26 de maio de 2008

Crash - No limite, de Paul Haggis


Um dos acontecimentos de grande importância do mundo cinematográfico, a 61° edição Festival de Cannes, chegou a fim.

Enquanto isso, aqui no blog, temos um texto que trata de um filme visto (e odiado) por mim há muito tempo.

Em uma primeira olhada, pode-se pensar que o Paul Haggis de Crash- No limite, nada mais faz do que diluir Robert Altman. Em uma segunda olhada, no entanto, têm-se a certeza: o Paul Haggis, de Crash- No limite, nada mais faz do que diluir Robert Altman.

Nada contra tal estratégia: era o que fazia, até Sangue Negro, Paul Thomas Anderson (Embriagado de Amor é outro que talvez tenha muito menos semelhança com os filmes do diretor de Short Cuts, cenas da vida). A diferença básica entre Haggis e Anderson é que enquanto o segundo é um cineasta que pensa em imagens, o primeiro é um roteirista que pensa, é claro, em palavras.

Sim, por mais que Haggis tente fazer do roteiro um caminho para imagens e sons não-verbais (em alguns momentos ele realmente consegue), esta proposta nunca se completa por inteiro: Crash, no limite acaba se mostrando um filme de roteiro, de “sacadas” de estrutura, de coincidências, de situações que se ligam por meio “do destino” – controlado, é claro, à mão de ferro por Haggis. Em um cinema que se pretende naturalista (ou, talvez, realista, já que quer representar uma realidade específica, no caso a Los Angeles do século XXI), é questionável um roteiro tão amarradinho, tão simétrico.

O interesse do longa-metragem parece estar no grande painel étnico que são os personagens (mesmo que estes sejam apresentadas de forma extremas: ou são muito malvadões, ou são muito bonzinhos, como se a complexidade humana se resumisse a estes dois pontos). A visão etnocêntrica, em que, segundo Everardo P. Guimarães Rocha, em O que é etnocentrismo: “o grupo do ‘eu’ faz então, da sua visão a única possível, ou mais discretamente, se for possível, a melhor, a natural, a certa.

Um filme que só tem algum valor a estudantes de sociologia interessados em discutir o etnocentrismo. Sorte não ser este o meu caso.

19 de maio de 2008

O Sonho de Cassandra, de Woody Allen

O primeiro e o último plano de O Sonho de Cassandra mostram um barco a velas, homônimo ao título do filme. Não é nem preciso recorrer à semiótica para que se perceba a importância deste objeto náutico. Não é preciso muito para notar como o veleiro adquire um valor essencial na (e para) história dos dois irmãos ingleses de classe-baixa cuja intenção é “subir na vida”.

A partir da compra do barco pelos irmãos (que barganham e mentem para conseguir um preço mais baixo do vendedor), vemos, já nos primeiros minutos, aspectos da personalidade destes personagens que mais adiante despontarão. Tudo como uma economia de imagens e palavras - esta última algo raro na filmografia do cineasta, diga-se de passagem - impressionante.

Não fica difícil perceber que Ian e Terry são bastante unidos e que almejam mais do que podem ter, e que, para isso, não hesitam em mentir. Toda a situação é aparentemente banal, mas, na verdade, serve para Allen dispor as cartas para o público logo de uma vez. Ele quer nos avisar quem é quem neste jogo de aparências representado por quem vive nesta sociedade britânica. Só pela vestimenta e por fiapos de diálogos vemos que Terry é o trabalhador braçal, instintivo, e que usa uma jaqueta velha, enquanto Ian é racional e usa terno.

