem no cinema. Século XXI, outras questões em relação à 1960, na sociedade e no cinema. Um pouco como Daney esboçou em 1992, os limites hoje se encontram muito indistintos; definições do que é arte, comportamento moral, ético, justeza... aparentemente, agora mais do que nunca na mídia, "o fim justifica os meios". E este fim é simplesmente sua eficiência como produto de entretenimento. Qual o objetivo de um filme como este? Agradar o público? Obter certa repercussão? Para qualquer destes objetivos é necessário o ato de impressionar, comover. E isso eles conseguem, sem dúvida. Mas, a que custo?

Ainda mais sintomático (e preocupante) é que um filme universitário apresente este comportamento, pois, a priori, entendemos que a universidade é o lugar de discussão, experimento, reflexão... sobre o cinema e suas re(a)presentações. Não o discurso bom-mocista da "fidelidade" com o real, mas uma certa coerência e honestidade no papel de produtores de imagens. Responsabilidade na sua função midiática; transmissores de mensagens, idéias, conceitos...

***

(1) "Adoro Cidade de Deus. Acho um marco no cinema mundial. Agora, é um grande afresco, não se propõe a dissecar os sentimentos. É um épico. Meu filme é exatamente o oposto. É um épico do coração, intimista". Folha de São Paulo, caderno "Ilustrada", 25 de setembro 2008.
(2)RIVETTE, em Travelling de Kapò.
(3) Idem.
(4)DANEY, Da abjeção.