24 de dezembro de 2009

Mostra Avec 2009 - Parte 3


Fotograma de Devoção, de Geraldo Pioli

A boa onda local?

Há uma grande falta de se pensar cinema no atual cenário paranaense, perceptível nessa Mostra Avec não somente na grande maioria dos filmes exibidos, mas também na própria (falta de) curadoria. Poderia se pensar em diferentes critérios para a escolha destes específicos curtas para uma mostra, mas a verdade é que nenhum deles fará sentido. Se falou numa seleção que primou pela diversidade (claro, sempre com privilégio a algumas figurinhas carimbadas), mas talvez a única desculpa que seria mais sensata para essa seleção seja a aleatoriadade. Fico imaginando que se jogássemos todos os curtas paranaenses dos últimos três anos pro alto e escolhêssemos aleatoriamente 20 filmes, o negócio poderia fazer um pouco mais de sentido. A média de público, de 10 a 15 pessoas por dia, demonstra a falta de apelo do evento.

É difícil escrever sobre essa mostra justamente porque ela parte de uma visão nula de cinema, e os filmes, que já mal incitam pensamentos, ficam ainda mais perdidos no meio destes outros. Ao escrever, não há muito o que refletir, apenas constatar a mediocridade das obras exibidas. Nesse texto serão citadas algumas delas.

Começamos com Venha Ver o Pôr-do-Sol, de June Meirelles. Adaptado de um texto da Lygia Fagundes Telles, conta a história do encontro de um casal de ex-namorados num cemitério. Com uma grande dose de generosidade no olhar, até poderia se tentar associar as intenções do curta com a de um Lavoura Arcaica, pelo texto extremamente literário ou pelas atuações exageradas, mas isso seria simplesmente não notar a completa incompetência da diretora. O “filme” pode ser descrito como um registro filmado de atores de teatro declamando um texto literário. Percebe-se a decupagem não pensada, e o único motivo plausível para a câmera estar ligada, e posicionada onde está, é para que um filme (financiado com verba pública) exista. Mas que filme é esse? Para quê esse filme?

Além disso, o curta começa e termina com uma narração off, que aparenta ser tirada literalmente do texto do qual é adaptado. Muleta comum no cinema local, ainda mais quando adaptada de escritores paranaenses, caminho fácil em busca de uma legitimidade artística, já muito bem apontada por Wellington Sari na primeira parte da cobertura.

Outros filmes da mostra também se apoiam em narração off, seja flertando com gêneros, em resultados muito duvidosos mas que ao menos esboçam uma tentativa de mise-en-scene, como o noir em A Filha do Chefe, de Antonio Marcos Ferreira; e o western em Esmarteza, de Pedro Merege; ou ainda em Ermos Argênteos, de Josiane Orvatich, espécie de Mapa Imundi da nova geração, filme obcecado em demonstrar a todo custo sua compreensão sobre cinema. Mas é Em Busca de Curitiba Perdida que consegue a proeza de levar essa muleta às últimas conseqüências.

O curta de Estevan Silveira (que já havia adaptado Dalton Trevisan, juntamente com Beto Carminatti, em A Balada do Vampiro) é a redundância em forma de filme. Temos em primeiro plano a narração off, seguindo letra por letra o conto de Dalton, e em segundo plano a imagem, que apenas reitera tudo o que é narrado. A narração menciona meninas num bar, temos a imagem de algumas meninas num bar, a narração menciona gatinhos brancos na janela e, adivinhem só, temos a imagem de um gatinho branco numa janela. Há ainda num terceiro plano a música, que apenas acompanha o filme, acrescentando nada, tentando dar uma coesão a tudo, mas conseguindo apenas aproximar o curta de uma propaganda do governo de Curitiba. Impressão essa corroborada também pela fotografia “perfeita” de Alziro Barbosa***, excelente fotógrafo técnico, mas que parece engessado pelos diretores com quem trabalha (ou seria o diretor de fotografia que engessa os diretores?), e pela própria encenação do que é narrado, tudo limpo, belo e clean demais. Talvez a Curitiba perdida de Silveira seja a Curitiba das propagandas de governo, em seu filme até as prostitutas do centro podre da cidade são belas e bem arrumadas.

