12 de maio de 2008

Memórias de um Homem Invisível, de John Carpenter


No começo, especialmente pela forma como apresenta seus personagens, Memórias de um Homem Invisível dá a impressão de ser um típico filme Sessão da Tarde. Chevy Chase interpretando o papel principal, aliás, só faz aumentar essa sensação de comédia oitentista (o filme é de 1992). Mas após o incidente que torna o personagem de Chase invisível, percebemos que estamos sim diante de um típico filme de John Carpenter.

Nick Holloway é um cara meio vagabundo, ganha bem, mas não liga muito para seu emprego, não tem família, nem amigos de verdade. Após um dia de trabalho conhece num clube Alice (Daryl Hannah, linda como nunca), a atração é momentânea, eles dão uns amassos no banheiro feminino e marcam de se encontrar outro dia. Por não ter conseguido levá-la pra casa, Nick resolve beber umas e outras, e acaba indo de ressaca para uma palestra na manhã seguinte. Durante a tal palestra, Nick resolve dormir um pouco no banheiro. É quando acontece uma explosão. Todos conseguem evacoar rapidamente do prédio menos Nick, que dormia no banheiro.

Acontece que o prédio era palco de algumas experiências nucleares e, com a explosão, reações fazem Nick se tornar invisível. O próprio prédio não chega a explodir, apenas se torna, em partes, invisível, o que já revela a primeira impressionante imagem de Memórias de um Homem Invisível.

Uma coisa interessante é que a tal explosão é causada por uma simples xícara de café(!) que cai no teclado de um computador. Depois do café, as coisas começam a pegar fogo até que tudo explode. Se desde o começo já sabemos que o personagem principal se tornará invisível, na primeira cena com um homem invisível se confessando em frente a uma câmera ou somente lendo o título do filme, não há uma necessidade de justificar isto de uma forma verossímil. Essa transformação pode ser feita da forma menos crível e mais banal possível. O filme precisa acontecer, o que importa é que o personagem fique invisível, e não a forma como isso acontece.

Depois da explosão Memórias de um Homem Invisível perde boa parte do seu tom cômico, mas o protagonista é Chevy Chase e algumas gags, portanto, são inevitáveis. Quando se torna invisível, o herói do filme não pode confiar em mais ninguém. Da polícia ao o cientista que fazia as experiências no prédio, ao saber da existência de uma pessoa invisível, ninguém dá a mínima importância para essa pessoa, e a intenção é apenas de alguma forma se aproveitar dessa descoberta. A confiança para Nick só virá em Alice, a quem ele mostra que está invisível quando tem a oportunidade.

O filme nunca chega a se situar como um exemplar do gênero terror, mas a idéia de um homem invisível traz à tona vários temas de interesse do “mestre do terror” John Carpenter. Até se revelar para Alice, o personagem principal precisa levar sua invisibilidade ao extremo, ele precisa desaparecer por completo para poder continuar a viver. Uma das coisas mais aterrorizantes que pode acontecer a alguém é viver completamente sozinho, então Memórias de um Homem Invisível pode, no fundo, ser considerado dos mais horrorosos filmes do Carpenter.

Assim como o protagonista de À Beira de Loucura, o homem invisível está completamente sozinho em sua jornada. Chevy Chase encarna um personagem que só não tem o mesmo fim do personagem de Sam Neill em À Beira da Loucura, um homem afundado completamente em sua loucura verdadeira, porque aqui há uma pessoa amada em quem ele pode confiar.

Considerado dos piores filmes de Carpenter, Memórias de um Homem Invisível é uma interessante obra na filmografia desse grande cineasta. Feito depois da obra-prima Eles Vivem, essa mistura torta de comédia e ficção científica é uma tentativa de Carpenter fazer algo mais comercial. Uma tentativa que não foi lá muito bem sucedida, comercialmente falando. Mesmo assim, interessantíssimo pelos temas que aborda e por ter dado a Chevy Chase o melhor personagem de sua carreira. Há ainda o genial uso dos efeitos especiais, que mostra a alguns filmes de hoje e aos George Lucas da vida (e isso também pode se extender ao O Homem sem Sombra, filme sério e ruim de Paul Verhoeven sobre um homem invisível), que às vezes menos é mais. Efeitos especiais podem ser usados genialmente.