Nas cenas seguintes vai reiterando esta primeira impressão (inclusive cuidando para que os dois personagens vistam exatamente a mesma jaqueta de couro e o mesmo terno, em diversos momentos importantes). Sem nenhum alívio (outra vez, seja por meio de imagens ou palavras), Allen mostra os irmãos em seus respectivos mundos, diferentes, mas absolutamente iguais na essência, ou seja, em um lugar indesejado – a clase-média baixa – do qual tentam fugir quase desesperadamente. Seja jogando de forma compulsiva, como faz Terry, ou então fingindo ser um empresário do ramo de hotéis, como faz Ian, para conquistar a bela atriz e então ascender socialmente.

Até que entra na história a figura do tio (que até então era sempre mencionado verbalmente por outros personagens) e com ele vem a possibilidade do assassinato como forma de sair do buraco cinza que é a classe-média baixa. A semelhança de O Sonho de Cassandra com seu filme-irmão Match Point, à partir deste ponto, se torna óbvia. Allen tem certa obsessão por assassinatos motivados pela ascensão social – como comprovam os dois exemplos citados - ou então pela manutenção do status quo, como acontece em Crimes e Pecados.

Conceitualmente, O Sonho de Cassandra e Match Point até podem ser semelhantes, porém, no todo, um não poderia ser mais diferente do outro. Enquanto o filme de 2005, mesmo que rodado na Inglaterra, ainda mostra um Allen lidando com temas que lhes são caros, como a alta sociedade e as idiossincrasias da “alta-cultura”, o que faz parecer que ele apenas transferiu seu habitat do Upper West Side para Londres, neste longa de 2007 o que vemos é um cineasta genuinamente interessado no estrangeiro, no desconhecido. Por isso aqui não há óperas, nem jazz, nem citações a Bergman, ou a Dostoievski. No máximo há uma referência a Bonnie e Clyde, Uma Rajada de Balas, de Arthur Penn.

É um filme muito seco, sem qualquer alívio estilístico (seja por meio da narração em off, ou pela câmera lenta, ambos os recursos presentes em Match Point), que chega ao seu clímax subitamente, para então mostrar um policial dizendo algo do tipo “é, a vida é mesmo estranha” e em seguida um contra-plongé que enquadra o barco O Sonho de Cassandra completamente vazio.

17 de maio de 2008

Homem de Ferro, de Jon Favreau e Speed Racer, de Andy e Larry Wachowsky

Começou a temporada de blockbusters.(!(?)) Enquanto na França acontece o Festival de Cannes, e alguns sortudos vêem novos filmes de Lucrecia Martel, James Gray e Irmãos Dardenne, as salas de cinema do resto do mundo são infestadas por super-produções hollywoodianos. No Brasil, semana passada, 80% da programação de qualquer multiplex era formado por dois filmes. Há, porém, uma diferença muito grande entre Homem de Ferro e Speed Racer, que muito diz sobre a proposta dos cinemas de Jon Favreau e dos Irmãos Wachoswky.


O escolhido pela Marvel, agora estúdio de cinema, para dirigir a adaptação de Homem de Ferro para o cinema foi Jon Favreau, que antes dirigiu Um Duende em Nova York, um dos melhores veículos para Will Farrel no cinema, e Zathura, cópia futurística de Jumanji que não vi. Essa escolha parece deixar claro a vontade da Marvel ter um maior controle sobre Homem de Ferro do que o diretor, visto que Favreau está longe de querer ser um autor, apesar de se mostrar razoavelmente competente no que se propõe.

Homem de Ferro fica longe do fracasso completo que é um Quarteto Fantástico ao mesmo tempo que falta muito para ser tão interessante quanto os X-Men de Bryan Singer ou os Homem-Aranha de Sam Raimi. Há mesmo que se desconfiar de um filme de ação de superherói, onde o maior atrativo é a presença de seu ator principal, Robert Downey Jr., que realmente está excelente no papel. Jeff Bridges também chama a atenção, está ótimo e me lembrou William Hurt, não sei exatamente porque, como o vilão deste episódio.

