John Landis fica surpreso quando lhe perguntam se este filme lançado em 1980 é um musical. Para o diretor, a resposta é um sim tão óbvio que não deveria jamais suscitar tal pergunta. Talvez Os Irmãos Cara de Pau não seja mesmo um musical tradicional, daqueles criados pela Broadway e popularizados pelo cinema norte-americano nos anos 50, cujo “modelo” povoa a mente da maioria das pessoas.
Neste formato, a narrativa é inevitavelmente interrompida – muitas vezes de maneira súbita - pelos números de dança, razão de ser deste gênero cinematográfico. No longa-metragem de Landis há três momentos em que os personagens repentinamente abandonam o que estão fazendo para começar a dançar e cantar (a cena com Aretha Franklyn, a com James Brown e a com Ray Charles). A narrativa não avança, fica suspensa para que o número seja realizado. Tais momentos, em um filme com mais de duas horas, são minoria, no entanto. O que mais se vê são números musicais “tradicionais”, mas incorporados na diegese – os Blues Brothers se apresentando em um palco, por exemplo – e números musicais um pouco menos “tradicionais”, compostos por perseguições de carro, capotagens, derrapagens etc.
Sim, pois não há dúvidas de que pra existir um musical/cinema/dança/música é necessário movimento. O movimento, em um filme com seres humanos, provem dos corpos. Mas não só deles: também de suas extensões. E, o automóvel, ainda mais para os norte-americanos, é uma extensão do corpo humano (o grande Christine, de John Carpenter, trata desse assunto de maneira bastante interessante). Basta ver a quantidade de carros que o país produz – ou melhor, basta que se saiba da existência de Detroit - , para se comprovar tal fato. Não é nem preciso chegar aos filmes e quantidade de máquinas de quatro rodas que transitam dentro deles.
O carro dos irmãos Blues, assim como os grandes dançarinos, faz diversas proezas, se desdobrando em movimentos aparentemente impossíveis para um carro normal. Por quê? Ora, simplesmente porque “é um carro mágico”! (resposta dada por Landis a Dan Ackroyd, que além de ser um dos protagonistas do filme, é co-roteirista. O ator insistia em colocar no roteiro uma cena que explicasse qual a origem dos poderes do carro. Landis achava desnecessário. Infelizmente a cena foi filmada e, na versão estendida do dvd, lá está ela, totalmente inútil e indecifrável). É esse carro mágico que vai gerar o movimento, a coreografia em grupo. Afinal, as cenas de perseguição tem muito mais ritmo e são muito melhor coreografadas do que as desengonçadas danças de John Belushi e Ackroyd em cima dos palcos.
Se não é a dança humana o mais importante, aparentemente também não é a música. Os irmãos Blues, que vivem absolutamente à margem da sociedade, ouvem e tocam blues, uma música originalmente também marginal. Só que os dois são brancos e o som que eles fazem, apesar de muito bom, é um blues um tanto diluído (é claro, seria terrível se eles tentassem soar como negros), tocado por uma banda em que a maioria das pessoas é branca. O blues dos irmãos Blues, portanto, é muito pouco subversivo, diferente do que é feito por John Lee Hooker, em uma cena na rua, muito bem filmada por Landis. Então, não é com o blues que Jake e Elwood vão aprontar contra o “sistema”, ou contra outros marginais, mas com o carro, arma originalmente criada por brancos para brancos. Um carro de polícia, é claro, porque Landis tem um grande senso de ironia.

É com o automóvel que os irmão avançam loucamente, sempre destruindo o que fica para trás, pondo em pedaços duas instituições responsáveis pelo bem estar social: o shopping center e a própria polícia. A dança da destruição dentro do shopping, com carros indo pra lá pra cá, derrapando para todos os lados, em um espaço bem limitado, é fantástica. Elwood na direção, se contorcendo para segurar o volante, não deixa de estar dançando também.
Não se pode deixar de lado a música, obviamente, já que Landis escolhe deixá-la tocando quase o tempo inteiro. Pode-se dizer que os personagens são motivados pela música de forma indireta. Por isso Landis encena as perseguições de carro de forma muito mais selvagem do que as apresentações dos Blues Brothers. Com exceção do show no bar country, em que a platéia atira ininterruptamente garrafas na banda, nos outros concertos vemos o público bastante comportado. A música dos irmãos não incita, ao menos aparentemente, qualquer tipo de rebeldia (não que esse fosse obrigatoriamente seu papel).
Em Os Irmãos Cara de Pau Landis parece preferir deixar a dança um pouco mais a cargo das máquinas do que das pessoas. Vindo de alguém que nasceu em Chicago, e que começa seu filme com um travelling aéreo mostrando várias fábricas pesadas, não é nada incoerente.
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