3 de agosto de 2008

Arquivo X: Eu Quero Acreditar, de Chris Carter


Arquivo X não é sobre monstros, ets, comedores de fígado, psicopatas, videntes, canibais, combustões espontâneas ou conspirações governamentais. É sobre um homem e uma mulher que buscam alguma coisa. Na tv é possível que, em alguns momentos, a série tenha se focado menos no homem e na mulher e mais nos ets/conspiração governamental, mas isso sempre foi exceção.

O que se via, na maioria das vezes, era Fox Mulder procurando a “verdade” (simbolicamente, o paradeiro da irmã que teria sido abduzida por ets), seguida de perto por Dana Scully, cuja busca estava centrada em descobrir nela mesma a “verdade” (vencer o ceticismo para então ter a mente livre, capaz de aceitar as peculiaridades do universo diegético criado por Chris Carter).

Além das questões individuais, havia o relacionamento entre os dois agentes como força impulsora da série. A maneira como as características de um (subjetividade, sabedoria popular) se misturavam com as do outro (racionalidade sabedoria científica), fazendo assim com que surgisse o “aprendizado” – algo que provém da narrativa clássica e é um lugar-comum na televisão norte-americana, mas que funcionava muito bem aqui - , se constituía numa das maiores atrações do programa. Apesar de tudo, no entanto, havia uma preocupação com a trama.

Em Arquivo X: Eu Quero Acreditar, a trama fica quase relegada à condição de Mcguffin (para facilitar, estou considerando aqui como trama toda a historinha sobre os assassinatos etc). O que parece interessar a Carter é criar um acontecimento que sirva apenas como desculpa para o encontro entre Mulder e Scully (ingênua mas interessante a brincadeira com a decupagem que atrasa a aparição do rosto barbudo do agente).

Não interessa nem o período de cinco anos em que, diegeticamente, os dois ficaram afastados. Interessa apenas encontro destes dois corpos que já mostram claros sinais de envelhecimento. Corpos estes que sempre estiveram (para quem acompanhou a série) muito próximos, mas, pouquíssimas vezes próximos o suficiente para que os lábios de um encostasse nos do outro.

A partir do momento em que de fato se dá o encontro, Carter vai dando cada vez menos importância à trama em si. Interessa-lhe mais a maneira como a ela afeta os dois personagens do que como será resolvida. Por isso é que de todos os personagens secundários que surgem na tela, o único com relevância é o padre pedófilo. Este homem, além de ter a função de acrescentar a parcela sobrenatural (ou não...) do filme, é uma interessante “questão moral”, que vai perturbar principalmente Scully.

A figura do padre, além disso, é quem faz avançar a trama, que, quando se resolve, é surpreendente, tamanha é a franqueza com que Carter mostra suas intenções (tratar a “historinha” de forma absolutamente secundária). Quase como em Dália Negra, em que De Palma conduz a “cena de explicação” de maneira absolutamente vertiginosa, como se quisesse livrar-se logo daquilo, Carter reduz sua “cena de explicação” a basicamente uma manchete de jornal. Sem contar que, segundos antes, o diretor interrompe bruscamente o clímax do filme, tirando o combalido Mulder do centro da ação para o conforto de sua casa. Uma elipse que, de tão explícita, está no limite da transparência almejada pela narrativa clássica.

Resolvida a historinha (pouco é revelado sobre as intenções dos vilões...se é que são vilões, na verdade, e isso é genial), Carter vai para o que (lhe) interessa: o contato físico entre os dois corpos. Anteriormente no filme vemos uma cena em que os dois agentes aparecem na cama, mas mal há um beijo entre eles. Depois deste momento, fica claro que teremos outro, talvez mais completo. E, assim como no cinema clássico, ele vem apenas no final.

Sob a luz do sol e visto sob dois eixos de câmera diferentes, vemos o herói beijar a heroína (ou vice-versa). O contato entre as duas verdades, agora já alcançadas, gerando a troca e, consequentemente, o aprendizado: método infalível para a construção de relacionamentos entre dois personagens, que,mais uma vez, se mostrou... infalível!