19 de maio de 2008

O Sonho de Cassandra, de Woody Allen

O primeiro e o último plano de O Sonho de Cassandra mostram um barco a velas, homônimo ao título do filme. Não é nem preciso recorrer à semiótica para que se perceba a importância deste objeto náutico. Não é preciso muito para notar como o veleiro adquire um valor essencial na (e para) história dos dois irmãos ingleses de classe-baixa cuja intenção é “subir na vida”.

A partir da compra do barco pelos irmãos (que barganham e mentem para conseguir um preço mais baixo do vendedor), vemos, já nos primeiros minutos, aspectos da personalidade destes personagens que mais adiante despontarão. Tudo como uma economia de imagens e palavras - esta última algo raro na filmografia do cineasta, diga-se de passagem - impressionante.

Não fica difícil perceber que Ian e Terry são bastante unidos e que almejam mais do que podem ter, e que, para isso, não hesitam em mentir. Toda a situação é aparentemente banal, mas, na verdade, serve para Allen dispor as cartas para o público logo de uma vez. Ele quer nos avisar quem é quem neste jogo de aparências representado por quem vive nesta sociedade britânica. Só pela vestimenta e por fiapos de diálogos vemos que Terry é o trabalhador braçal, instintivo, e que usa uma jaqueta velha, enquanto Ian é racional e usa terno.

Nas cenas seguintes vai reiterando esta primeira impressão (inclusive cuidando para que os dois personagens vistam exatamente a mesma jaqueta de couro e o mesmo terno, em diversos momentos importantes). Sem nenhum alívio (outra vez, seja por meio de imagens ou palavras), Allen mostra os irmãos em seus respectivos mundos, diferentes, mas absolutamente iguais na essência, ou seja, em um lugar indesejado – a clase-média baixa – do qual tentam fugir quase desesperadamente. Seja jogando de forma compulsiva, como faz Terry, ou então fingindo ser um empresário do ramo de hotéis, como faz Ian, para conquistar a bela atriz e então ascender socialmente.

Até que entra na história a figura do tio (que até então era sempre mencionado verbalmente por outros personagens) e com ele vem a possibilidade do assassinato como forma de sair do buraco cinza que é a classe-média baixa. A semelhança de O Sonho de Cassandra com seu filme-irmão Match Point, à partir deste ponto, se torna óbvia. Allen tem certa obsessão por assassinatos motivados pela ascensão social – como comprovam os dois exemplos citados - ou então pela manutenção do status quo, como acontece em Crimes e Pecados.

Conceitualmente, O Sonho de Cassandra e Match Point até podem ser semelhantes, porém, no todo, um não poderia ser mais diferente do outro. Enquanto o filme de 2005, mesmo que rodado na Inglaterra, ainda mostra um Allen lidando com temas que lhes são caros, como a alta sociedade e as idiossincrasias da “alta-cultura”, o que faz parecer que ele apenas transferiu seu habitat do Upper West Side para Londres, neste longa de 2007 o que vemos é um cineasta genuinamente interessado no estrangeiro, no desconhecido. Por isso aqui não há óperas, nem jazz, nem citações a Bergman, ou a Dostoievski. No máximo há uma referência a Bonnie e Clyde, Uma Rajada de Balas, de Arthur Penn.

É um filme muito seco, sem qualquer alívio estilístico (seja por meio da narração em off, ou pela câmera lenta, ambos os recursos presentes em Match Point), que chega ao seu clímax subitamente, para então mostrar um policial dizendo algo do tipo “é, a vida é mesmo estranha” e em seguida um contra-plongé que enquadra o barco O Sonho de Cassandra completamente vazio.