22 de janeiro de 2009

O Curioso Caso de Benjamin Button, de David Fincher


Cinema é passado. O que vemos na tela são nada mais do que ecos do ontem. Esta formulação é básica e já bastante difundida. Usada também (e, provavelmente, primeiro) para se falar da fotografia. Barthes. E, possivelmente, outros tantos teóricos que desconheço.

Fincher, geralmente um grande picareta, faz, em O Curioso Caso de Benjamin Button, um belo e não-picareta uso da noção citada acima. Seu filme é passado, e o passado em seu filme é cinema. Um flashback, logo no início do longa, que conta a história de um relojoeiro, nos é mostrado como se fosse uma projeção “antiga”. As geniais gags do homem que é atingido sete vezes por um raio, também nos é mostrada a partir desta lógica.

Cinema é o tempo. Jacques Aumont já escreveu que todo grande cineasta se preocupa, de alguma forma, com esta questão. A longa duração de O Curioso Caso de Benjamin Button faz sentir de forma eficiente a passagem do tempo (frase de Jean-Louis Chéfer referente ao cinema, citada também por Aumont: “a única experiência na qual o tempo e me dado como uma percepção”).

Estas pequenas escolhas estéticas de Fincher são as únicas possíveis para um filme que trata, em forma de fábula, da passagem do tempo. O cineasta, ao descobrir a essência de um filme, dá ao espectador a chance de perdoar eventuais cafônices, falhas, mau uso do melodrama, ou seja lá o que for, presentes no roteiro. Males estes dos quais O Curioso Caso de Benjamin Button não escapa.