Fica em Homem de Ferro a sensação de mais do mesmo. Divertido na medida do possível, graças especialmente a Downey Jr., o filme não faz nada mais do que tentar repetir uma fórmula de sucesso dos outros recentes superheróis sucessos de bilheterias. Não sei se poderia pedir mais que isso de Homem de Ferro, mas o resultado é um filme inofensivo. A própria crítica às armas e às guerras que faz Tony Stark virar o Homem de Ferro é frágil demais, e os inocentes só morrem, claro, atrás das paredes porque se não fosse assim, a diversão acabaria.

Speed Racer é um caso completamente diferente. Os Irmãos Wachowsky tentam mais uma vez, após Matrix, revolucionar o cinema. E eu digo que conseguiram. Speed Racer é um filme único, diferente de tudo que já se viu na telona. O sucesso de público não veio, o filme é ousado demais, colorido, completamente psicodélico no seu uso de CGI, e o que deixa tudo isso mais inovador é que essa viagem toda está inserida dentro de uma trama infantil, com direito até a chimpanzé engraçadinho.

Bizarro. Genial.

Já faz alguns anos que não jogo mais videogames, mas a sensação de influência dos games em Speed Racer parece gigantesca, e as corridas me fizeram lembrar de jogos como F Zero e Top Gear. É um filme que não existiria não fosse o Super Nintendo.

A viagem dos Wachowsky, que devem ter fumado muito nos últimos 4 anos, começa logo nos primeiros minutos, com o personagem Speed Racer criança, na escola. Em meio a uma prova qualquer, ele se imagina numa corrida. O garoto, em sua cadeira, se vê de repente rodeado de cores mais diversas, com efeitos especiais que depois serão recorrentes em todo o filme.

As corridas são simplesmente um show de cores. Há, inclusive, alguns planos curtos, durante as corridas, que são apenas alguns fachos de luz e cores que percorrem a tela. Pode-se dizer que são planos abstratos, onde não é possível identificar exatamente o que se está vendo. Isso só deixa a coisa toda ainda mais bizarra e louca, no melhor sentido desses termos.

Muito me fascina em Hollywood, apesar de seus pesares, a possibilidade dessa indústria financiar com dezenas de milhões de dólares idéias malucas de alguns autores (ou apenas diretores malucos, como queiram) para esses fazerem os filmes que querem. Mesmo que apenas uma vez. È prazeroso saber que os Wachowsky tiverem cerca de 100 milhões de dólares para realizar essa loucura que é Speed Racer, ou que Tim Burton torrou 50 milhões em um musical sanguinolento e pessimista como Sweeney Todd. Mas é triste saber que estas são algumas exceções, e o dinheiro geralmente vai para produções mais covardes e dentro de um esquema, tal como Homem de Ferro (que é um bom filme covarde e dentro de um esquema). São as coisas como são.

12 de maio de 2008

Memórias de um Homem Invisível, de John Carpenter


No começo, especialmente pela forma como apresenta seus personagens, Memórias de um Homem Invisível dá a impressão de ser um típico filme Sessão da Tarde. Chevy Chase interpretando o papel principal, aliás, só faz aumentar essa sensação de comédia oitentista (o filme é de 1992). Mas após o incidente que torna o personagem de Chase invisível, percebemos que estamos sim diante de um típico filme de John Carpenter.

Nick Holloway é um cara meio vagabundo, ganha bem, mas não liga muito para seu emprego, não tem família, nem amigos de verdade. Após um dia de trabalho conhece num clube Alice (Daryl Hannah, linda como nunca), a atração é momentânea, eles dão uns amassos no banheiro feminino e marcam de se encontrar outro dia. Por não ter conseguido levá-la pra casa, Nick resolve beber umas e outras, e acaba indo de ressaca para uma palestra na manhã seguinte. Durante a tal palestra, Nick resolve dormir um pouco no banheiro. É quando acontece uma explosão. Todos conseguem evacoar rapidamente do prédio menos Nick, que dormia no banheiro.

