Há uma ambigüidade em Jogos de Poder que, em certa medida, lembra a de Tropa de Elite. Nos dois casos é um tanto nebuloso compreender se a voz dos personagens é também a voz do filme (para re-adpatar um pouco o conceito utilizado pelo crítico Eduardo Valente, no texto sobre o longa- metragem de José Padilha, escrito para a Revista Cinética em setembro de 2007).
É, provavelmente, muito por causa dos protagonistas que a dubiedade de sentidos ganha força. O fato de tanto o Capitão Nascimento, quanto Charlie Wilson executarem “serviços sujos” - o primeiro impõe a lei à força, o segundo investe dinheiro para que a “lei” seja imposta à força - e, ao mesmo tempo, serem carismáticos, o que, no caso, se dá muito pela escolha dos atores que interpretam os personagens, é algo que ajuda a evitar o maniqueísmo. Além de ser uma estratégia que invariavelmente gera polêmica (A Queda - As Últimas Horas de Hitler, de Oliver Hirschbiegel, é só mais um exemplo).
Para evitar pisar no terreno lamacento do simplismo, é mais sensato deixar de lado as comparações entre o filme de Padilha e o de Mike Nichols. Até porque, a bem da verdade, existem mais diferenças do que semelhanças entre um e outro. Mas continuemos na questão da ambigüidade.
Jogos de Poder não deixa claro de que lado está. É difícil saber se o filme é um resgate das ações do congressista texano Charlie Wilson, que no fim dos anos 80 ajudou os afegãos, dando-lhes dinheiro e armas, na guerra contra os comunistas soviéticos e que só não foi um herói completo por não ter auxiliado o Afeganistão a construir escolas, depois de terminado o conflito (a frase “nós fizemos tudo certo, apenas no finalzinho é que fodemos um pouco”, do próprio Charlie Wilson, encerra o filme), ou, é uma critica irônica à política externa dos Estados Unidos, que primeiro ajuda um país, e depois, anos mais tarde, o invade.
É possível que a segunda opção seja mais plausível em relação à primeira. Afinal, “11 de setembro”, “guerra contra o terrorismo”, “eixo do mal”, “Bin Laden” e “guerra do Afeganistão”, são expressões e nomes bem conhecidos de muita gente. Seria ingenuidade de Nichols, e de todos os outros responsáveis por Jogos de Poder, não levar em conta que leitura do longa-metragem seria feita através destes acontecimentos recentes da história norte-americana. Mas, vale repetir: não dá para ter certeza de que a “segunda opção” é a voz do filme e que a primeira é a voz dos personagens. Ou ainda, se as duas vozes se misturam.
A persona cinematográfica criada por Tom Hanks é algo muito presente em neste longa-metragem. Seu Charlie Wilson, como sempre, é um cara legal, simpático e engraçado, mesmo fazendo coisas ideologicamente abomináveis. Já os soviéticos, na única vez em que aparecem, se não são simples rostos escondidos atrás de viseiras negras, como em Top Gun ( o “sonho masturbatório reaganista”, segundo Douglas Kellner em A Cultura da Mídia), também não são nada agradáveis: pilotando helicópteros de alta tecnologia, eles conversam sobre assuntos casuais, enquanto metralham mulheres e crianças afegãs. Não é preciso pensar muito para saber quem terá a preferência da platéia. Como em Rocky IV, o vilão, no ano de 2008, volta a ser o comunista-assassino-frio. O que é algo muito, muito estranho.
Há outras estratégias esquisitas, como as cenas que abrem e fecham o filme, em que as escolhas dos planos (gerais, mostrando uma platéia, closes de Hanks e de Julia Roberts, fazendo cara de aprovação), os suaves travellings e a trilha sonora repleta de instrumentos de cordas, só fazem ressaltar o lado heróico de Charlie Wilson – a cena, precedida por outra que mostra o congressista em close, com os olhos cheios de lágrimas, trata de uma cerimônia para condecorá-lo pela ajuda na guerra contra o comunismo...
16 de março de 2008
Jogos de Poder, de Mike Nichols
por
Wellington Sari
às
01:24:00
Marcadores: Mike Nichols
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