Sweeney Tood - O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet é de Tim Burton.
Em um trecho do outro texto que o filme recebeu aqui no blog, o amigo Wellington Sari escreve que: devido ao clima, ao tom, ao discurso e à repetição de signos é possível identificar
Sweeney Todd - O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet como pertencente a um “lugar” que só Burton poderia criar, dentro do imaginário cinéfilo. O que mais me fascina em Tim Burton é como, ao mesmo tempo em que seus filmes pertencem a um mesmo universo, que é somente seu e único, o cineasta parece conseguir ampliar esse universo a cada novo filme que faz. E esse texto, que ficou grande demais e por isso é dividido em duas partes, é sobre isto. (e o subtítulo brasileiro de
Sweeney Todd é muito extenso, por isso o chamarei pelo título original pelo resto deste texto)
Nunca Burton foi tão pessimista e sanguinolento quanto em
Sweeney Todd. Nem parece o mesmo cineasta que debutou em longas-metragens com
As Grandes Aventuras de Pee Wee, filme um tanto Sessão da Tarde, produzido pela Disney, mas que já vinha com a marca Burton, especialmente no seu exótico personagem principal e na arte, colorida demais e com objetos bizarros de tamanhos dos mais variados.

Em
A Fantástica Fábrica de Chocolates, seu filme anterior a
Sweeney Todd, Burton parece evocar
As Grandes Aventuras de Pee Wee nas cores de sua arte (dessa vez com muito mais dinheiro, claro). Mas a doçura e ingenuidade de Pee Wee Herman, aqui é trocada pelo mais psicótico personagem de Tim Burton: Willy Wonka. Em
A Fantástica Fábrica de Chocolates, a arte exótica e colorida é uma forma de Burton explorar e aumentar ainda mais a excentricidade do seu Wonka maluco. A grande diferença entre esses dois personagens, em filmes tão parecidos, pode nos servir como uma análise pela mutação da carreira do diretor.
A cada nova obra, Burton mostra que não tem mais a ingenuidade de seus primeiros filmes. Nessa nova fase do diretor, Pee Wee, Edward (o mãos de tesoura) e Ed Wood, dão lugar a Willy Wonka e Sweeney Todd, personagens impensáveis nos filmes do início da carreira do diretor. Mesmo quando, no início de sua carreira Burton fez de um louco e psicótico seu personagem principal, o Beetlejuice, de Os Fantasmas se Divertem, tinha um quê ingenuidade em suas maldades, e as fazia se divertindo, sem se preocupar realmente as conseqüências de seus atos. Muito diferente da tristeza e do remorso estampados nos rostos de Wonka e Todd. O clima de sonhos e, mais uma vez, a direção de arte, também diferencia Os Fantasmas se Divertem de Sweeney Todd e A Fantástica Fábrica de Chocolates.
Por falar em sonhos, a mais bela cena de Sweeney Todd provém de um sonho da personagem de Helena Bonham-Carter. É neste sonho que, pela única vez durante todo o filme, se abandona a cinzenta Londres para se entrar num mundo fantástico, cheio de cores. É como se A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça abandonasse por um momento seu clima de terror para que alguns Oompa Loompas aparecessem saltitando na tela. Impressiona nesta cena é que, mesmo em sonho, o personagem interpretado por Johnny Depp não ri. Em momento algum, durante todo o filme, o barbeiro Sweeney Todd esboça qualquer reação de felicidade. Nele só há tristeza, e o desejo por vingança.

A cinzenta Londres de
Sweeney Todd guarda certa semelhança com o mundo dos vivos de
A Noiva-Cadáver. Na animação, havia o mundo dos mortos cheio de alegria, amor e números musicais (mais ou menos) felizes, enquanto breves cenas do mundo dos vivos, eram tão tristes e cinzentas quanto
Sweeney Todd. A impressão é que dessa vez Burton resolveu ambientar todo o seu filme no mundo dos vivos de
A Noiva-Cadáver, e a escolha de fazer esse filme tão pessimista a partir de um musical é, no mínimo, ousada.
Tanto o herói quanto o vilão de
Sweeney Todd afirmam, em momentos distintos do filme, sua descrença na humanidade. Para Burton, a felicidade está nos sonhos, e não na realidade. Está também no cinema, e talvez por isso seus filmes sejam tão bons.
continua....