Acontece que o prédio era palco de algumas experiências nucleares e, com a explosão, reações fazem Nick se tornar invisível. O próprio prédio não chega a explodir, apenas se torna, em partes, invisível, o que já revela a primeira impressionante imagem de Memórias de um Homem Invisível.

Uma coisa interessante é que a tal explosão é causada por uma simples xícara de café(!) que cai no teclado de um computador. Depois do café, as coisas começam a pegar fogo até que tudo explode. Se desde o começo já sabemos que o personagem principal se tornará invisível, na primeira cena com um homem invisível se confessando em frente a uma câmera ou somente lendo o título do filme, não há uma necessidade de justificar isto de uma forma verossímil. Essa transformação pode ser feita da forma menos crível e mais banal possível. O filme precisa acontecer, o que importa é que o personagem fique invisível, e não a forma como isso acontece.

Depois da explosão Memórias de um Homem Invisível perde boa parte do seu tom cômico, mas o protagonista é Chevy Chase e algumas gags, portanto, são inevitáveis. Quando se torna invisível, o herói do filme não pode confiar em mais ninguém. Da polícia ao o cientista que fazia as experiências no prédio, ao saber da existência de uma pessoa invisível, ninguém dá a mínima importância para essa pessoa, e a intenção é apenas de alguma forma se aproveitar dessa descoberta. A confiança para Nick só virá em Alice, a quem ele mostra que está invisível quando tem a oportunidade.

O filme nunca chega a se situar como um exemplar do gênero terror, mas a idéia de um homem invisível traz à tona vários temas de interesse do “mestre do terror” John Carpenter. Até se revelar para Alice, o personagem principal precisa levar sua invisibilidade ao extremo, ele precisa desaparecer por completo para poder continuar a viver. Uma das coisas mais aterrorizantes que pode acontecer a alguém é viver completamente sozinho, então Memórias de um Homem Invisível pode, no fundo, ser considerado dos mais horrorosos filmes do Carpenter.

Assim como o protagonista de À Beira de Loucura, o homem invisível está completamente sozinho em sua jornada. Chevy Chase encarna um personagem que só não tem o mesmo fim do personagem de Sam Neill em À Beira da Loucura, um homem afundado completamente em sua loucura verdadeira, porque aqui há uma pessoa amada em quem ele pode confiar.

Considerado dos piores filmes de Carpenter, Memórias de um Homem Invisível é uma interessante obra na filmografia desse grande cineasta. Feito depois da obra-prima Eles Vivem, essa mistura torta de comédia e ficção científica é uma tentativa de Carpenter fazer algo mais comercial. Uma tentativa que não foi lá muito bem sucedida, comercialmente falando. Mesmo assim, interessantíssimo pelos temas que aborda e por ter dado a Chevy Chase o melhor personagem de sua carreira. Há ainda o genial uso dos efeitos especiais, que mostra a alguns filmes de hoje e aos George Lucas da vida (e isso também pode se extender ao O Homem sem Sombra, filme sério e ruim de Paul Verhoeven sobre um homem invisível), que às vezes menos é mais. Efeitos especiais podem ser usados genialmente.

4 de maio de 2008

Southland Tales: O Fim do Mundo, de Richard Kelly


Bem estranho esse segundo longa-metragem do diretor de Donnie Darko. Beeem estranho. Sabe-se que Richard Kelly teve inúmeros problemas com este Southland Tales: O Fim do Mundo (malditos subtítulos brasileiros!), especialmente na pós-produção, no que diz respeito aos efeitos especiais e a própria montagem do filme. Afinal, houve um espaço de mais de um ano desde a primeira exibição, em 2006, com uma versão de 3 horas, na disputa pela Palma de Ouro no Festival de Cannes, até o lançamento no circuito americano, no fim de 2007 (fracasso de público e crítica, por sinal), com essa versão de 144 minutos que está sendo lançada direto em dvd no Brasil.

