Bem estranho esse segundo longa-metragem do diretor de Donnie Darko. Beeem estranho. Sabe-se que Richard Kelly teve inúmeros problemas com este Southland Tales: O Fim do Mundo (malditos subtítulos brasileiros!), especialmente na pós-produção, no que diz respeito aos efeitos especiais e a própria montagem do filme. Afinal, houve um espaço de mais de um ano desde a primeira exibição, em 2006, com uma versão de 3 horas, na disputa pela Palma de Ouro no Festival de Cannes, até o lançamento no circuito americano, no fim de 2007 (fracasso de público e crítica, por sinal), com essa versão de 144 minutos que está sendo lançada direto em dvd no Brasil.
De fato, Southland Tales se mostra bem problemático em sua narrativa, muito confusa. A impressão é que Kelly fez um roteiro grande demais e ambicioso demais, e depois se perdeu na montagem. Pressões do estúdio também devem ter atrapalhado, creio eu. Há muita coisa acontecendo o tempo todo, são tantas subtramas que, em certo momento, Kelly até flerta com uma maneira Robert Altman de contar sua história, mostrando alguns breves momentos de seus inúmeros personagens nessa Los Angeles futurística onde o filme se situa.
Com Donnie Darko, Kelly recebeu algumas comparações com David Lynch. Alguns chegaram a dizer que Kelly seria uma espécie de Lynch adolescente. Eu discordo das comparações com Lynch, acho os cinemas dos dois bem distintos, mas Southland Tales mostra que Richard Kelly realmente tem um jeito bem adolescente de enxergar o mundo. Mesmo em uma trama envolvendo guerras, experiências nucleares, eleições políticas e o apocalipse final, Kelly perde um bom tempo de seu filme com piadas bobas envolvendo sexo. Existe coisa mais adolescente que isso?
Mas se em Donnie Darko os personagens principais eram jovens adolescentes e suas conversas sobre a sexualidade dos Smurfs eram engraçadas e, de certa forma, cool, em Southland Tales momentos como a propaganda de uma grande empresa com carros fazendo sexo, ou algumas tiradas envolvendo Garganta Profunda e a indústria pornô, soam apenas como piadas internas e gratuitas do diretor. Estamos diante de uma trama grandiosa que envolve líderes mundiais e o apocalipse, e não de um jovem adolescente que vê um coelho bizarro em uma cidade pequena. Piadas bobas geralmente não funcionam em tramas grandiosas.
Outra semelhança com o primeiro filme do diretor é a trilha com algumas canções de rock famosas. Donnie Darko se passava nos anos 80 e era embalado por algumas canções típicas dessa época, como “Love Will Tear Us Apart”, do Joy Division, e “The Killing Moon”, do Echo & the Bunnymen. Southland Tales se passa em 2008 e há na trilha algumas famosas bandas indie dos anos 00, como Muse, Black Rebel Motorcycle Club e The Killers. Aliás, é ao som uma das melhores músicas do The Killers que Justin Timberlake protagonista uma das poucas cenas geniais do filme. Se Southland Tales fosse bom, esta cena já seria antológica.
Como Justin Timberlake foi mencionado, vale dizer o quão curioso é a escolha do elenco, por parte de Richard Kelly. Os papéis principais são interpretados por alguns astros hollywoodianos de qualidade mais que duvidosa (onde The Rock e Timberlake surpreendem e mostram que podem ser bons atores, enquanto Sarah Michelle Geller deveria pedir aposentadoria de vez), enquanto o elenco coadjuvante é formado por rostos típicos de comediantes americanos (contei pelo menos 3 ex-integrantes do Saturday Night Live). Há ainda algumas aparições famosas que pouco contribuem ao filme, como Christopher Lambert e um Kevin Smith cheio de maquiagem. O casting deve ter sido outra piada de Richard Kelly. Mais uma que não deu certo.
Apesar de tudo isso, da irregularidade do filme, da confusão do roteiro, e de tiroteios que deixaram Michael Mann envergonhado, ainda é possível ver um cineasta muito bom, e corajoso, por trás deste equívoco que é Southland Tales. Em meio aos constrangimentos alheios, há pelos menos umas 3 ou 4 cenas muito, muito boas. Justin dublando The Killers é uma, o caminhão de sorvetes flutuando ao final é outra. São cenas que mostram um diretor que acredita naquilo filma, e ainda que tenha de amadurecer um pouco, Richard Kelly tem potencial para construir uma carreira interessantíssima, desde que tenha um bom e redondo roteiro em mãos. Donnie Darko é uma prova disso.
4 de maio de 2008
Southland Tales: O Fim do Mundo, de Richard Kelly
por
Christopher Faust
às
03:01:00
Marcadores: Richard Kelly
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