10 de janeiro de 2009

Romance, de Guel Arraes


Nada de mais neste filme que não é um filme, e sim uma redundância. Quer dizer, “nada de mais” no sentido de algo novo, criativo, ou até interessante. Porque o “mais” está sempre presente em Romance: a partir do momento em que se estabelece o “tema”, a base teórica da história (a narrativa de Tristão e Isolda), o que se dá logo no início, não haverá descanso para o espectador. A todo instante Arraes re-diz o já dito, acrescenta à soma, mostra o já visto. Muito de forma verbal, mas não só: o motivo das duas taças de vinho, enquadradas em detalhe, aparece no mínimo três vezes, não para dar novo significado a uma informação antiga, mas para simplesmente reforçá-lo. "Conte para eles o suficiente para lhes deixar algum mistério", disse John Ford. Arraes não ouviu.

Da mise-en-scène pobre, que, em diversos momentos, se pretende teatral (para justificar a história, que trata de um diretor de teatro e uma atriz), mas que nem isso consegue alcançar, chegando, no máximo, a ser uma plataforma para o overacting dos atores – Letícia Sabatella, para ser mais preciso – pouco há o que falar. A não ser o seguinte: Arraes parece estar filmando exatamente o especial de TV de um capítulo que o personagem de Wagner Moura realiza na diegese. Tanto é que a decupagem de determinada cena do tal programa, quando nos é mostrada pelo diretor de Lisbela e o Prisioneiro, que teoricamente é independente das escolhas feitas pelo 'diretor diegético', é muitíssimo parecida com a que é feita pelo personagem de Moura e que depois nos é mostrada pela TV, quando o programa está sendo exibido aos outros personagens. A velha e batida acusação de que Arraes faz televisão em tela grande continua, firme e forte.

Mas, é preciso ser dito: como o criador de um inventário de tipos, o diretor é bastante competente. A produtora e o produtor que só pensam em ganhar dinheiro, interpretados por Andréa Beltrão e José Wilker, respectivamente, são engraçadíssimos. Outras caricaturas, como o do ator veterano mala, o aspirante a ator mala e a do ator/diretor de teatro com integridade artística, seja lá o que isso queira dizer, também são muito bem feitas.

Quem sabe, Romance daria uma satisfatória (em termos de audiência) minissérie especial em quatro capítulos. Para o cinema, no entanto, ainda é muito pouco.