De fato, Southland Tales se mostra bem problemático em sua narrativa, muito confusa. A impressão é que Kelly fez um roteiro grande demais e ambicioso demais, e depois se perdeu na montagem. Pressões do estúdio também devem ter atrapalhado, creio eu. Há muita coisa acontecendo o tempo todo, são tantas subtramas que, em certo momento, Kelly até flerta com uma maneira Robert Altman de contar sua história, mostrando alguns breves momentos de seus inúmeros personagens nessa Los Angeles futurística onde o filme se situa.

Com Donnie Darko, Kelly recebeu algumas comparações com David Lynch. Alguns chegaram a dizer que Kelly seria uma espécie de Lynch adolescente. Eu discordo das comparações com Lynch, acho os cinemas dos dois bem distintos, mas Southland Tales mostra que Richard Kelly realmente tem um jeito bem adolescente de enxergar o mundo. Mesmo em uma trama envolvendo guerras, experiências nucleares, eleições políticas e o apocalipse final, Kelly perde um bom tempo de seu filme com piadas bobas envolvendo sexo. Existe coisa mais adolescente que isso?

Mas se em Donnie Darko os personagens principais eram jovens adolescentes e suas conversas sobre a sexualidade dos Smurfs eram engraçadas e, de certa forma, cool, em Southland Tales momentos como a propaganda de uma grande empresa com carros fazendo sexo, ou algumas tiradas envolvendo Garganta Profunda e a indústria pornô, soam apenas como piadas internas e gratuitas do diretor. Estamos diante de uma trama grandiosa que envolve líderes mundiais e o apocalipse, e não de um jovem adolescente que vê um coelho bizarro em uma cidade pequena. Piadas bobas geralmente não funcionam em tramas grandiosas.

Outra semelhança com o primeiro filme do diretor é a trilha com algumas canções de rock famosas. Donnie Darko se passava nos anos 80 e era embalado por algumas canções típicas dessa época, como “Love Will Tear Us Apart”, do Joy Division, e “The Killing Moon”, do Echo & the Bunnymen. Southland Tales se passa em 2008 e há na trilha algumas famosas bandas indie dos anos 00, como Muse, Black Rebel Motorcycle Club e The Killers. Aliás, é ao som uma das melhores músicas do The Killers que Justin Timberlake protagonista uma das poucas cenas geniais do filme. Se Southland Tales fosse bom, esta cena já seria antológica.

Como Justin Timberlake foi mencionado, vale dizer o quão curioso é a escolha do elenco, por parte de Richard Kelly. Os papéis principais são interpretados por alguns astros hollywoodianos de qualidade mais que duvidosa (onde The Rock e Timberlake surpreendem e mostram que podem ser bons atores, enquanto Sarah Michelle Geller deveria pedir aposentadoria de vez), enquanto o elenco coadjuvante é formado por rostos típicos de comediantes americanos (contei pelo menos 3 ex-integrantes do Saturday Night Live). Há ainda algumas aparições famosas que pouco contribuem ao filme, como Christopher Lambert e um Kevin Smith cheio de maquiagem. O casting deve ter sido outra piada de Richard Kelly. Mais uma que não deu certo.

Apesar de tudo isso, da irregularidade do filme, da confusão do roteiro, e de tiroteios que deixaram Michael Mann envergonhado, ainda é possível ver um cineasta muito bom, e corajoso, por trás deste equívoco que é Southland Tales. Em meio aos constrangimentos alheios, há pelos menos umas 3 ou 4 cenas muito, muito boas. Justin dublando The Killers é uma, o caminhão de sorvetes flutuando ao final é outra. São cenas que mostram um diretor que acredita naquilo filma, e ainda que tenha de amadurecer um pouco, Richard Kelly tem potencial para construir uma carreira interessantíssima, desde que tenha um bom e redondo roteiro em mãos. Donnie Darko é uma prova disso.

