Começou a temporada de blockbusters.(!(?)) Enquanto na França acontece o Festival de Cannes, e alguns sortudos vêem novos filmes de Lucrecia Martel, James Gray e Irmãos Dardenne, as salas de cinema do resto do mundo são infestadas por super-produções hollywoodianos. No Brasil, semana passada, 80% da programação de qualquer multiplex era formado por dois filmes. Há, porém, uma diferença muito grande entre Homem de Ferro e Speed Racer, que muito diz sobre a proposta dos cinemas de Jon Favreau e dos Irmãos Wachoswky.

O escolhido pela Marvel, agora estúdio de cinema, para dirigir a adaptação de Homem de Ferro para o cinema foi Jon Favreau, que antes dirigiu Um Duende em Nova York, um dos melhores veículos para Will Farrel no cinema, e Zathura, cópia futurística de Jumanji que não vi. Essa escolha parece deixar claro a vontade da Marvel ter um maior controle sobre Homem de Ferro do que o diretor, visto que Favreau está longe de querer ser um autor, apesar de se mostrar razoavelmente competente no que se propõe.
Homem de Ferro fica longe do fracasso completo que é um Quarteto Fantástico ao mesmo tempo que falta muito para ser tão interessante quanto os X-Men de Bryan Singer ou os Homem-Aranha de Sam Raimi. Há mesmo que se desconfiar de um filme de ação de superherói, onde o maior atrativo é a presença de seu ator principal, Robert Downey Jr., que realmente está excelente no papel. Jeff Bridges também chama a atenção, está ótimo e me lembrou William Hurt, não sei exatamente porque, como o vilão deste episódio.
Fica em Homem de Ferro a sensação de mais do mesmo. Divertido na medida do possível, graças especialmente a Downey Jr., o filme não faz nada mais do que tentar repetir uma fórmula de sucesso dos outros recentes superheróis sucessos de bilheterias. Não sei se poderia pedir mais que isso de Homem de Ferro, mas o resultado é um filme inofensivo. A própria crítica às armas e às guerras que faz Tony Stark virar o Homem de Ferro é frágil demais, e os inocentes só morrem, claro, atrás das paredes porque se não fosse assim, a diversão acabaria.
Já Speed Racer é um caso completamente diferente. Os Irmãos Wachowsky tentam mais uma vez, após Matrix, revolucionar o cinema. E eu digo que conseguiram. Speed Racer é um filme único, diferente de tudo que já se viu na telona. O sucesso de público não veio, o filme é ousado demais, colorido, completamente psicodélico no seu uso de CGI, e o que deixa tudo isso mais inovador é que essa viagem toda está inserida dentro de uma trama infantil, com direito até a chimpanzé engraçadinho.
Bizarro. Genial.
Já faz alguns anos que não jogo mais videogames, mas a sensação de influência dos games em Speed Racer parece gigantesca, e as corridas me fizeram lembrar de jogos como F Zero e Top Gear. É um filme que não existiria não fosse o Super Nintendo.
A viagem dos Wachowsky, que devem ter fumado muito nos últimos 4 anos, começa logo nos primeiros minutos, com o personagem Speed Racer criança, na escola. Em meio a uma prova qualquer, ele se imagina numa corrida. O garoto, em sua cadeira, se vê de repente rodeado de cores mais diversas, com efeitos especiais que depois serão recorrentes em todo o filme.
As corridas são simplesmente um show de cores. Há, inclusive, alguns planos curtos, durante as corridas, que são apenas alguns fachos de luz e cores que percorrem a tela. Pode-se dizer que são planos abstratos, onde não é possível identificar exatamente o que se está vendo. Isso só deixa a coisa toda ainda mais bizarra e louca, no melhor sentido desses termos.
Muito me fascina em Hollywood, apesar de seus pesares, a possibilidade dessa indústria financiar com dezenas de milhões de dólares idéias malucas de alguns autores (ou apenas diretores malucos, como queiram) para esses fazerem os filmes que querem. Mesmo que apenas uma vez. È prazeroso saber que os Wachowsky tiverem cerca de 100 milhões de dólares para realizar essa loucura que é Speed Racer, ou que Tim Burton torrou 50 milhões em um musical sanguinolento e pessimista como Sweeney Todd. Mas é triste saber que estas são algumas exceções, e o dinheiro geralmente vai para produções mais covardes e dentro de um esquema, tal como Homem de Ferro (que é um bom filme covarde e dentro de um esquema). São as coisas como são.