Os veteranos Geraldo Pioli e Nivaldo Lopes, duas figuras carimbadas, deram as caras na mostra com seus mais recentes trabalhos. São décadas no ramo que só provam que o tempo pode nada ensinar a algumas pessoas. Impressiona a inocência de seus filmes na tentativa de busca a um certo tipo de “cinema popular paranaense”.

O curta de Nivaldo Lopes, Senhor, Tende Piedade de Mim, premiado no Festival de Maringá de 2008 (misteriosamente o único festival que seleciona e premia os curtas do diretor), não passa de uma piada de mau gosto mal filmada, envolvendo masturbação e pêlos em sovacos femininos, num esforço para arrancar risadas dignos dos últimos filmes do Eddie Murphy. A cópia em 35mm do curta, que no primeiro plano já evidencia uma porca captação em digital, sugere que estamos num lugar onde a imagem, novamente, é nada. Interessa contar uma história engraçadinha, mas nem isso se consegue. A narrativa segue aos trancos e barrancos até seu final-piada.

Devoção, de Geraldo Pioli, é outro que falha em sua narrativa. Vejamos os acontecimentos do filme: Um padre prega numa igreja, com planos e travellings que o engrandecem, seguidos de planos de fiéis o ouvindo, enquanto duas meninas em uma casa assistem tv e conversam sobre novela com diálogos absurdamente inverossímeis para meninas de sua idade. No meio disso, um plano de um velho saindo de uma casa parece induzir a mais um personagem importante, mas logo o velho entra na igreja e some do filme. Começa a chover muito forte, uma das meninas vai até a porta de sua casa e diz “olha amiga, está chovendo!”, a cada raio que cai o padre olha para a janela da igreja, há uma ponta engraçadinha do diretor e, por fim, após mais alguns raios na igreja, o padre tropeça e cai. Créditos finais, nada faz sentido.

Há ainda O Cortejo, de Marcos Sabóia e Joba Trindade, diretores estreantes, que parecem seguir o legado desse cinema. A trama engraçadinha se orgulha de não usar diálogos, mas não tem vergonha nenhuma de ter uma música ditando o ritmo e as emoções o tempo todo. É bem mais consciente e funcional que os curtas de Pioli e Lopes, mas uma cria deles. A tentativa de ser popular, e do uso de tramas paralelas, não esconde uma grande breguice e cafonice levada a sério na busca por uma beleza plástica. O uso do 35mm, recorrente em vários dos cineastas locais da "velha guarda" (que, muitas vezes, parece também usado apenas para legitimar as obras), vai contra o filme e dá a ele um ar de ultrapassado, de velho. É um curta que talvez faria sentido uns 20 anos atrás.

Semana passada a Gazeta do Povo, mais importante jornal local, publicou generosa matéria sobre 29 longas no estado, recentemente finalizados ou em produção. Se a quantidade impressiona, e é bom que se esteja produzindo tanto, é momento de começar a analisar melhor essa produção, pensar os filmes e relevar o que há de realmente interessante, ousado e/ou incitante nessa lista e no que está por vir. Ou basta apenas se produzir e criar um mercado? Afinal, se o mais importante cineasta que há no Paraná se chama Marcos Jorge, é porque as coisas ainda não estão tão bem.


P.S: Vale citar a iniciativa da Mostra Juliette, ocorrida no último dia 12 de dezembro. Ainda que com uma seleção irregular, teve boa parte de sua programação composta por curtas paranaenses (a maioria de alunos ou ex-alunos da FAP/CINETVPR), alguns deles muito bons. Destaque para Silêncio e Sombras, Oscar 07/02, Pastoreio e O Muro.


*** - ERRATA: o diretor de fotografia de Em Busca de Curitiba Perdida não é Alziro Barbosa, mas sim Rubens Eleutério.