3 de maio de 2008

O Massacre da Serra Elétrica 2, de Tobe Hooper

Alguns caras nascem amaldiçoados. Conseguem fazer algo muito bom praticamente já na primeira tentativa. Depois passam a vida inteira assombrados por este êxito inicial. Um caso célebre é o de Mário Peixoto, que após o inigualável Limite, nunca mais conseguiu realizar um filme. Este é um exemplo extremo, em que o peso de uma estréia brilhante sufocou de vez um criador.

Mas há outros, menos trágicos, como o de Steven Soderbergh e Thomas Vintenberg, que com Sexo, Mentiras e Videotape e Festa de Família, respectivamente, conseguiram grande visibilidade mundial. Ambos, além do sobrenome que rima, possuem em comum o fato de terem ganhado prêmios em Cannes (um a Palma de Ouro e o outro o prêmio do juri) logo no começo da carreira e de caírem em decadência logo depois (oquei, Soderbergh até beliscou alguns prêmios com Traffic, mas, digamos, “prestígio artístico”, ele nunca mais conseguiu).

É assim que chegamos a Tobe Hooper. Nascido em Austin, no Texas, o cineasta, em 1974, lançou uma das obras-primas do cinema de gênero. O Massacre da Serra Elétrica é o segundo longa-metragem de Hopper (o primeiro, chamado Eggshels, é raríssimo) é absolutamente impressionante e, é claro foi o responsável por afundar a carreira do texano.

Ano após ano, sempre à sombra da poderosa serra elétrica de Leatherface, o diretor se meteu em inúmeros projetos fracassados. A exceção talvez tenha sido Poltergeist, lançado em 1982 (há muitas lendas, porém, que afirmam ter sido o produtor executivo Steven Spielberg e não Hooper quem realmente dirigiu este filme; todas as escolhas criativas teriam ficado por conta de Spielberg; A Hooper teria restado apenas gritar “corta!” em alguns momentos).

Até que, em 1986, o cineasta resolveu aceitar a proposta de realizar uma continuação de sua obra máxima. Custando muito mais dinheiro (U$ 4, 700, 000 para este longa-metragem e U$ 83,532 para o primeiro , segundo o IMDB) e com Dennis Hopper no elenco, O Massacre da Serra Elétrica 2 provou que seria realmente difícil Tobe voltar a fazer algo significativo pelo gênero terror outra vez. Não que ele tenha tentando.

Afinal O Massacre da Serra Elétrica 2 empenha-se muito mais em causar riso do que pavor. Da fotografia – que abusa de tons vermelhos, diferente do sépia de O Massacre da Serra Elétrica - a caracterização dos personagens – quase sempre tendendo a comédia-, fica clara a intenção de Hooper em fugir do filme de 1974.

Mas, na verdade, do terceiro ato em diante, o que se tem é uma releitura do primeiro longa-metragem. Em ambos os casos a protagonista é presa em algum lugar escuro que representa o inferno e da lá, obviamente, precisam sair: no primeiro, em uma cabana, no segundo no subsolo de um parque temático abandonado. Elas conseguem e os dois filmes terminam com as personagens bradando serras elétricas sob o sol de fim de tarde.

O que chama mais atenção, porém, não é a relação entre os dois longas-metragens, mas sim a relação de O Massacre da Serra Elétrica 2 com a cultura pop. Isto se dá já a partir de um dos pôsteres de divulgação que, bizarramente, remete a O Clube Dos Cinco, de John Hughes. Há também diálogos que citam Rambo III (que, na época não havia nem sido rodado ainda), direção de arte que cita a famosa capa censurada do disco dos Beatles – em que os quatro aparecem em meio a bonecos decepados e pedaços de carne-, entre outras coisas. Este segundo filme, por estas e outras, se mostra completamente o oposto do primeiro: lá era um produto independente, vindo do subsolo; aqui é um produto já pertencente ao mainstream e que é totalmente consciente disto.