3 de maio de 2008

O Massacre da Serra Elétrica 2, de Tobe Hooper

Alguns caras nascem amaldiçoados. Conseguem fazer algo muito bom praticamente já na primeira tentativa. Depois passam a vida inteira assombrados por este êxito inicial. Um caso célebre é o de Mário Peixoto, que após o inigualável Limite, nunca mais conseguiu realizar um filme. Este é um exemplo extremo, em que o peso de uma estréia brilhante sufocou de vez um criador.

Mas há outros, menos trágicos, como o de Steven Soderbergh e Thomas Vintenberg, que com Sexo, Mentiras e Videotape e Festa de Família, respectivamente, conseguiram grande visibilidade mundial. Ambos, além do sobrenome que rima, possuem em comum o fato de terem ganhado prêmios em Cannes (um a Palma de Ouro e o outro o prêmio do juri) logo no começo da carreira e de caírem em decadência logo depois (oquei, Soderbergh até beliscou alguns prêmios com Traffic, mas, digamos, “prestígio artístico”, ele nunca mais conseguiu).

É assim que chegamos a Tobe Hooper. Nascido em Austin, no Texas, o cineasta, em 1974, lançou uma das obras-primas do cinema de gênero. O Massacre da Serra Elétrica é o segundo longa-metragem de Hopper (o primeiro, chamado Eggshels, é raríssimo) é absolutamente impressionante e, é claro foi o responsável por afundar a carreira do texano.

Ano após ano, sempre à sombra da poderosa serra elétrica de Leatherface, o diretor se meteu em inúmeros projetos fracassados. A exceção talvez tenha sido Poltergeist, lançado em 1982 (há muitas lendas, porém, que afirmam ter sido o produtor executivo Steven Spielberg e não Hooper quem realmente dirigiu este filme; todas as escolhas criativas teriam ficado por conta de Spielberg; A Hooper teria restado apenas gritar “corta!” em alguns momentos).

Até que, em 1986, o cineasta resolveu aceitar a proposta de realizar uma continuação de sua obra máxima. Custando muito mais dinheiro (U$ 4, 700, 000 para este longa-metragem e U$ 83,532 para o primeiro , segundo o IMDB) e com Dennis Hopper no elenco, O Massacre da Serra Elétrica 2 provou que seria realmente difícil Tobe voltar a fazer algo significativo pelo gênero terror outra vez. Não que ele tenha tentando.

Afinal O Massacre da Serra Elétrica 2 empenha-se muito mais em causar riso do que pavor. Da fotografia – que abusa de tons vermelhos, diferente do sépia de O Massacre da Serra Elétrica - a caracterização dos personagens – quase sempre tendendo a comédia-, fica clara a intenção de Hooper em fugir do filme de 1974.

Mas, na verdade, do terceiro ato em diante, o que se tem é uma releitura do primeiro longa-metragem. Em ambos os casos a protagonista é presa em algum lugar escuro que representa o inferno e da lá, obviamente, precisam sair: no primeiro, em uma cabana, no segundo no subsolo de um parque temático abandonado. Elas conseguem e os dois filmes terminam com as personagens bradando serras elétricas sob o sol de fim de tarde.

O que chama mais atenção, porém, não é a relação entre os dois longas-metragens, mas sim a relação de O Massacre da Serra Elétrica 2 com a cultura pop. Isto se dá já a partir de um dos pôsteres de divulgação que, bizarramente, remete a O Clube Dos Cinco, de John Hughes. Há também diálogos que citam Rambo III (que, na época não havia nem sido rodado ainda), direção de arte que cita a famosa capa censurada do disco dos Beatles – em que os quatro aparecem em meio a bonecos decepados e pedaços de carne-, entre outras coisas. Este segundo filme, por estas e outras, se mostra completamente o oposto do primeiro: lá era um produto independente, vindo do subsolo; aqui é um produto já pertencente ao mainstream e que é totalmente consciente disto.