10 de agosto de 2008

The Perfect Human, de Jorgen Leth


Jurando que não é uma piada, François Truffaut escreveu que os filmes do cinema-verdade deveriam ser exibidos de graça. Para ele, é justo que se cobre para mostrar uma mentira organizada, mas não uma verdade confusa (ou, então, uma verdade organizada).

Do comentário do diretor francês pode-se pinçar a expressão verdade organizada e daí partir para uma análise que mal caberia em um livro. Obviamente, não tenho esta pretensão. Mas, para falar de The Perfect Human, o emprego da expressão (ainda que de forma bastante superficial) talvez seja inevitável.

Jorgen Leth toma como ponto de partida, para a realização deste curta-metragem, o seguinte conceito: fazer um filme que negue a verdade desorganizada propagada pelo cinema-verdade, muito em voga nos anos 60 (The Perfect Human é de 1967). Leth propunha algo completamente oposto à “imperfeição” presente nos documentários do tipo Crônicas de Um Verão, de Edgar Morin e Jean Rouch. O dinamarquês buscava o controle pleno ao invés do imprevisto, o rigor ao invés do improviso.

O que temos então é a “apresentação” didática (e, é claro, profundamente irônica) da espécie humana. Uma atriz e um ator postos em um cenário feito de paredes brancas, onde não se vê as divisas entre elas (teria George Lucas visto este filme e copiado a idéia em THX 1138?), fazem coisas de humanos: dançam, pulam, trocam de roupa, comem etc.

A câmera estuda os dois personagens, aparentemente com o mesmo interesse de um cientista – o dinamarquês é também antropólogo, afinal - que analisa algo no microscópio: Leth utiliza muitos planos próximos e planos detalhe, uma estratégia que parece resgatar a estética de um Bela Balázs e de certos vanguardistas norte-americanos, contemporâneos a The Perfect Human, que acreditam no poder revelador do close-up.

Leth, mais do que isso, provavelmente acredita no poder da verdade organizada. Mesmo que tenhamos aqui um filme com atores que participam de uma encenação, não seria um absurdo considerar um curta-metragem como um documentário (discutir quais os limites entre o documentário e a ficção levaria, no mínimo, 13 volumosos livros, mas não custa dizer que me agrada o pensamento de Roger Odin, que diz que o limite da identidade de um e outro está não só no objeto-filme, mas também no tipo de leitura empregada pelo espectador). Mas, no fim das contas, pouco me importa qual é o gênero de The Perfect Human ,e sim as estratégias utilizadas por Leth, que consegue ser humanista mesmo lançando mão de certos recursos que poderiam ser considerados como extremamente objetivos ou científicos.