24 de março de 2008

A Casa de Alice, de Chico Teixeira


Há uma veia documental bem presente no modo como Chico Teixeira filma sua primeira ficção (antes ele havia trabalhado apenas com documentários). O naturalismo que A Casa de Alice consegue atingir, especialmente em seus 30 minutos iniciais que, por sinal, beiram a genialidade, chega a ser impressionante. Com a apresentação desse grupo de personagens, incrivelmente reais, e do lugar onde residem, A Casa de Alice logo aposta numa identificação com o público. Chico Teixeira lança seu olhar sobre uma família de classe média-baixa da urbana cidade de São Paulo. Uma fatia da sociedade brasileira ainda pouco aproveitada pelo nosso cinema;

A personagem principal é Alice, manicure, mãe de três filhos, mora em um apartamento com a mãe, o marido e os filhos. Impressiona que mesmo com uma protagonista quarentona e com três filhos, e ao contrário das frígidas mães que costumam povoar a maioria das produções mundiais, o filme não se covarda ao mostrar a relação entre Alice e o sexo, sem ignorar em momento nenhum sua libido. Alice admite ser feita de carne e osso, repara bonitões no bar e no ônibus, e até quando diz que não é tão fácil assim, uma breve cena anterior, dentro do ônibus que a leva ao trabalho, logo desmente essa afirmação. Mais tarde, seu reencontro com um amor de sua infância, e marido de sua principal cliente, só vem a confirmar essa particularidade de Alice.

Além de Alice, cuja interpretação de Carla Ribas é muito boa, mas fica um pouco over nos momentos mais dramáticos (mais por culpa do roteiro do que qualquer outra coisa), ainda há uma gama de personagens interessantes, todos muito bem interpretados. Apenas senti o Lindomar, interpretado por Zé Carlos Machado (cujo rosto me lembra inevitavelmente Ação Entre Amigos, de Beto Brant), mal aproveitado pelo filme. Merecia algumas cenas a mais, mas talvez tenha sido deixado de lado por ser, dentre os personagens principais, o único essencialmente ruim.

Ainda em relação às interpretações, não se pode deixar de notar nos créditos o nome da preparadora de elenco Fátima Toledo. Pode ser questionável a necessidade de um profissional desses em um filme (trabalhar com elenco é função do diretor, alguns dirão), mas é inegável o resultado que essa mulher tem conseguido em praticamente todas as produções na qual trabalhou, com alguns dos mais importantes cineastas nacionais vivos, e que conseguiu mais uma vez com A Casa de Alice. Hector Babenco em Pixote e Brincando nos Campos do Senhor, Walter Salles em Central do Brasil, Carlos Reichenbach em Dois Córregos e Garotas do ABC, Fernando Meirelles em Cidade de Deus, Karim Ainouz em O Céu de Suely, e José Padilha em Tropa de Elite são alguns dos nomes e filmes que também contam com seu nome nos créditos. Grande parte da qualidade de A Casa de Alice também é fruto do trabalho de Fátima Toledo.

Apesar do início genial, do naturalismo alcançado, das boas atuações e dos ótimos personagens (e esse início de frase me lembra uma comum e hilária piada do Rock & Gol, mas isso não vem ao caso), o filme se perde um pouco na metade de sua projeção. Me pareceu haver uma necessidade de que cada personagem tivesse seus próprios conflitos e, ao deixar isso muito evidente, o roteiro se perde. Neste emaranhado de conflitos, alguns deles se mostram mal aproveitados e resolvidos, e outros meramente inúteis. Mas nem isso desmerece esse belo retrato de Chico Teixeira, um diretor que parece ter grande futuro nas ficções. A Casa de Alice é um filme que merece ser visto.