30 de setembro de 2008

A Culpa é do Fidel, de Julie Gavras


Gosto dos poucos filmes do Costa-Gavras que já vi. Acho bem válida a intenção de se fazer denúncias políticas, filmes políticos, mesmo que para isso precise se utilizar de uma narrativa clássica e hollywoodiana, de modo que assim suas obras consigam uma maior visibilidade. Mas muito me incomoda este A Culpa é do Fidel, cuja intenção política fica escondida por atrás de um roteiro meigo e fofo. É um filme desonesto, que apunhala o espectador pelas costas.

A história é de Anna, uma menina de 9 anos que, em 1970, vê sua vida mudar completamente por causa do engajamento político de seus pais. Porém, ao contrário de filmes como Quando Papai Saiu em Viagem de Negócios, de Emir Kusturica, Machuca, de Andrés Wood, ou O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, de Cao Hamburger, a intenção de Julie Gavras não está em mostrar o universo dessa criança em meio a tortuosos conflitos políticos, mas sim em apenas doutrinar sua protagonista, e conseqüentemente o espectador, a certos ideiais políticos. A personagem de 9 anos é apenas um elo de ligação para que Julie Gavras possa ensinar suas posições políticas bem claramente ao espectador, e dá-lhe a menina fazendo perguntas que a diretora precisa que ela faça, seguida de personagens adultos dando explicações desnecessárias sobre distribuição de renda.

Ao fim do filme, Anna finalmente se transforma, pois é assim que ensinam os manuais de roteiro: personagens devem passar por uma transformação. No plano final, Anna entra numa escola pública, agora sem uniformes, em um universo de cores, ela começa meio perdida, até que uma roda se abre, ela dá a mão a outras crianças e começa a brincar com elas. A câmera em pino se afasta, e temos uma cena final tão ou mais maniqueísta do que aquela de A Lista de Schindler, de Steven Spielberg, e a partir daí há muita coisa a se pensar sobre as intenções da diretora.

Por causa das atuações e da excepcional direção de arte, podemos até dizer que A Culpa é do Fidel é um bom filme dentro de sua proposta. O problema é que sua proposta é desprezível.